A arte de se endividar

A arte de se endividar

Cartões “mágicos” de crédito são absurdamente sedutores, dourados, black! E, apesar de lhe trazerem a maravilhosa sensação de poder e riqueza, na verdade, eles o consomem, até você perceber que eles não são apenas cartões de crédito, mas de dívidas

Cartões mágicos! Não. Eles não são mágicos, eles são muito mais! São absurdamente sedutores, dourados, black’s! E, apesar de lhe trazerem a maravilhosa sensação de poder e riqueza, na verdade, eles o consomem, até você perceber que eles não são apenas cartões de crédito, eles também são de débito! Eles são cartões de dívidas!

Absurdamente sedutores, dourados, black’s, avermelhados, eles possuem várias cores, você não o escolhe, é ele quem escolhe você, é ele quem decide quem você realmente será no futuro. No início, tudo o que você precisa é de uma loja, de um shopping, e de uma boate, nada mais. Você está completamente satisfeito com a sua vida, você está vivendo o que você sempre quis viver, você se quer precisa de sexo ou de um namorado! E quando você está andando pelas prateleiras, é como se as roupas tivessem um encatamento, que é lançado bem nos seus olhos, é como mágica, e você se quer precisa ver o dinheiro.

É excitantemente eufórico, nós precisamos daquela jaqueta, “Ó meu Deeeeeus!”, imagine eu usar aquela jaqueta, aquela blusa, não! Eu preciso de mais blusas, você precisa de mais blusas, mais calças, e tudo o que você quer, é tentar encontrar uma calça com um detalhe um pouco diferente da que você está carregando nas mãos, porque não é a mesma calça, não é! Elas são diferentes! Ah, e as blusas, pelo menos uma de cada cor das cores que a gente mais gosta! E depois de trinta minutos, você percebe que já está querendo as de todas as cores que existem no mundo!

Sabe aquele súbito arrepio que você sente quando pensa em ir ao shooping?! Pois é! É uma das melhores coisas que a gente pode sentir! A depressão, a tristeza, e o choro, os problemas, simplesmente se esfumaçavam, desapareciam, quando eu começava a comprar. Contas de água e luz que são as básicas, caem para último lugar na lista de prioridades. Você agora precisa de um celular, não é qualquer celular, você quer aquele celular que sempre sonhou, e quando você abre a carteira, você olha pro cartão, ele te olha de volta, mas, é como se fossemos abduzidos, alienados, conseguimos ouvir até mesmo eles dizerem “me pegue, e seja feliz! Está esperando o que?! Vamos, só um pouquinho, alguém pode acabar levando o que você quer, e você se arrependerá depois, então seja o primeiro, me tire dessa carteira, preciso respirar!” É, parece coisa de louco, mas, não é!

E então, lá se foi o mês, e você está trabalhando, seu melhor dia é a sexta-feira, quando você coloca aquele sapato novinho, aquela calça, aquela blusa, você está vestido(a) “para matar”, você está espetacular! Mas, de repente, nos lembramos de que existe correio, que entregam aquelas cartinhas. E então pensamos “ah, deve vir pouco, acho que não tem perigo”, e quando você abre o envelope, a primeira coisa que você diz é: “Meu Deus!”, você fica branco, começa a suar frio, suas pernas tremem, seu coração acelera, e é como se o mundo virasse de cabeça para baixo, desproporcional, você está começando a cair, e cai bem feio na cama de casal que também é novinha, e que você comprou, apesar de ser solteiro, mas, você queria a cama, queria espaço, rolar para lá e para cá, só não pensou que no futuro, iria rolar de preocupação ali em cima.

Limite estourado! Ok, tudo bem, vamos ver o que posso fazer, porque eu ainda preciso, de mais algumas coisas. É. Eu preciso mesmo (que na verdade, eu não preciso, mas, só iria descobrir no futuro). Empréstimos, e mais empréstimos. Estranho, bem estranho, porque quando sua conta está verde, lhe oferecem um mundo de dinheiro que você não tem, e você acha que vai conseguir pagar, porque você tem um emprego fixo, mas, na verdade, você não vai conseguir pagar, porque os juros são altos. E agora, a parte ainda mais estranha, quando você abre sua conta bancária, e percebe que está tudo vermelho, e mesmo assim, você ainda consegue clicar no botão de empréstimo! É ali que está a cilada! Acabei criando um ditado: “Lobos comem carne, mas, quando não tem mais carne para comer, sobrevivem de pedaços. (juros)”.

Quantos zeros devem ter ali, que podem suprir a minha necessidade? Este é o momento em que fico me questionando sobre a quantidade de dinheiro que devo ter na conta, coisa que eu deveria ter feito antes. E eu corro o risco de ter a água cortada, e a luz também, porque todo o dinheiro, eu já gastei em todos os outros mais de vinte e cinco dias do mês.

Parabéns, você conseguiu o que os meus cartões mágicos queriam! Respirar! E, tentar achar uma saída. É quando você começa a trabalhar mais do que deveria trabalhar, e não tem mais vida social, eu não assiste mais nada na  TV de cinquenta polegadas, eu não acessa o Wi-fi até de madrugada, e não dorme na cama nova, e eu não aproveita o banho no seu chuveiro automático que lhe custou muitos zeros! Você não vive mais como queria viver, e tudo o que você quer, é rezar, para que um milagre aconteça!

E lá se foi o dia, tenso, conturbado, pensativo, e a noite chega, e o desespero também, porque não possode mais sair, não pode ir para a boate, não pode gastar. E a sexta-feira chega, e não pode ir para a balada, e sábado e domingo chegam, shooping, nem pensar, como vai sair com todas estas contas para pagar?

Mas, dizem que sempre aprendemos com a vida, e se não aprendemos por bem, aprendemos por mal. De uma forma ou de outra. É inevitável. E quando, um fio de esperança surge, e você não vê mais possibilidades de se recuperar, lhe surge a ideia, de que o seu nome ainda está limpo, e você ainda tem mais muitas outras opções de cartões que você pode fazer.

E aquela sua profunda vontade, compulsiva de gastar, está a tona novamente, e agora, você guarda os seus cartões usados, e substitui pelos novos, novas cores na sua carteira, elas até ficam mais elegantes, porque elas estão vivas, e cheias de dinheiro!

E lá se vai você, fazer exatamente o mesmo processo que acabou de fazer, até que um dia no futuro, você caia na realidade, e perceba, que você está realmente endividado.

Amigos, escrevi este artigo, baseado em minha experiência. Consumista descontrolado, tento fazer o possível para não gastar mais do que devo, é difícil, eu sei, às vezes preciso de terapia comigo mesmo em frente ao espelho, mas, sempre dou um jeito. Antes era mais frequente, agora um pouco menos, e em breve, perceberei, que depois que tudo ficar verde, saberei que vermelho é a cor que menos gosto.

Abraços!


Fonte: Artigos Administradores / A arte de se endividar

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