A caixa da crise

A caixa da crise

Quando inovar e empreender é a saída nos tempos de crise econômica.

A primeira coisa que se raciocina sobre empreender nesse período de crise política, econômica, e até social, é quão loucura isso é. Em tempos onde muitas portas estão fechando, como pensar em abrir um negócio? Pesquisar sobre o assunto na internet significa encontrar aquela teoria dizendo que sim, em tempos de crise é que se pensa fora da caixa e deve-se empreender. Mas é muito fácil falar né? O que não se imagina é que dá para provar!

Pensando em todo esse otimismo, e tentando entender como ter sucesso em abrir algo enquanto convive com uma fase de recessão, é que se volta para o livro de história tentando relembrar períodos de grandes crises no país e no mundo. Essa tarefa não é muito difícil, basta lembrar a crise de 29, as guerras mundiais, o pós-milagre econômico, a volta da democracia no Brasil, e pronto, não há nem o que discutir. Com isso na mão, é hora de buscar grandes empresas que surgiram e encararam épocas como essa.

É possível encontrar empresa fundando em 1929, um momento de recessão nos Estados Unidos que impactou o mundo inteiro, no caso do Brasil de forma negativa. Foi a coragem das Lojas Americanas, empresa brasileira do segmento de varejo que nasceu em Niterói, no Rio de Janeiro. Sua descendência, no entanto, é austríaca, por Max Landesmann, e norte americana, por John Lee, Glen Matson, James Marshal e Batson Borger, seus fundadores. Atualmente é controlada por Jorge Paulo Lemann, Marcel Herrman Telles, e Carlos Alberto Sucupira.

Em 1929 os fundadores da empresa estavam viajando rumo à Buenos Aires para abrir um empreendimento no modelo de varejo com produtos baratos, quando conheceram o brasileiro Aquino Sales no navio e foram convidados a conhecer o Rio de Janeiro. Ao chegar, perceberam uma grande quantidade de funcionários públicos e militares com baixos salários e renda estável, mas não encontraram lojas segmentadas para esse público, então enxergaram a região como lugar propício para abrir o negócio almejado. No final do primeiro ano já eram três lojas no Rio e uma em São Paulo, e a partir daí escreveram uma trajetória de grandes decisões estratégicas e muito sucesso.

Avançando alguns anos e chegando a um momento em que houve o avanço industrial brasileiro, justificado pela impossibilidade de importação devido à segunda guerra mundial, é que nasce em 1944 a Sadia. A história começa com a aquisição de um frigorífico em dificuldades na região que, em um passado não muito distante daquela época, era considerada de difícil acesso, mas que estava prosperando.

A companhia teve muitas dificuldades no seu inicio para transportar seus produtos para os grandes centros de consumo, visto que trabalhavam com alimentos perecíveis e não existia a tecnologia de caminhões refrigerados. Sendo assim, a saída encontrada foi a criação da Sadia Transportes Aéreos, que além de suas mercadorias, transportavam passageiros. A partir de então, a empresa trabalhou para ingressar no mercado externo e registrar na sua história muitas conquistas, mas também dificuldades, como em 2008 que apesar de encerrar o ano como a maior empresa exportadora de proteína animal e a maior produtora de carnes, também encarou um prejuízo de 2,5 bilhões de reais, causado por suas operações cambiais que apostavam na baixa do dólar. No entanto, apesar dessa “lesão”, a empresa teve uma gestão estratégica plausível, se unindo com, a também brasileira, Perdigão e fundando a Brasil Foods, conseguiu se recuperar, e hoje continua como uma das grandes no mercado que atua.

Falando já da década de 70 o país vivia o auge do milagre econômico, mas apesar de ter crescido uma taxa de 14% em 1973, logo depois sentiu o sabor de várias crises, com a inflação chegando a 2500% ao ano, diversos planos econômicos e moedas fracassadas, além dos nove presidentes que governaram o país. Diante desse conjunto, o Brasil voltou a ser um país democrático, e abriu suas portas para a concorrência estrangeira fazendo, consequentemente, com que muitas empresas nacionais sucumbissem com tal mudança no mercado.

É preciso ser diferente, pensar diferente, agir estrategicamente rápido e, principalmente, se adaptar ao mercado para resistir tamanhas alterações. E um exemplo de companhia que soube “operar fora da caixa” é o grupo Votorantim, que trabalha com cimento, siderurgia, celulose, suco concentrado de laranja, energia e finanças.

Para entender melhor, enquanto o governo se preocupava com a conjuntura do país, a Votorantim buscava soluções inovadoras para seus problemas. Dentre elas está o uso do carvão vegetal extraído das florestas de eucalipto para base de sua matriz energética, diminuindo assim os custos com o petróleo importado, que estava em um período conflituoso de altos preços. Com isso o grupo bateu o recorde na produção de alumínio em plena crise econômica.

Trazendo para um cenário mais atual, o Brasil está lidando com uma crise econômica, com altas taxas de desemprego e inflação, baixo desenvolvimento econômico, um PIB que ano passado teve a maior queda em 25 anos, dentre diversos problemas. Aliado a esse cenário está a crise política, tendo como ponto alto o afastamento da presidente Dilma por até 180 dias diante do processo de impeachment, além das investigações envolvendo diversos políticos, inclusive o ex presidente Lula. E como se não fosse o bastante, é clara a crise social em que a sociedade diverge de opiniões e entram em conflito por qualquer motivo basta concordar ou não com o impeachment, ser de direita ou de esquerda, dentre assuntos importantes e até mesmo banais.

Apresentando uma crise diferente, com cenário completamente distinto das outras crises citadas, podemos encontrar empresas mais recentes, e que enfrentam esse período com sua estratégia, de modo que consigam taxas de crescimento, mesmo não tendo os recursos que companhias mais antigas, e maiores, possuem.

Exemplo claro de empreendedorismo mais recente é a empresa Beleza Natural, fundada em 1993 por quatro sócios, Heloisa Assis,Jair, Rogério Assis, e Leila Velez. Como a própria companhia se apresenta, acredita-se na renovação do conceito de salão de beleza com a profissionalização do negócio, gestão empresarial, e inovação em processos e produtos. Vivendo em uma sociedade que habitualmente cultua a beleza europeia dos cabelos lisos, a proposta do salão está nas soluções para cabelos crespos e ondulados, sem perder a essência e o estilo desses tipos de cabelos. A aposta reflete a concepção de que cada uma pode ser bonita do jeito que é. Dessa forma, atualmente a rede se faz presente em 5 estados, e são mais de 40 unidades de negócios.

No campo do empreendedorismo digital com forte elaboração de conteúdo, encontra-se o Portal Administradores. Idealizada por Leandro Vieira em 2000, mas indo ao ar apenas em 2004, hoje o site é referência em assuntos relacionados à Administração, tendo uma média de 6 milhões de visualizações mensais, e 350 mil usuários cadastrados. Tal exemplo firma a ideia de que para empreender não requer momento nem lugar específico, e sim estratégia e dedicação, visto a tamanha concorrência de geração de conteúdo online existente, e a dificuldade de ser referência dentro de um meio tão amplo e de fácil acesso.

Com todos os exemplos citados, é possível identificar que saber entender cada problema dos diferentes períodos vividos, e estar aberto a tomar decisões distintas, é sem dúvida um enorme desafio. Sendo assim, percebe-se que tudo é uma questão de gestão, agilidade e criatividade, e dentro desses quase 90 anos sobreviveu quem tinha bons gestores, rápida compreensão do mercado, e esteve aberto a inovações para solução dos problemas.

 


Fonte: Artigos Administradores / A caixa da crise

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