A crise passará, mas o Estado permanecerá. O que restará dele?

A crise passará, mas o Estado permanecerá. O que restará dele?

Na maioria dos caos, as crises passam, mas a marca permanece

“Pagar um pouquinho mais de imposto é investimento no país”. Essa foi a frase de Joaquim Levy, Ministro da Fazenda, no anúncio das medidas a serem aplicadas depois do rebaixamento do grau de investimento do Brasil. Assim como ele, os atores políticos desta crise são protagonistas de um festival de frases de efeito que servem mais para agravar a percepção da falta de preparo em gestão de crise do que para esclarecer a população sobre a conjuntura atual. A pouca habilidade não se restringe apenas ao âmbito político e econômico, ela está impregnada na incapacidade de comunicação e preservação da imagem institucional do Estado.

Em nosso cotidiano, quando uma empresa passar por uma crise, a recomendação básica dos profissionais de comunicação é para os porta-vozes dizerem a verdade, seja ela qual for. É preciso, no entanto, saber como transmitir a verdade de maneira positiva ou, pelo menos, de forma a não piorar o cenário de crise instalado. Isso não é apenas um detalhe, empresas de capital aberto, por exemplo, sabem que uma declaração mal elaborada pode despencar o valor de suas ações e espantar investidores. É prejuízo na certa!

Além disso, as crises passam, mas a marca permanece, na maioria dos casos. Se isso acontece, é fundamental preservar pela sua reputação, pois a marca alavancará uma recuperação e fortalecerá a credibilidade da companhia perante o seu público interno e externo. Bem, normalmente este conceito se aplica tanto no setor público quanto no privado.

A despeito desta prática, o que vemos atualmente é um Governo que faz exatamente o contrário do que os profissionais de comunicação pregam. A Presidente tenta de todas as formas esconder as informações negativas, com frases mal construídas e sem sentido. Isso tudo no meio de uma crise que já é reconhecida por todas as classes sociais e setores da economia nacional e internacional. Mesmo assim, ela insiste em negar a existência de dificuldades e quando, por um lapso ela reconhece a situação pela qual passa o nosso Brasil, debita a culpa em argumentos infundados sem consistência nem coerência com a realidade das ruas.

Agora foi a vez do Ministro da Fazenda, considerado ponderado e realista, escorregar em seu discurso. Diante da onda de demissões dos últimos meses, a diminuição do poder aquisitivo da população, aumentos sequenciais de energia e água, criação de novos impostos, redução da atividade industrial, enfim, uma situação instalada crítica em todos os níveis, onde todo mundo está sem fôlego e sem auxílio para encontrar soluções, o Ministro diz que ninguém reclamará de fazer mais ‘investimentos’ para fortalecer o país.

Se esta declaração fosse dita em outro cenário, em que o Governo se esforçasse para diminuir custos, até seria compreensível. Mas não é esse o caso. O Estado é um elefante branco em que a corrupção impera e que não reage para eliminar gastos. Pelo contrário, recentemente foi aprovado aumento de salários dos altos níveis do funcionalismo público a despeito da situação de penúria do resto dos cidadãos.

Onde está a coerência de discurso? Cadê a verdade, guardião da reputação? Será que estes atores não são treinados para um discursos credível? Será que eles conhecem o poder de suas declarações? Que estas tem o poder de prejudicar a credibilidade do Governo ou ajudar a tirar o país do fundo do posso, onde aliás ainda não chegou?

A crise passará certamente, os atores políticos mudarão também, mas o Estado permanecerá sem dúvida. O que restará de sua reputação depois de tudo isso?

Silvana Piñeiro Nogueira é jornalista graduada pela PUC-PR, pós-graduada em Marketing pela FAE Business School e Mestre em Estudos Políticos pela Université Pantheón-Assas de Paris II (2006). Desde 2000 atua como assessora de imprensa, integrou a equipe de comunicação da campanha política presidencial na Bolívia em 2002. 

 


Fonte: Notícias Administradores / A crise passará, mas o Estado permanecerá. O que restará dele?

Os comentários estão fechados.