A "ética" da ciência

A “ética” da ciência

Século XXI, globalização, revolução tecnológica e era digital. São esses os principais temas discutidos na atualidade. Nos primórdios dos anos 2000 a evolução dos meios de comunicação é a principal característica que envolve o mundo todo em um processo revolucionário jamais visto até então, aonde a informática, a robótica e as telecomunicações vêm tomando conta da sociedade civil e, principalmente, das relações internacionais.

Assim como a tecnologia, a evolução da ciência também exerce forte influência nesse processo, além de gerar grandes polêmicas a nível mundial. Embora a ciência e a tecnologia causem tantos impactos sociais, elas impactam bastante na organização da sociedade. Diante dessa premissa, surge uma questão extremamente importante: até que ponto a ciência pode afetar as normas éticas? Existem meios de reduzir a influência da ciência nos meios políticos sem afetar as normas éticas? Notadamente, essas questões envolvem diretamente a interação das sociedades e afetam tanto as relações públicas quanto as relações individuais e privadas.

O conhecimento científico, por influenciar potencialmente nas relações sociais nacionais e internacionais, não é considerado um conhecimento neutro. Sendo assim, a ciência permite que a adequação da sociedade diante de uma decisão política seja mais facilitada, pois a análise de um determinado meio pode levar a uma revisão dos objetivos principais da sociedade.

Durante muito tempo, e podemos identificar isso nos dias atuais, a recorrência aos especialistas tem se mostrado uma tendência no meio social. Porém, a pretensão tecnocrática de querer determinar a política (ou a ética) a que a sociedade se submete faz com que esse enfoque cometa um “abuso do saber”. Diante desse fato identificou-se que a interdisciplinaridade possa corrigir certos defeitos tecnocráticos, embora não mude a estrutura desse enfoque.

A distinção dos valores, assim como dos possíveis meios de colocá-los em prática, é determinada conforme a maneira pela qual o saber será partilhado. A interdisciplinaridade por sua vez é a principal chance de diminuição da parcialidade incrustada nas decisões tomadas por especialistas tecnocráticos. Aos cientistas cabe um lugar importante na sociedade, porém não devem ser deixadas de lado as opiniões de simples consumidores, assim como as de outras pessoas que se relacionam diretamente como tema em questão, pois essas pessoas teriam uma influência importante a ser considerada.

A evolução tecnológica trouxe a tona instrumentos com alto teor de complexidade, o que proporciona linhas de ação cada vez mais razoáveis. Sendo assim, as escolhas tecnológicas determinam o estilo de vida de cada pessoa, além de estabelecer as principais formas de relação social e de condicionar a vida humana.

Embora exerça tamanha influência na sociedade, a ciência não restringe a oportunidade de conhecimento e tampouco determina a liberdade de cada um, mas ela está certamente ligada a um determinado nível de coerção. Posto que a sociedade seja fortemente influenciada pela ciência e, principalmente, pela tecnologia, a vulgarização científica exerce importantes implicações sociopolíticas que certamente influenciam nomeio social.

Segundo uma visão idealista, a ciência atinge sua maturidade, sendo “efetivamente descoberta”, quando desbrava a estrutura daquilo que sempre esteve presente na natureza. Cada disciplina científica construída historicamente está condicionada de acordo com a época e conforme determinados projetos científicos. A ciência como uma representação de estrutura de conhecimento se desenvolveu em um determinado contexto que permitiu o surgimento dos conhecimentos mais complexos.

Essa estrutura se desenvolve de acordo com as perturbações históricas e é considerada um conjunto de partes “infinitesimais” que resultam em efeitos extraordinários. Utilizar a terminologia “verdadeiro” na ciência pode ser muito relativo, sendo que, por muitas vezes, seu significado vai muito além da busca daquilo que é considerado verdade, buscando uma interpretação absoluta, que nem sempre é possível.

A realização dos projetos científicos depende única e exclusivamente da forma como esses objetos são construídos e, de acordo com esse pressuposto, com certo grau de “absoluta verdade” surgem os ideais que determinam o mundo social. A construção humana determinada “verdadeiro” foi a maneira encontrada de estruturação do mundo como forma de adaptá-lo à vida humana, onde as representações do homem constrói o que é verdadeiramente real ou não à medida que suas atividades sejam coerentes dentro de um contexto social.

Naturalmente, o discurso científico gera uma grande quantidade de críticas e, as análises críticas que acabam revelando a relatividade desse discurso acabam por abalar a confiança e a crença que alguns indivíduos depositam no desenvolvimento da ciência. Se acreditar na ciência implica em corresponder com uma atitude de confiança nos projetos tecnológicos que são frequentemente inseridos na sociedade, essa confiança deve ser retribuída necessariamente com importantes decisões políticas e/ou sociais construídas dos preceitos éticos de cada formação social.

Por isso a ciência se baseia no paradigma de uma questão quando essa é examinada, ou seja, o conhecimento científico é baseado em um padrão universalmente válido no que diz respeito a uma questão social específica, buscando sempre o que for melhor para a sociedade. Os conceitos científicos surgem de debates éticos e políticos que estão fortemente relacionados a uma “racionalidade particular” e são influenciados pelos paradigmas científicos e também por pressupostos particulares. Muitos acreditam que a ciência seja uma resposta às questões éticas, o que não se concretiza na realidade.

O que ela faz nada mais é do que apresentar elementos especializados de interpretação que testam a coerência de determinada visão até então considerada ética. Com relação aos paradigmas de determinados temas científicos, as informações que são obtidas sobre eles têm caráter esclarecedor diante da tomada de decisões, sejam elas políticas ou éticas. Para que o esclarecimento seja efetivo, a análise científica acaba por contribuir para a evidenciação das implicações de cada escolha científica, mesmo não conseguindo responder a verdadeira questão que revela a tônica ética de cada indivíduo: “é isso o que eu (nós) quero (queremos)?”

Todos os tipos de análises seja ela sociológica, psicológica, biológica ou outra qualquer, apesar de terem implicações nas questões éticas, não influenciam no que diz respeito a uma “resposta” para essas questões mais uma vez o debate ético entra em ação e em conseqüência das decisões éticas e políticas, ele intervém nas análises e também nos apelos éticos. O que efetivamente acontece é que a decisão é tica e a análise científica na prática não se diferenciam da teoria, mas essa diferença torna-se substancial.

Viver de tal ou tal modo pode ser visto de acordo com uma análise científica ou de forma ética, porém suas implicações envolvem essas duas vertentes. A decisão do sujeito, no final de tudo, é que determinam quais são seus preceitos éticos. Ao passo que algumas pessoas, quase que inevitavelmente, ligam a ética a uma moral afetiva e sexual, outras a relacionam frequentemente a determinados sentimentos de culpa.

A atitude de assumir o risco de agir de acordo com uma decisão ou outra estabelece a “ética verdadeira”, pois essa atitude implica em um comprometimento com uma situação futura. Podemos definir o debate ético como uma reflexão racional e comunitária que se situa em meio a considerações, relatos e apelos múltiplos.

De acordo com Fourez (1995, pág. 274) “no debate ético, pode-se considerar diversos tipos de apelo (explícitos ou implícitos), muitas maneiras pelas quais se poderiam valorizar o futuro”, sendo assim, pode-se inferir que esse debate nasce em uma determinada época e o seu desenvolvimento ocorre de acordo com uma maneira que não é efetivamente a única, mas sim a melhor dentre algumas escolhas específicas. Dentro desse contexto, moral, sistemas de valor, ideologias e normas são construções importantíssimas que dão coerência aos debates e evitam que eles sejam recomeçados a cada momento de deliberações e consequentemente que se estendam por longos períodos de tempo. Além de possibilitar a comparação de diferentes abordagens, os paradigmas éticos exprimem os valores referentes a diferentes tipos de posição.

Ou seja, assim como “para o cristão idealista, o cristianismo será visto como uma religião moralizante e Deus como o guardião dessa moral, sendo que a base desse moral é a ideia deque o homem é um cristão” (FOUREZ, 1995), para um testemunho de Jeová, Ele é o grande profeta que determina a crença em outra forma de moral, onde os seus seguidores devem viver em sociedade entre si, desfrutando da companhia uns dos outros, porém de forma mais restrita. Nos dias atuais, nos defrontamos com diversas situações que, de uma forma ou de outra, envolvem algum aspecto científico importante e que deve ser relevado pela sociedade.

A ciência está presente em todas as partes e torna-se cada vez mais oportuno fazer dela um aliado que possa viabilizar os mais diversos tipos de atividades, com qualquer nível de complexidade que seja. Saber utilizar a ciência e a tecnologia de forma ética e responsável, além de ser considerado um dom, pode proporcionar grandes avanços políticos e sociais que acarretarão em um desenvolvimento cada vez maior.

Por mais que aparente que a sociedade esteja saturada de avanços tecnológicos, eles fazem parte de nosso cotidiano e continuarão fazendo por muitos e muitos anos. Uma sociedade dominada pelos debates éticos ou por análises científicas certamente seria um caos, para que isso não ocorra, foram criadas as leis e o direito que, por concepção, não se baseiam nas relações de consenso ético, exprimindo compromissos provenientes de relações de força. De acordo com a definição das leis e do direito, o conceito do que é justiça se situa entre algo que é ideológico comum determinado grau de alteridade dentro do contexto social.

A questão central é adaptar a ciência às imposições éticas da sociedade até o ponto em que a sociedade se adapte às implicações científicas. Desse modo, dar um curso à ciência sem iniciar um debate ético é praticamente impossível. Tudo isso ocorre em prol de um desenvolvimento político e social.


Fonte: Artigos Administradores / A “ética” da ciência

Os comentários estão fechados.