A gestão deve ficar somente nas mãos dos gestores?

A gestão deve ficar somente nas mãos dos gestores?

Estamos vivendo uma tendência, a princípio contra-intuitiva, de gerir os negócios sem que exista necessariamente o papel do gestor ou gerente. O que se percebe é que a gestão é tão importante para os negócios que não deve se concentrar na mão de poucos.

A gestão é muito importante…

Pense sobre as seguintes atividades que podem ocorrer em uma empresa qualquer:

  1. Planejar o lançamento de um novo livro no mercado. 
  2. Definir o orçamento necessário para uma campanha de marketing. 
  3. Revisar um novo livro. 
  4. Comparar o desempenho trimestral dos meios de distribuição. 
  5. Decidir pela contratação de pessoas ou terceirização de serviços de diagramação.

Enumere as atividades mais prováveis de serem feitas SOMENTE por alguém que é gestor (ou gerente, líder ou diretor ou qualquer outra pessoa em um nível de gestão)?
Se você respondeu 1,2,4 e 5 provavelmente você está correto.
A este conjunto de atividades, e muitas outras mais, comumente se dá o nome de gestão. Tradicionalmente, a gestão é percebida como importante porque visa integrar a utilização máxima dos recursos de forma efetiva, obtendo o máximo de resultados a partir de insumos mínimos para alcançar os objetivos da empresa.

Tão importante que…

Algumas empresas valorizam tanto quem realiza a gestão – os gestores – que alguns fatos, digamos interessantes, acontecem. 
Á medida que uma empresa cresce, cresce também a quantidade de gestores que irão cuidar de uma enorme quantidade de atividades que em parte irão entregar o que os clientes precisam e em parte irão cuidar do peso da própria complexidade.

Os gestores dedicam inúmeras horas para supervisionar o trabalho dos empregados e o gestor destes gestores dedicam outras inúmeras horas para supervisionar o trabalho deles. Com isto, subindo nos níveis de gestão, os gestores vão dedicando horas e mais horas a “gerir” o trabalho das pessoas que lhes são subordinadas. 
Os gestores organizam várias reuniões, elaboram comunicados e usam uma estrutura de comunicação formal com vários níveis de aprovação para garantir que os laços de comunicação sejam desfeitos e a comunicação flua.

Assim que as pessoas entram na empresa são etiquetadas, dadas a elas uma lista do que podem ou não podem fazer – de preferência sem questionar – e os gestores cuidam para que recebam ao menos 30 minutos de “explicação” do porquê não deveriam se atrasar ou porquê deveriam concluir uma tarefa conforme planejado (por ele).
Os gestores cuidam para que suas decisões sejam executadas pelos trabalhadores conforme o melhor para a gestão da empresa, recompensado-os por quanto mais trabalho eles executarem, de preferência no menor tempo possível.

Parece haver um dissonância entre como os recursos humanos do sistema organizacional são geridos e o que eles realmente são: pessoas que trabalham em rede. Os gestores e as demais pessoas da organização deveriam se mover na mesma direção.

Deve ficar somente nas mãos dos gestores?

Responda a esta pergunta: Enumere dentre as atividades acima as mais prováveis de serem feitas por alguém que NÃO é um gestor (ou gerente, líder ou diretor)?
A resposta provável se refere a uma única atividade: “3. Revisar um novo livro”.
Ops! Por que esta pessoa que é capaz de revisar um livro não é capaz de colaborar na gestão da empresa? Ora bolas, porque a gestão é muito importante para ficar na mão de quem NÃO é gestor (ou gerente, líder ou diretor)!

Será mesmo verdade?

Com tantos gestores enfileirados na hierarquia organizacional, o poder e a arrogância são enfatizados, há mais laços de comunicação que ajudam a distorcê-la e a tomada de decisão está distante da linha de frente e sujeita a falhas. Além disto, as pessoas não são tratadas como adultos responsáveis, retirando delas a capacidade de melhorar o próprio trabalho – Managing Without Managers por Ricardo Semler, proprietário majoritário da Semco em São Paulo, Brasil.

Um modelo de gestão centralizada é a um só tempo inconveniente e oneroso. A hierarquia típica de gestão aumenta o risco de decisões se tornarem calamitosas. À medida que decisões vão ficando maiores, cai o número de pessoas capazes de questionar o tomador de decisões. Arrogância, miopia e ingenuidade podem levar a falhas de julgamento em qualquer nível. Ter vários níveis significa mais instâncias de aprovação e respostas mais lentas. Ao estreitar o escopo de autoridade de um indivíduo, cai também o incentivo para que ele sonhe, imagine e contribua – First, Let’s Fire All the Managers por Gary Hamel, professor visitante na London Business School, na Inglaterra, e diretor da Management Innovation eXchange.

Para algumas organizações a prática comum é que eles (os gestores) estão gerenciando pessoas como máquinas, partes de uma organização que para ser melhorada requer que estas partes sejam monitoradas, reparadas e trocadas. Estas organizações simplesmente fazem a coisa errada. Em outras organizações, usando uma abordagem “mais humana”, os gestores definem objetivos e métricas pessoais ao empregado e acompanham de perto o seu desempenho, reenforçando o relacionamento superior-subordinado. Esta abordagem visa melhorar cada parte do sistema organizacional, o que não melhora o todo e enfatiza que os gestores são mais importantes que os empregados. Assim, estas organizações fazem a coisa certa de forma errada – #Workout: Games, Tools & Practices to Engage People, Improve Work, and Delight Clients por Jurgen Appelo, autor e CEO do negócio em rede Happy Melly.

Significa que as empresas não precisam de gestores? O que foi dito é que a gestão é muito importante para ficar somente nas mãos dos gestores.

A gestão deve ser de – e para – todos!

Em organizações, onde o trabalho é auto-organizado, ainda há gestores. Os gestores se tornaram capacitadores de equipes autogerenciadas e em redes ao invés de controladores de indivíduos. Nestas organizações, alguém tem que assinar cheques, assinar documentos legais e algúem é legalmente responsável pelo o que é feito na organização. Para algumas organizações este alguém é um gestor. Para outras, é uma pessoa a quem seus pares lhe concederam esta responsabilidade. Se ainda há hierarquias, estas tendem a ser baseadas na competência, confiando mais na responsabilidade entre pares que na autoridade advinda da posição que uma pessoa ocupa. O que emerge, neste caso, são empresas sem atitudes arrogantes das pessoas em níveis de gestão, sem a burocracia que infesta os processos de negócio, sem a ignorância quanto a realidade dos clientes, sem uma forma de pensar dirigida pela eficiência que enfraquece a saúde do sistema organizacional a longo prazo e uma forma de comunicar de cima para baixo que impede a boa comunicação.
Por meio de uma visão renovada, a gestão torna-se importante para ajudar as pessoas a atuarem colaborativamente no intuito de fazerem o seu melhor. A inovação, satisfação do cliente e lucros virão disto.

É so teoria? Parece um mito? É utopia? Muitas empresas já o fizeram!

Semco, uma gestora de portfólio para uma variedade de empresas que fazem negócios no Brasil, tem três valores – democracia, distribuição de lucro e informação – em que se baseiam vários programas de gestão e que funcionam em um círculo em que cada um é dependente do outro. O primeiro valor, democracia, trata do envolvimento do empregado em tudo ligado ao trabalho e à gestão da empresa. O segundo, distribuição de lucro, trata de transparência completa, onde o empregado enxerga como seu trabalho está relacionado com os lucros e entende como estes lucros são divididos, por exemplo, os trabalhadores aprendem o básico sobre finanças e contabilidade para entenderem isto. O terceiro, informação, trata de todos trabalharem a partir da mesma informação. O envolvimento dá às pessoas controle sobre o seu trabalho, a distribuição de lucro dá a elas uma razão para fazê-lo melhor e a informação diz a elas o que está indo bem e o que não está.

Morning Star foi fundada em 1970 como uma transportadora de tomate nos EUA e atualmente é uma das maiores fornecedoras de tomate nos EUA. A meta da Morning Star, segundo sua visão organizacional, é ser uma empresa na qual todos os membros da equipe “sejam profissionais que se gerenciem sozinhos, promovendo a comunicação e a coordenação de suas atividades com colegas, clientes, fornecedores e demais atores do setor, sem receber ordens de outros”. Um exemplo? Colegas são responsáveis por iniciar o processo de contratação quando se veem sobrecarregados ou detectam uma função nova que precisa ser preenchida. Sem hierarquia e sem cargos, não há degraus a galgar na Morning Star. Não significa que todos sejam iguais. Em qualquer área de atuação, certos colegas são reconhecidos como mais competentes do que outros — e essa diferença se reflete em níveis de remuneração. Embora haja competição interna, a rivalidade é para saber quem contribui mais, não para ver quem ganha o melhor cargo.

Webgoal é uma empresa brasileira desenvolvedora de software que possui duas unidades de negócio no país. Desde a sua criação, em 2008, conecta todos os seus negócios e ações por meio de um pensamento focado em métodos que valorizam as pessoas e seus relacionamentos, a entrega de valor ao cliente, adaptação às mudanças e colaboração com o cliente. Além disto, realiza uma gestão colaborativa e compartilhada com todos as pessoas da empresa. Não há hierarquia e portanto, sem gerentes. Segundo a visão da Webgoal, se há necessidade de gestores é porque a gestão não está sendo realizada por todas as pessoas. As pessoas da empresa decidem e realizam várias atividades de gestão como a contratação, aumentos de salarios e estratégias de negócio. E ainda, a empresa percebe que o trabalho deve ser bom na mesma proporção que se deseja que a vida pessoal seja boa e, portanto, é responsabilidade da empresa criar um ambiente e um modelo de gestão que favoreça a isto.

Outras empresas de diversos segmentos de negócio, diferente número de trabalhadores e faturamento estão experimentando – ou já nasceram assim – um modelo de gestão mais adequado à complexidade do ambiente de negócios.

O guru da gestão Peter Drucker reforça tudo isto ao se referir à gestão como sendo crítica para as empresas, mas sem fazer referência ao trabalho dos gestores. Como visto, ter gestores depende de uma série fatores, mas não importa se há gestores ou não, todos deveriam se sentir responsáveis pela gestão. Assim, quando uma empresa afundar, não culparão somente os gestores! Quando as pessoas se sentirem realizadas e felizes no trabalho, celebrarão a empresa!
Jurgen Appelo que escreveu sobre Management 3.0, diz que uma boa gestão significa cuidar do sistema organizacional, melhorando o ambiente de trabalho: engajar as pessoas e suas interações; permití-las aprimorar o sistema; e ajudá-las a agradar todos os clientes. Então, a gestão não é sobre ter menos (ou nenhum) gestores, é sobre fazer certo a coisa certa.

Referências

Appelo, Jurgen. #Workout: Games, Tools & Practices to Engage People, Improve Work, and Delight Clients. 2014. Happy Melly Express.

Denning, Steve. No Managers? No Hierarchy? No Way! 2014. Disponível em:http://onforb.es/1gPQ05Q – Acesso em 02/12/2015

Nepomuceno, Carlos. É possível trabalhar sem gerentes? O caso da Webgoal – Matheus Haddad. 2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2kSBhDzIGEM – Acesso em: 02/12/2015.

Hamel, Gary. First, Let’s Fire All the Managers. 2011. Disponível em:https://hbr.org/2011/12/first-lets-fire-all-the-managers. Acesso em 01/12/2015.

Semler, Ricardo. Managing Without Managers. 1989. Disponivel em:https://hbr.org/1989/09/managing-without-managers. Acesso em 01/12/2015.


Fonte: Artigos Administradores / A gestão deve ficar somente nas mãos dos gestores?

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