A humanidade de cada um no trabalho

A humanidade de cada um no trabalho

Ser o que se é ou ser o que os outros querem que você seja?

Cena de Blade Runner

Salvo em raríssimos momentos, somos levados a acreditar que sentimentos sinceros não combinam com o nosso papel profissional. Munidas de uma propriedade insípida, algumas pessoas estabelecem para si e para terceiros um perímetro cuja transposição consideram crime capital. De forma tímida, essas pessoas nos dizem não se tratar da negligência voluntária das nobres virtudes humanas, como ética, transparência ou objetividade, mas, sim, ter a capacidade de discernir e assimilar que, no campo profissional, a humanidade de cada um é sempre secundária quando prevalecem objetivos econômicos.

Para extrapolar mais essa perspectiva, vamos mergulhar na seara cultural generalista.

Cinema e literatura mantêm uma simbiose onde um é sempre ingrediente básico do outro. Poucos filmes são representações tão exatas da realidade literária de que se servem quanto Blade Runner – O Caçador de Andróides. A obra é uma adaptação do livro publicado em 1968 nos Estados Unidos intitulado Do Androids Dream of Eletric Sheep, do escritor de ficção científica Phillip K. Dick.

Com uma produção editorial comercialmente fraca, Dick escreveu muitos contos entre as décadas de 1950 e 1960, todos influenciados nitidamente por mestres do gênero, como Julio Verne e Isaac Asimov. Phillip Dick revolucionou a estética do cinema ao universalizar esse gênero numa época de grande expansão da cultura de massa (anos 1980) e do subgênero ciberpunk.

Em Metrópolis, Fritz Lang já havia denunciado a bancarrota da humanidade, mas o expressionismo alemão era sério demais para a sociedade arcaica e recatada da época. Assim como a cibercultura —matriz de uma vida em alta tecnologia e baixo nível de humanidade num ambiente sinistro, underground, distópico, imoral, sujo e banal—, o cinema noir, corrompido, cínico e ambíguo na essência, também compõe parte do argumento de Blade Runner.

O filme não fez muito sucesso na época, mas hoje é um cult movie que merece ser visto incontáveis vezes. A mensagem foi captada com perfeição pele película de Ridley Scott. Andróides demasiadamente humanos e humanos demasiadamente digitais: de onde viemos? Para onde vamos? O que nos faz humanos? Ideias, memórias, pensamentos, sentimentos? Grandes dilema de sempre.

Como em Blade Runner, existe um conflito interno quando colocamos a máscara do trabalho. Pela quase sempre rasa literatura dos livros de negócios, choros, transparência, compaixão, entre muitos outros sinais de humanidade, são sintomas de um atrevimento incompatível com o ecossistema pragmático das relações profissionais.

Apesar de, em essência, o filme de Scott tratar basicamente de questões fundamentais que atormentam a existência terrena de cada um, todo o contexto se resume à tensão constante entre ser o que se é e ser o que os outros querem que você seja, a mesma tensão que nós, trabalhadores, experimentamos incontáveis vezes ao agudo sinal do despertador.


Fonte: Artigos Administradores / A humanidade de cada um no trabalho

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