A miopia especialista: uma das patologias da gestão

A miopia especialista: uma das patologias da gestão

Os aspectos comportamentais nos projetos e empreendimentos desafiam os gestores mais experientes. A miopia profissional é umas das patologias comportamentais muito comuns nos ambientes corporativos, sendo um dos fatores que propiciam a ocorrência das “101 causas frequentes de falhas” nos projetos, descritas em detalhe no livro “Murphy on projects: causas de falhas nos projetos como preveni-las”. Em que consiste e como podemos evitá-la?

A miopia especialista acontece quando uma ótica predomina num projeto. A visão de uma área se sobrepõe as outras, tornando os colaboradores cegos a outros aspectos do projeto. Exemplos de cenários de miopia especialista seriam: a visão do time financeiro domina o projeto inteiro e ignora as considerações de outras frentes, como o RH ou TI; um projeto do marketing se confunde com um projeto de TI e contempla somente tarefas dessa frente; um projeto de desenvolvimento de software que esquece os aspectos de negócio e muitos outros. 

Com as melhores intenções, cada profissional em cada frente usa a visão da que dispõe. O gestor do projeto precisa conseguir com que todos os pontos de vistas sejam considerados sem deixar ninguém de fora. Um caso celebre na história dos projetos afetado por esta patologia foi o Titanic. Nele, a visão do presidente da empresa que encomendo a fabricação do navio era de oferecer todo o luxo possível e para isso obrigou que fosse sacrificada a segurança do navio. 

Causas comuns da miopia profissional

A causa mais frequente desta patologia reside no fato dos projetos corporativos que afetam empresa inteira, nascerem numa área da empresa, havendo a tendência desta área liderar o projeto.  Entre os exemplos poderíamos mencionar: um projeto de um novo ERP liderado pelo TI; uma reestruturação organizacional liderada pelo RH; o projeto liderado pelo financeiro de mudanças no modelo de remuneração que fazem com que no dia seguinte, o comercial e o TI estejam trabalhando para a concorrência. O projeto do Marketing que pela presa deixa de considerar as complicações operacionais; o projeto de aquisição de uma empresa, que pode surgir por motivos financeiros, mas que envolve não somente todas as frentes, como exige uma atenção muito dedicada a gestão da mudança (change management) e da cultura da empresa.

Motivações políticas e dificuldades de relacionamento podem levar a exclusão de um ponto de vista:  uma rivalidade entre TI e Operações pode fazer com que o TI deixe de ouvir o que a outra área tem a demandar de um projeto, por exemplo. A miopia especialista costuma gerar altos custos de retrabalho por causa da identificação tardia de problemas. Pode criar dificuldades de comunicação quando uma área tenta predominar sobre as outras, surgindo sintomas como acusações mútuas, posturas defensivas ou hostis e no conjunto, levar a diminuição da produtividade.

Atitudes como causa: Os 5 pecados capitais do gerente

No caso do Titanic, a miopia foi causada pela atitude arrogante e o excesso de ambição do presidente da companhia. Estas duas atitudes fazem parte dos 5 pecados capitais do gerente¹ descritas no livro e mencionadas em outros artigos do autor: arrogância, excesso de ambição, fraudulência, abstinência e ignorância.  Enceguecido pela ambição e movido pela arrogância, o presidente desconsiderou todas as exigências técnicas, chegando incluso a desconsiderar o pedido de demissão em forma de protesto, do seu braço direito, candidato a sucessão e quem também era seu genro.  Essa miopia fez com que o número de botes salva-vidas fosse reduzido para favorecer a vista panorâmica. 

Os vieses cognitivos

Como menciona o livro “Murphy on Projects” e em outros artigos, existem processos mentais que nos levam a tomar decisões e ações erradas o pouco efetiva. Um dos vieses que costuma acompanhar à miopia especialista é o viés de confirmação. Este viés cognitivo acontece quando acreditamos tomar decisões imparciais, mas na verdade estamos considerando somente os fatos que favorecem nossa opinião, evitando aquelas que nos contradizem ou desafiam nossos conhecimentos.  

O efeito Halo ou Auréola é um outro viés cognitivo que favorece a miopia especialista. Acontece quando um julgamento inicial afeta um julgamento posterior. Quando profissionais com competência técnica são promovidos a cargos gerenciais sem antes verificar se têm perfil e competências gerenciais, vemos o efeito Halo materializado. Recebe o nome de efeito Halo ou “aureola”, porque pessoas tidas num conceito favorável, parecem que tiverem uma aureola igual aos dos santos, levando a acreditar que são competentes incluso em áreas aonde não tem competência, formação nem experiência.  

O efeito Halo acompanha a miopia especialista quando se acredita que os profissionais das áreas que criaram o projeto têm competência para tomar decisões das outras áreas envolvidas. Assim, se originam situações aonde, por exemplo, o RH ou financeiro tomam decisões de TI, (como a compra ou implementação de sistemas), completamente desalinhados com a estratégia do TI, ficando para estes últimos o desafio de costurar uma integração entre diferentes sistemas espalhados pela empresa.

Efeitos colaterais e o projeto do caça F-35

Ao acompanhar a miopia profissional, os vieses cognitivos permitem que algumas das “101 causas frequentes de falhas” se materializem no projeto, entre elas:

Gestão superficial: evitar entrar nos detalhes para não ter que lidar com assuntos complexos aonde carecemos de domínio. Os gestores tomam decisões sem ter embasamento mínimo para entender o significado das informações que as áreas oferecem, nem a transcendência, implicações e impactos da decisão que se toma.  A miopia especialista gera confiança cega em assuntos obscuros, profissionalmente desconhecidos.

 Subestimar a complexidade: na falta de domínio de um assunto, deixamos que uma frente lide com o assunto, subestimando a complexidade. Por exemplo, deixamos que os engenheiros ou o TI “encontrem uma solução”.  Um exemplo que ilustra como a complexidade pode impedir um projeto de ter sucesso é o caso do caça de combate americano F-35, um projeto leva mais de 10 anos sem conseguir chegar no resultado esperado.

Em entrevista com gestores de projetos militares, o autor descobriu que o objetivo é criar uma plataforma de avião caça que atenda tanto a marinha americana, como a infantaria de marinha e a força área. A complexidade envolvida certamente tem sido subestimada ao longo dos anos. Este e outros fatores tem impedido que o objetivo seja redefinido ao invés de esticar prazos e aumentar orçamentos. Hoje os caças russos e chineses são mais eficientes que os americanos.

A miopia especialista é um ótimo exemplo das patologias para as quais o gerente precisa estar preparado a fim de evitar interferências que o impeçam de agir com efetividade. Por esta razão, se faz extremamente importante que o gestor tenha sempre presentes os fenômenos apresentados aqui, para que, com a prática, desenvolva a capacidade de tomar consciência deles e identificá-los em seus projetos.


Fonte: Artigos Administradores / A miopia especialista: uma das patologias da gestão

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