A Síndrome de Rocky Balboa e os neo-especialistas

A Síndrome de Rocky Balboa e os neo-especialistas

A facilidade de encontrar informação que a internet proporcionou faz com que qualquer um (e a gente vê cada um no mercado), se torne um especialista do dia pra noite.Todos passando pela Síndrome de Rocky Balboa, que dá uma ilusão de super poderes sem esforço, sem tempo, sem dor, sem a necessidade de etapas e um crescimento alimentado por consistência.

 

Eu sou fã de todos os filmes do Rocky Balboa. Todos eles trazem uma lição, inspiração por meio da superação. Até mesmo a história de como Silvester Stallone escreveu o roteiro é bonita. Ele acabou tendo que morar na rua, e teve que vender seu cachorro para sobreviver por US$ 25, de tão difícil que a situação estava. Pouco depois ele teve a ideia do filme vendo uma luta de boxe. Ele escreveu o roteiro em 20 horas seguidas, sem intervalos. Vários estúdios tentaram comprar sua ideia, até mesmo por US$ 125.000, mas ele disse não, mesmo precisando do dinheiro, porque ele tinha colocado uma condição: ele deveria estrelar o filme. Dobraram a oferta, e depois ofereceram US$ 350.000, o que ele também recusou. Ele deveria estar no filme. Pouco tempo depois o estúdio aceitou pagar US$ 35.000 acatando sua condição. O final você já conhece, exceto o fato de que ele recomprou seu cachorro por US$ 15.000, aquele mesmo que ele tinha vendido por US$ 25. 
 
Sim, você agora está gostando mais ainda do filme. Vai até assistir novamente no Netflix. Mas a história deste lutador só tem um defeito. Algo que deve ser ignorado por mim e por você se quisermos maximizar as lições do filme. Rocky geralmente é desafiado e logo em seguida inicia uma seqüência de imagens no filme, embalado por uma música bem contagiante como Eye of Tiger. De azarão ele passa a campeão, num intervalo de cinco minutos ou menos. A falta de recursos para treinar, em especial nos primeiros filmes, e o uso de materiais rústicos como uma tora de madeira, correndo pela cidade, e a tradicional subida de escadas na Filadélfia. Tudo para apresentar o momento da virada, da transformação que o levará ao próximo estágio, a vitória. Eu chamo isto de Síndrome de Rocky Balboa.
 
Na prática, todo mundo quer essa mesma transformação. Todo mundo quer que em cinco minutos, curtindo uma energia boa da música, mudar a sua realidade. Esquece que é uma redução do filme, de um espaço de tempo muito maior. Que aquele treinamento não foi tão prazeroso quanto parece. Tomar gema de ovo, acordando de madrugada, treinando em frigorífico, machucando as mãos, se exercitando a exaustão. Este recurso narrativo do cinema acontece em diversos outras histórias. Só não acontece na vida cotidiana. 
 
Daí entram os neo-especialistas. A facilidade de encontrar informação que a internet proporcionou faz com que qualquer um (e a gente vê cada um no mercado), se torne um especialista do dia pra noite. Quanto mais novo o tema, quanto mais especifico, mais especialistas encontramos. Primeiro a pessoa se diz especialista para depois praticar no mercado com aqueles clientes que angariou. Todos passando pela Síndrome de Rocky Balboa, que dá uma ilusão de super poderes sem esforço, sem tempo, sem dor, sem a necessidade de etapas e um crescimento alimentado por consistência. 
 
Um conceito interessante que uso para me colocar como especialista de algo é a regra das 10.000 horas, que diz que você se torna especialista em algo que pratica ou se dedica mais de dez mil horas. Isso dá entre 5 e 8 anos de dedicação. Na verdade, você alcança a maestria e se torna “fora de série” quando há esta dedicação. Os Beatles, a maior banda da história, antes de alcançar o sucesso tocou em diversos prostíbulos na Holanda 12 horas por dia, isto por mais de 5 anos. Eu só me considero especialista em algo que já prático/estudo/vivo há pelo menos 3 a 5 anos. E é importante respeitar o seu tempo, a sua dedicação antes de colocar um peso sobre seus ombros da palavra “especialista”. Não se pode começar a ler um livro, fazer uma pós graduação e querer ser referência em algo. Isso só funciona com o Rocky Balboa, e no filme. Porque nem o Silvester Stallone viveu isto. 
 
Leonardo Carraretto só é especialista em marketing, comunicação e inovação porque vive isso há mais de 15 anos.

 


Fonte: Artigos Administradores / A Síndrome de Rocky Balboa e os neo-especialistas

Os comentários estão fechados.