Afinal, qual a melhor forma de liderar?

Afinal, qual a melhor forma de liderar?

Não existe regra absoluta ao se liderar pessoas. Dizer que a forma como se age com um indivíduo poderá ser aplicada acertadamente com outro pode se tornar um grande equívoco na carreira gerencial

Certa vez eu estava navegando na internet e me deparei com um artigo em que o autor criticava teorias abordadas no livro de grande sucesso “O monge e o executivo”. Achei interessante o assunto e resolvi ler na íntegra seu conteúdo. Haviam de fato muitas pontuações em que eu concordava, porém tinham afirmações que talvez valessem uma melhor reflexão.

O mais interessante eu li ao acabar o artigo, comentários cheios de fervor e emoção expressados por pessoas que defendiam completamente o conteúdo do livro e achando o dito um absurdo, como se o autor do artigo fosse um “destruidor de ilusões”.

Se você não conhece, ou ao menos já ouviu falar do best seller “O monge e o executivo”, eu o li e confesso que é agradável. Porém, muito antes de ler o citado artigo citado, eu mesmo achava que para tudo que era dito no livro, cabia outra situação. 

Em suma a história do livro baseia-se na prática da liderança servidora, onde o líder escuta seus liderados e é o responsável por fornecer a eles todos os recursos e meios para que atinjam seu máximo potencial. Já o artigo criticava-o considerando que seu conteúdo referia-se mais ao tratamento de uma pessoa para com a outra, no caso o líder e seus liderados, do que gestão propriamente. De fato menosprezou a ideia proposta, contrapondo por questões mais tradicionalistas e supostamente práticas.

Enfim, não estou escrevendo este artigo para defender um ou outro, mas para apresentar minha visão sobre o assunto baseado em experiência própria e de uma série de líderes que tive oportunidade de conhecer sua história.

Certa época da minha vida, quando tinha pouco mais de 20 anos de idade, fui convidado a ser o líder de uma equipe de mais ou menos dez pessoas que controlavam os indicadores de produção de determinadas atividades de uma grande empresa. Até aí tudo bem, porém haviam dois problemas: as pessoas sabiam melhor sobre suas atividades do que a mim, tendo em vista que eu vinha de outra empresa e algumas delas esperavam ter assumido minha posição.

Neste contexto procurei ser solícito, servidor, pois aparentemente se espera boa aceitação dado a postura adotada, ao perfil e nível de maturidade dos empregados. Mas a realidade e a prática foi bem mais dura do que o descrito em livros ou qualquer formação. Adiante vou elencar alguns pontos que foram determinantes para esta minha conclusão.

A primeira questão foi o fato de eu assumir uma equipe teoricamente já preparada, que sabia bem suas atividades e possuía pessoas com expectativa de carreira que se julgavam mais preparadas para estar nessa posição do que um “forasteiro”.

Outro ponto era em relação ao perfil dos empregados. Como eu era muito jovem, haviam pessoas mais velhas, outras ainda mais novas e algumas já se considerando preparadas e com poder de influência que as faziam pensar que poderiam ser insubordinadas.

Também contei com a diferença de qualificação, proatividade e entrega de cada empregado (repare que não estou me referindo a seus temperamentos, mas da qualidade do serviço). Dentre as pessoas, algumas eram muito eficientes; outras faziam o “arroz com feijão”, enquanto as demais pessoas sempre precisavam de um “empurrãozinho”, além daqueles que nem entendia porque estavam lá.

O maior complicador ainda eram os empregados insubordinados, pois todos eram muito eficientes em sua função.  Aí que arte de liderar tem que fazer a diferença. Se fossem pessoas medíocres uma substituição seria uma solução fácil e justificável, mas quase nunca é este o caso.

Mas como disse antes, o “buraco era mais embaixo”.

Além de todos esses fatores elencados ainda entravam o temperamento intrínseco de cada um, uns neutros, outros submissos, alguns bajuladores e outros de personalidade forte e questionadora.

Com base nos fatos ficou claro que ser puramente servidor, “o cara legal”, não me ajudou completamente. Com os neutros e submissos o retorno era ótimo, resultados conforme o esperado, bom relacionamento e praticamente todas as questões eram facilmente resolvidas em uma “boa conversa”. Por outro lado, bajuladores ficavam ainda mais insuportáveis e os de temperamento forte e questionador geravam um stress de negociação e barganha constante, o que fazia o ambiente de trabalho se tornar demasiadamente pesado e desagradável.

E aí, o que fazer? Eu tinha que pensar rápido, pois o principal fator que derruba um líder são seus liderados. Se eu não conseguisse tomar rapidamente as rédeas da situação não demoraria meu cargo estar à disposição. Então foi aí que começou minha odisseia sobre como ser o líder que a equipe precisava? Vamos lá, seguem duas das diversas ações que combinadas me ajudaram nesta caminhada:

1 – Aprenda sobre o objetivo e entrega de sua equipe

Como disse antes, estava entrando em um ambiente que eu não tinha total domínio de como as coisas aconteciam. Então, a primeira coisa que procurei fazer foi aprender como tudo funcionava, no mínimo o que era importante para que a entrega do setor fosse atingida. Desta forma a alegação de despreparo, seja pela idade ou outra coisa, ou questionamentos maliciosos por parte dos empregados apenas com intuito de te deixar em maus lençóis e perder a credibilidade já seriam em boa parte eliminados.

2 – Estude o perfil e os anseios de cada um dos seus liderados, ganhe sua confiança

Conhecendo a expectativa de cada empregado e como reagiam em relação a cada uma de minhas ações procurei traçar métodos diferentes para cada grupo. Como ser um suporte, procurar ser um “guia amigo” não estava funcionando muito bem com os insubordinados, uma abordagem diferente se fez necessária. Neste caso fui extremamente técnico e prático. Chamei estas pessoas para conversas individuais e coletivas, nas quais deixei claro o papel de cada um deles, as responsabilidades e como funciona uma hierarquia – sim hierarquia.

Num momento em que se prega tanto a horizontalização organizacional, falar de hierarquia parece um tanto retrógado, mas não se iluda. ‘As vezes é necessário e prudente, principalmente em equipes de pessoas com grande anseio sobre carreira e sucessão. É importante explicar o requisito para se subir de nível, ser claro e objetivo, ganhar a confiança destas pessoas e mostra-las que insubordinação é um comportamento que se não contornado pode, e provavelmente, será justificativa para um desligamento. Isso não significa gestão do medo, e sim alinhamento, pois algumas pessoas parecem perdidas em seus conceitos.

Depois de tudo muito bem explicado e combinado nossos relacionamentos mudaram da “água para o vinho”. Com um dos empregados mais problemáticos (porém mais eficientes no qual um dia cheguei a escutar algo do tipo “você acha que manda aqui?”), passei a ter um relacionamento de trabalho em equipe, a aprendizagem se tornou mútua e somos amigos até hoje. Uma série de ações minhas foram necessárias ao longo do meu tempo na função de líder desta equipe. Às vezes fazia o tipo servidor, outras um perfil mais desafiador para aqueles que gostavam de ser estimulados.

A questão é que não existe regra absoluta ao se liderar pessoas. Dizer que a forma como se age com um indivíduo poderá ser aplicada acertadamente com outro pode se tornar um grande equívoco na carreira gerencial. Pessoas são diferentes, seus conceitos, suas histórias e principalmente suas necessidades. Acreditar que seu modo de lidar com cada uma delas pode ser traçado de modo linear irá gerar um misto de alegrias e frustrações.

Enfim, cada um terá sua experiência ao liderar uma equipe, mas o meu objetivo neste texto era o de apresentar um contexto real e mostrar que não existe fórmula pronta para se gerir pessoas. A única coisa que afirmo a você que conseguiu ler até aqui é: para liderar o mais importante é “gostar de gente”! Sim, é importante gostar e acreditar que existem pessoas boas e que podem fazer a diferença. Pois como diz uma frase de Paulo Freire: “Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo!”. Não são os livros, artigos, cursos entre outros que você viu que irão ajudar você a ser um bom gestor; é o que você faz com o conteúdo aprendido e sua capacidade de utiliza-lo de maneira adequada conforme a necessidade que irá fazer o seu diferencial e garantir o respeito de sua equipe.

Espero poder ter contribuído um pouquinho com informações que te ajudem a criar seu estilo próprio de liderança, uma jornada que é muito desafiadora e interessante. Um forte abraço!


Fonte: Artigos Administradores / Afinal, qual a melhor forma de liderar?

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