Antropomorfização das organizações: cuidado!

Antropomorfização das organizações: cuidado!

Neste breve texto pretendo discutir a tendência à antropomorfização das empresas, seus riscos e o que esconde. Por fim, reconheço seu potencial didático mas mantenho preocupação para não coisificar (reificar) as pessoas nas organização frente à antropomorfização das empresas

Ao longo da história estamos testemunhando uma crescente participação das organizações na vida ordinária dos indivíduos, sejam estes de qualquer classe social, gênero, formação ou qualquer outra variável social que quisermos considerar.

Digo “organização” e me refiro às empresas, particularmente empresas com fins lucrativos. Diz-se, de maneira acertada, que nascemos, crescemos e morremos em meio à empresas.

A questão que quero tratar aqui é que além da crescente participação das empresas, venho percebendo que um discurso vem tomando posição tanto no meio acadêmico quanto nos negócios: A Antropomorfização das empresas.

Olha, o entendimento do que vem a ser empresa não é tão claro, mas possui certo desenho no código civil, art. 966, que mesmo tratando de empresário apresenta a definição de empresa por extensão, qual seja, “atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços”, que nasce de um ato de vontade, de uma prática. Ou seja, não é natural.

Logo, de maneira clara, não há empresa sem indivíduos que lhe dão formato jurídico. Não há empresa sem empresário e pessoas que exercem sua função/profissão na empresa.

Por que falar disso: Ora, se a empresa não é natural, se depende de indivíduos, ela não pensa, não sente, não aprende… quem pensa, sente e aprende são pessoas. A prática corrente de falar em racionalidade, sentimentos, aprendizagem organizacional representa um movimento chamado de antropomorfização das empresas. Qual o problema disso? Bem… vários.

Um primeiro – e mais claro – é que pensando assim escondemos as pessoas no interior das empresas. Não estou falando no aspecto jurídico, embora pertinente, inclusive pelo instituto da desconsideração da personalidade jurídica. Estou mesmo falando em entender como determinada ação atribuída à empresa se desenvolveu através das redes de poder, de influência, de conflitos, quais as demandas, quais as crenças, expectativas, sentidos que foram atribuídos pelas pessoas e que culminaram naquela ação comumente atribuída a empresa.

Perceba que o relacionamento das pessoas, suas expectativas, suas crenças e pensamentos se transformam em ação. É bem verdade que decisões anteriores da empresa facilitam ou constrangem os comportamentos, pensamentos e ações. Uma via para entender isso pode ser pelo novo institucionalismo a partir do entendimento do efeito das instituições nos comportamentos, numa perspectiva mais aberta, mais plural. Ou seja, é verdade que a empresa – enquanto resultado de práticas humanas – pode constrangir o aprendizado, o pensamento e as ações dos indivíduos.

Em segundo lugar, quando escondemos os indivíduos e passamos a dotar de características humanas as empresas (antropomorfização das empresas) escolhemos analiticamente estudar as empresas, como elas aprendem, decidem, vivem. Esta inclinação analítica vem acompanhada de um posição política, de julgamento de importância. Prefere-se estudar as empresas do que as pessoas. Um deslocamento típico é tratar a missão e visão da organização. Esse é um movimento típico de antropomorfização das empresas na administração.

Empresa não tem visão nem missão… são os indivíduos que possuem visão e missão! Sei que muitos vão dizer que isso é simplesmente uma linguagem metafórica mas, como toda metáfora, elementos são destacados e outros abafados… e o pior é que muitas pesquisas, best-sellers, teorias na administração estão sendo colocadas e não sugerem essa reflexão.

Não podemos crer que a missão é o intento médio ou colegiado das pessoas que estão na empresa… mas sim de alguém, ou alguns, que decidem e, após isso, as ações dos indivíduos envolvidos com a empresa serão direcionadas para o atingimento dos objetivos, mesmo que existam disputas, conflitos, lutas.

O mais importante, quando se fala de antropomorfização das empresas, é reconhecer seu potencial metafórico, inclusive didático, contudo, devemos manter uma atenção particular para não esconder, apagar, escamotear os processos que envolvem pessoas nas empresas. Quem toma decisão, pensa, sente, aprende são as pessoas, inclusive aquelas que atuam nas empresas.

Assim, o perigo maior é coisificar (reificar) as pessoas ao passo que se antropomorfiza as empresas…


Fonte: Artigos Administradores / Antropomorfização das organizações: cuidado!

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