As dores e as delícias de fazer o que poucos têm coragem

As dores e as delícias de fazer o que poucos têm coragem

Quando se resolve fazer algo que sai da rota tradicional, isso é ainda mais evidente

Quem nunca desejou – mesmo que secretamente – largar tudo e cair no mundo ou dizer adeus ao emprego que já não satisfaz? São decisões que parecem distantes da realidade, mas que permeiam as fantasias de todo profissional já enfadado de seu cubículo na firma. Poucas pessoas levam isso adiante. Outras encaram o desafio. Quem resolve enfrentar se move pelas recompensas, que quase sempre valem a pena. Mas não se deixe enganar pelo glamour. Realizar sonhos exige disposição para alguns (às vezes, muitos) sacrifícios.

Está cada vez mais comum abrimos as notícias e lermos sobre pessoas, casais ou mesmo famílias inteiras que abandonaram a vida tradicional para ganhar o mundo em viagens ou vivendo de uma maneira diferente dos padrões tradicionais. Essas pessoas parecem pertencer ao mesmo grupo de sucesso e ousadia daqueles funcionários que decidiram não ser mais funcionários para abrir um negócio. De repente, estavam ganhando muito dinheiro e donos de seu próprio tempo. Ou simplesmente estavam vivendo melhor. O romantismo da aventura e o sucesso muitas vezes ofusca as pedras que surgem no caminho. Assim como Caetano Veloso diz que cada um conhece as dores e as delícias de ser o que é, quem decide sair em busca dos sonhos também costuma encontrar esses dois sentimentos no meio da jornada.

Todos os banheiros do mundo

O casal Chanel Cartell e Stevo Dirnberger, da África do Sul, está na categoria daqueles que decidiram se aventurar pelo mundo. No Instagram, acompanhamos a dupla passear por lugares incríveis, relatando os momentos no blog How Far From Home. Mas nem tudo são flores. “Até agora, eu acho que nós já esfregamos 135 banheiros, espalhamos 250 quilos de esterco de vaca, movemos duas toneladas de pedras com pá, assentamos 60 metros de calçada, arrumamos 57 camas e eu nem me lembro quantos copos de vinho lustramos”, afirmaram em publicação no blog.

A postagem viralizou e representou um sopro de sinceridade e realidade em um meio em que apenas as fotos de paisagens lindas costumam ser divulgadas. Viajar o mundo, como tudo na vida – inclusive a liberdade, tem um preço.

Nômades digitais

Ser nômade digital, por definição, é fazer o trabalho de maneira remota, não dependendo de uma base fixa para atuar. Quem segue esse modelo de trabalho geralmente é o mesmo que decide explorar diversos países.

A publicitária Fernanda Nêute, de São Paulo, é um exemplo fiel desse profissional. Após 13 anos trabalhando em grandes agências, ela pediu demissão e passou a buscar o sentido da felicidade pelo mundo. Segundo conta no Feliz com a vida, Fernanda percebeu que para comprar tudo o que tinha vontade, ela precisava ganhar mais dinheiro. Para ganhar mais dinheiro, ela precisava trabalhar cada vez mais e ter cada vez menos tempo. Sem tempo, precisava gastar ainda mais dinheiro comprando coisas para se sentir melhor. Desde que optou por uma vida na estrada, ela já morou na Tailândia, no Vietnã, em Hong Kong, na Colômbia, na África do Sul, nos Estados Unidos e visitou outros 20 países.

Para se sustentar, ela trabalha como consultora de marketing para clientes que não têm condições de pagar uma agência. “Essa foi a forma que eu arrumei para me sustentar enquanto estava tentando descobrir como colocar os meus projetos pessoais em prática. O problema é que freelas tomam muito tempo e acabou sobrando bem pouco para fazer o que realmente me fazia feliz, como era o caso de escrever. Em junho eu entreguei o meu último trabalho e estou dando foco total aos meus projetos, o FÊliz Com A Vida e o Vida de Empreendedora que acabou de entrar no ar”, contou Nêute.

Após dois anos na estrada, ela conta que aprendeu a trabalhar sozinha e pretende se fixar em algum lugar. Além disso, aprendeu a valorizar um quarto escuro, uma cadeira confortável para trabalhar e uma boa salada, “coisa rara de se encontrar em alguns países, principalmente na Ásia que é uma das regiões preferidas dos nômades digitais pelos preços baixos”, conta ela.

“Tudo na vida tem um lado bom e um ruim, um bônus e um ônus e a vida de nômade digital não é diferente. Embora eu também tenha passado por momentos difíceis, não só financeiros, mas também emocionais, eu não me arrependo de ter deixado meu emprego para fazer algo completamente novo. Continuar no mercado publicitário não era mais uma opção na minha vida e qualquer sofrimento que eu tenha passado não foi maior do que o de acordar todos os dias com vontade de chorar porque não queria ir trabalhar”, afirma Nêute, que está de volta para uma temporada no Brasil.

O casal de administradores Gabriela Wagner e Ezequiel também é um exemplo de como é possível fazer o que sonha. Em abril deste ano, eles largaram seus respectivos empregos em Porto Alegre para dar uma volta ao mundo com duração prevista de um ano e meio. No blog De Mãos Dadas pelo Mundo, eles relatam os detalhes da viagem, incluindo os custos. Em 60 dias, eles já passaram por cinco países, gastando 21.145,42 (R$ 352,42 por dia). Eles se dividiram entre hostels, casas de amigos e apartamentos alugados.

Antes de caírem no mundo, eles tinham planos tradicionais. Comprar um novo carro e mudar de apartamento, mas sentiram que podiam fazer algo diferente. Economizando, o que exige sacrifício, eles juntaram dinheiro para realizar o projeto de viagem. Segundo as pesquisas que fizeram, era possível dar a volta ao mundo com 25 a 35 mil dólares por pessoa.

“Nós dois sempre gostamos de nossos trabalhos e nos consideramos bem sucedidos. Porém a coragem de ir em busca de nossos objetivos e de viver uma vida plena nos deixou muito mais fortes e convictos. É importante ressaltar que temos certeza de que dar uma volta ao mundo não é para todo mundo, cada pessoa tem suas prioridades e objetivos. Desejamos inspirar você a ir atrás dos seus sonhos com foco e planejamento. Por isso, reflita, planeje e coloque em prática seus planos”, afirma a dupla.

Fernada Nêute pensa parecido. Ser nômade é um estilo de vida. E como todas as escolhas, para tudo que se leva há algo que deve ser deixado para trás. “Não existe felicidade perfeita. Até as melhores coisas da vida tem um lado negativo. Por isso, feliz é aquele que consegue lidar com as emoções negativas e aprender com as situações adversas da vida, que são inevitáveis”, escreveu.

O adeus da carteira assinada

Dores e delícias também existem quando decidimos tomar outro rumo dentro da própria carreira. Ser empreendedor tem vantagens claras, assim como desafios e perrengues que só conhece quem está por trás do negócio. Abandonar um emprego estável é uma atitude audaciosa e o caminho para o sucesso pode ser pedregoso. Na Revista Administradores, conversamos com a jornalista Vanessa Oliveira, que decidiu pedir demissão e iniciar um negócio.

Como repórter, Vanessa tinha uma rotina atribulada e fazia viagens constantes. O dia a dia, que já era corrido, começou a pesar ainda mais quando ela se tornou mãe, pois os compromissos profissionais a faziam ficar longe de sua filha por dias. Como queria ter mais tempo com a bebê, decidiu, no primeiro momento, solicitar menos viagens ao seu chefe, que questionou se sua prioridade era a vida profissional ou a maternidade.

A partir daí, Vanessa ficou insatisfeita e acabou saindo do emprego, com o intuito de trabalhar em algo que lhe proporcionasse horários flexíveis. Foi aí que teve a ideia, junto a outras duas amigas, de unir publicidade a embalagens de pães. Com isso, surgiu em 2010, a Mídia Pane, em São José dos Campos (SP).

Hoje, a empresa tem 165 franquias espalhadas por 20 estados brasileiros, imprime anúncios mensalmente em cerca de 2 milhões de sacos de pão e, claro, é um motivo de orgulho para a empreendedora. “A saída do meu trabalho contribuiu para que eu pudesse amadurecer melhor a ideia de ter o meu próprio negócio e me dedicar quase que integralmente à formatação do negócio. A maternidade foi um divisor de águas na minha vida. Foi a partir daí que percebi que gostaria de me dedicar a esse momento tão importante. Foi um desafio que valeu a pena”, comemora Vanessa, que, após a desistência de suas sócias logo no início, continuou o negócio com a ajuda do irmão.

Enfrentando um país para realizar um sonho

Guarde este nome: Laura Dekker. Nascida na Nova Zelândia, em meio a uma viagem de barco que os pais estavam fazendo pelo mundo, ela viveu no mar até os 5 anos. Pouco depois de se fixar na Holanda, sua família se esfacelou: a mãe e o pai se separaram. A irmã mais nova foi viver com a mãe. Laura preferiu ficar com o pai, com quem aprendeu tudo sobre barcos e navegação. Aos sete anos, começou a velejar em pequenos lagos. Aos 10, já tinha um barco um pouco maior, comprado com seu próprio dinheiro, que juntou trabalhando nas férias. Aos 12, deu a volta na Grã-Bretanha. Aos 13, resolveu ir mais longe: dar a volta ao mundo. Sozinha.

Sua decisão, apoiada pelo pai, quando se tornou pública, se tornou assunto nacional. A história ocupou o noticiário e foi parar na Justiça. O conselho tutelar da cidade em que vivia tentou tirar a guarda do pai para impedir a viagem. Mas, depois de uma batalha de 10 meses nos tribunais, quando Laura já havia completado 14 anos, os juízes lhe deram ganho de causa.

Com o caminho livre e a notoriedade dada pela disputa na Justiça, ela conseguiu vários patrocinadores e ainda montou uma estrutura para registrar a viagem em um documentário, co-dirigido com o cineasta Jillian Schlesinger, chamado Maidentrip (disponível no Netflix).

A menina ganhou o mundo e realizou seu sonho. Enfrentou tormentas, teve que consertar o barco no meio da viagem, aprendeu a gerenciar seus mantimentos, a controlar seus sentimentos, entender suas responsabilidades. 

Na volta, foi recebida com festa pelos colegas de escola que a achavam “estranha” e a excluíam nas atividades.

E então: vai ficar aí só se reclamando?


Fonte: Notícias Administradores / As dores e as delícias de fazer o que poucos têm coragem

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