As pessoas por trás do CNPJ

As pessoas por trás do CNPJ

Mesmo atuando há vários anos na área contábil, ainda continuo me contagiando com o entusiasmo de cada novo empreendedor que me procura para ajudá-lo a dar vida às suas ideias e a seus projetos

Atualmente, temos no Brasil algo em torno de 9 milhões de micro e pequenas empresas.

Mas o que a sociedade e a mídia costumam chamar de empresas, eu enxergo como sendo 9 milhões de trabalhadores que lutam no dia a dia para gerar o próprio salário, estando por sua conta e risco e com somente uma certeza: seu sócio oculto (governo) vai levar a sua parte, mesmo que o negócio não gere lucros.

Comecei a ter uma percepção mais humana sobre as empresas já na época em que trabalhava como office boy, em meu primeiro emprego num escritório contábil.

Como na maioria das pequenas empresas, muitas delas utilizavam a própria residência de forma compartilhada com a instalação de suas atividades empresariais, quando o plano diretor municipal permitia esse tipo de atividade, é claro. Mas, em sua maioria, eram prestadores de serviços.

Eu visitava esses clientes para fazer a coleta de notas e documentos contábeis, fazia a cobrança dos honorários e, com isso, acabava criando um vinculo de confiança muito forte com essas pessoas. Elas faziam questão de me oferecer um café, um suco, um bolo que tinha acabado de sair do forno, ou qualquer coisa que tivessem à mesa.

Nessas conversas (meu serviço atrasava bastante, reconheço), eu ficava sabendo de detalhes de suas vidas, não só os relativos às suas empresas.

Comovia-me com o falecimento de algum ente querido (que, na maioria das vezes, eu nem conhecia), como também me alegrava com suas pequenas conquistas ou com as de seus familiares, que me eram confidenciadas como se eu fosse da própria família.

Por isso, quando falo de uma empresa, eu lembro das pessoas que de fato dão vida a esse CNPJ.

Eu falo da mercearia da Dona Zélia, que herdou o negócio do pai, e que agora tem uma filha que já está começando a ajudá-la no atendimento aos clientes.

Falo da confecção de roupas da Dona Elvira, que utiliza uma parte da sua casa para instalar as máquinas de costura e cede a própria cozinha para que suas duas funcionárias possam fazer o lanche e o almoço.

Há também a oficina do Mario, que me cumprimentava com o cotovelo, pois suas mãos estavam sempre cheias de graxa.

São pessoas batalhadoras que querem trabalhar na legalidade, querem sustentar suas famílias e, principalmente, querem ser felizes, mas que sofrem com a pesada carga tributária brasileira, e, principalmente, com a burocracia sufocante e castradora que limita o crescimento de suas empresas.

Mesmo atuando há vários anos na área contábil, ainda continuo me contagiando com o entusiasmo de cada novo empreendedor que me procura para ajudá-lo a dar vida às suas ideias e a seus projetos, mas nunca sem deixar de alertá-lo sobre os riscos e as dificuldades que ele irá encontrar.

Portanto, quando ouço falar das frias estatísticas sobre fechamento de empresas no Brasil, a primeira coisa que me vem à mente não é a quantidade de empresas (CNPJs) que fecharam, mas, sim, a quantidade de pessoas que ousaram sonhar com um empreendimento e que agora terão de encarar a difícil decisão de mudar de negócio ou de desistir totalmente desse sonho.

Pois, apesar de existir um crescimento na quantidade de empresas no Brasil, não se observa um aumento da renda desses verdadeiros heróis na mesma proporção, pois o Estado está se tornando, cada vez mais, um estorvo na vida das pequenas empresas.

 


Fonte: Artigos Administradores / As pessoas por trás do CNPJ

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