As pirâmides de Macunaíma. Até que ponto você se deixa enganar?

As pirâmides de Macunaíma. Até que ponto você se deixa enganar?

Em tempos de economia frágil e moeda desvalorizada, promessas de dinheiro fácil podem te levar a uma grande armadilha… ou quem sabe a uma jornada de autodescoberta

Vamos supor que você acabou de perder o emprego, e apesar de ter recebido uma justa multa rescisória está inseguro sem saber o que será da sua vida, pois seus conhecimentos são muito específicos, logo um novo emprego não surgirá da noite para o dia. Conversando sobre o problema, um amigo te sugere uma proposta de entrar em um ótimo negócio. Uma multinacional, com franco plano de expansão no Brasil, está procurando sócios para divulgar seus produtos inovadores com um plano muito bem estruturado de marketing multinível. Você só precisa dispor de R$ 4.500,00 e a porta de uma nova vida de riquezas estará aberta para toda a sua família. Tentador não? Mas antes de assinar os papéis, autorizar o DOC entre contas e embarcar nessa possível enrascada tenha muita calma.

A verdade é que por trás de um discurso lindo sobre lucros absurdos, produtos fantásticos, reunir os amigos e ficar rico com todos eles e os demais envolvidos talvez esconda os tantos “porém” presentes nessa história toda.         

Para dissipar toda a névoa que permeia o assunto, porque não começamos diferenciando o sistema de marketing multinível dos famosos (porém velados) esquemas de pirâmide: 

  1. Marketing Multinível: Modelo criado por Carl Rehnborg em meados da década de 40 com o intuito de comissionar funcionários de sua empresa em diferentes faixas de cargos. Sua principal característica é o lucro através da venda de produtos e/ou participações nos lucros de associados indicados.
  1. Pirâmide Financeira: Idealizada por Charles Ponzi na década de 20. O imigrante italiano montou um rápido sistema de lucros atípicos aos investidores, lucros esses sustentados pelos novos entrantes.

Após a explanação acima, fica fácil definir a principal diferença no modus operandi dos dois sistemas. O PRODUTO!

Sem um produto a ser comercializado, um programa de Marketing Multinível pode facilmente se enquadrar como pirâmide, assim como um claro esquema fraudulento pode se travestir de Marketing Multinível. Partindo desta premissa muitas empresas “jogam com a regra debaixo do braço”. Sendo mais claro, muitas empresas alegam comercializar produtos para mascarar suas reais intenções. Não podemos afirmar com veracidade, mas julgo ser mais fácil lucrar alimentando sonhos em pessoas do que as convencer a beber sucos de R$ 80,00/litro.

Se o produto de frente é, em muitas vezes, deslocado da faixa de preço dos concorrentes e com uma fatia irrisória do mercado, porque essas empresas não param de crescer e ganhar mais adeptos? A resposta talvez esteja mais em nossas mãos do que nas dos próprios cabeças das tais organizações. Se é sabido que as empresas, claramente, lucram mais com a chegada de novos integrantes, e que a grande fatia dos produtos por elas comercializados são adquiridos pelos próprios integrantes apenas para divulgação e apoio no processo de “conversão” de novos integrantes; se sabemos também que o produto que deveria ser o core business é negligenciado com os falsos discursos de “nosso produto é a sua felicidade, é a sua riqueza”, porque continuamos nos deixando seduzir por esse discurso vazio e démodé? É justamente neste ponto em que Macunaíma entra na história para nos ajudar a elucidar o caso.

Macunaíma, personagem criado por Mário de Andrade com o objetivo de personificar o desvio de caráter, a leviandade e a inclinação do brasileiro para a procrastinação e preguiça. Famoso pelo seu icônico jargão “Ai que preguiça…”, na história viveu uma série de desventuras onde tentou obter vantagens através de malícia e mentira.  Se existir pelo menos uma parte de nós que faça justiça ao índio facínora, sem dúvida essa parte ficará aberta para os discursos sedutores das pirâmides. Sendo assim, até que ponto estamos sendo de fato enganados com o discurso das pirâmides financeiras? Não estaria nosso “Macunaíma interior” nos encorajando a entrar nesses esquemas com desculpas de “ahhhh, todos fazem isso” ou “porque você também não pode fazer um dinheiro fácil? ”.

Em tempos como o de hoje, em que o dinheiro já não vale mais como em outrora, em tempos de recessão econômica e desemprego, até que ponto você daria ouvidos ao oportunismo de Ponzi? Até que ponto você, conscientemente, seguiria os conselhos do Macunaíma que vive na parte obscura da sua mente?  Vale lembrar que, já que o nosso código penal é implacável com os ignorantes, uma possível desculpa de “eu não sabia que isso era crime” pode não colar. Então amigo, a critério de sugestão, trabalhe, reme contra a crise atual e principalmente blinde-se contra propostas de dinheiro fácil. Sua vida pode até ser mais sofrida e dura, mas será honesta e sem a culpa de ter ludibriado terceiros. E sempre que Macunaíma levantar de sua rede para te tentar, lembre-se do mantra que sempre procuro repetir aos “faraós” que encontro pela vida:

“Amigo, afaste de mim este cálice… mesmo que nele tenha aquele suco estranho de oitenta reais…”


Fonte: Artigos Administradores / As pirâmides de Macunaíma. Até que ponto você se deixa enganar?

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