Brasil: somos um país antiético?

Brasil: somos um país antiético?

Com a corrupção dominando o noticiário fica uma dúvida: a falta de ética é um problema irreversível nas organizações ou podemos transformar nossa sociedade para melhor. E você, é um líder ético?

“Nenhuma sociedade pode sobreviver sem um código moral fundado sobre valores compreendidos, aceitos e respeitados pela maioria dos seus membros”. – Jacques Monod

Este foi um ano em que a corrupção, a falta de ética e a irresponsabilidade socioambiental dominou o noticiário brasileiro. O escândalo da Petrobrás, revelado pela Operação Lava Jato, incluindo a prisão de vários executivos, entre eles dois destacados CEOs do mercado (o presidente da Odebrecht e o CEO do Banco BTG Pactual), também acusados de corrupção, o desastre ambiental e social provocado pela Samarco em Mariana, Minas Gerais, considerado pela presidente da república como uma irresponsabilidade corporativa, a prisão de um ex-presidente da CBF no escândalo da FIFA, a inesperada prisão de um senador da república, são apenas alguns exemplos da queda de gigantes, na qual instituições públicas estremecem e grandes corporações tem desvalorização bilionária da noite para o dia, todos manchando indelevelmente a história do país, máculas que ficarão como cases de práticas de falta de ética e irresponsabilidade corporativa e pública.

Uma pesquisa divulgada no mês passado pela Datafolha revelou que, pela primeira vez, o maior problema do país segundo a população é a corrupção (34%), que ficou a frente de mazelas como saúde, desemprego, educação e violência. Sabemos que o Brasil é um país impotente no trato de questões sociais como educação, desemprego, saúde e violência. Mas corrupção?

Bem, claro que isto não é novidade para muita gente, afinal teve a carta do Pero Vaz de Caminha pedindo emprego para um parente, no exterior muitos hoteleiros arrepiam quando um turista brasileiro furta coisas do hotel, Lei de Gérson, o impeachment de Fernando Collor, Caixa 2… enfim sempre houve notícias de corrupção, desvio e lavagem de dinheiro. Serve de consolo que o Brasil também não está sozinho, somos o 72° lugar no ranking da corrupção, segundo a ONG Transparência Internacional. Muitos países e empresas sofrem do mesmo mal. Os especialistas dizem que é da natureza humana.

Então, o que é diferente agora? O Brasil se tornou um país mais corrupto e mais antiético? Um país onde suas instituições e negócios são geridos de maneira irresponsável e criminosa? A educação piorou? Ou os crimes estão sendo mais descobertos? Ou a mídia mais perscrutadora? Ou a democracia se fortaleceu?

Não pretendo aqui evoluir nessa investigação. Isso levaria muitas páginas. Mas gostaria de analisar o meu e o seu microcosmo e se há algo que cada um de nós possa fazer, sobretudo no âmbito das organizações em que trabalhamos, elas que são o meu campo de estudo.

Como qualquer nação, a cultura brasileira possui alguns cânceres inerentes. Acredito que poderemos gradualmente erradicar muitos deles que impedem o país de ser e ocupar o lugar compatível com a sua grandeza. Talvez devêssemos fazer uma reflexão, um mea culpa geral, reconhecer nossas limitações e maus hábitos, buscar a transformação e nos reinventarmos como povo e nação. E isto depende dos individuos e cidadãos, enfim de todos nós. “Falta um líder transformacional e unificador que nos guie pelo exemplo”, alguém deve estar pensando. Mas como dizia Gandhi, se queres mudar o mundo, comece por si mesmo.

Líderes devem ser éticos

A ética empresarial tem sido cada vez mais ocupado espaço na sociedade e no mundo corporativo. Uma pesquisa recente feita pela Robert Half com centenas de gestores apontou que a ética (caráter/integridade) é a segunda característica mais importante que um líder deve ter superada apenas pela capacidade de inspirar outras pessoas (43,4%). Ela foi citada (42%) antes da capacidade de tomar decisões (38,9%) e a capacidade de identificar e desenvolver talentos (33%) entre outras.

 Você é uma pessoa ética? Você já parou para refletir o seu nível ético como líder ou profissional? Como você se avalia nesta competência profissional?

Todo gestor e todo profissional se depara frequentemente com um dilema ético. Ele pensa o que fazer diante de uma determinada situação no trabalho? O que é considerado certo e errado naquela situação? Nos dilemas éticos as questões envolvem ambiguidade e incerteza, o que nos faz normalmente ficar em dúvida sobe qual a melhor solução.

Fazer escolhas éticas são comumente desafios que devemos enfrentar nas ações e relacionamentos do mundo empresarial. Os dilemas éticos não têm respostas fáceis! Se um líder ou profissional quiser ter mais certeza e errar menos em suas decisões, ele precisará se desenvolver nessa competência. Primeiramente deverá conhecer melhor a si mesmo, depois analisar seus princípios e valores como pessoas e depois compreender o que o ambiente social onde vive considera certo e errado.

Veja algumas situações cotidianas que exigem uma reflexão ética para a tomada de decisão:

– Se você está almoçando e ouve dois colegas discutindo sobre informações confidenciais sobre um cliente, cujo nome é citado, você fica calado, chama a atenção dos colegas ou os denuncia a um superior?

– No meio de uma reunião estratégica importante você observa que seu colega do lado entrou no WhatsApp para conversar online, você ignora, pede para ele parar, pede para ela sair ou pega o celular da mão dela?

– Você está num almoço importante com um cliente, quando o garçom traz a conta, você percebe que ele esqueceu de lançar o vinho na nota, você fica quieto, pede para o garçom incluir o vinho ou simplesmente dá uma gorjeta maior?

– Se você é parado por um guarda por ter ultrapassado o sinal fechado e ele lhe informa que vai multa-lo, você pede desculpas e acata a multa, você lhe pergunta se dá para relevar ou lhe oferece uma nota de R$100,00 para ele esquecer?

– Se um fornecedor lhe oferece uma passagem com direito a acompanhante e hospedagem por um mês na Europa como contrapartida para que você decida pela empresa dele em uma licitação, você declina, comunica ao seu chefe, liga para o chefe dele para denunciar ou aceita dissimuladamente o presente?

Não é incomum ouvir gestores procurando justificar suas decisões antiéticas com frases conhecidas tais como: “mas todo mundo faz isso”, “é apenas negócio”, “ninguém vai saber” ou “é só desta vez”.

Antes de você continuar a leitura, faça um teste se você é um desses gestores ou profissionais. Faça o teste aqui!

Muitos ainda acreditam que ética nos negócios é um oximoro, isto é, algo contraditório e impossível de coexistir com os princípios comerciais. Na verdade, a expressão “ética empresarial” deve ser encarada como uma outra figura de linguagem: pleonasmo. Essa expressão ainda é mais forte quando nos referimos ao líder ou gestor ético, já que a ética é um atributo dos mais importantes para a eficácia do líder ou gestor.

Como muitas abordagens da administração exploram, a empresa pode obter lucros com ética e responsabilidade socioambiental, sem prejudicar nenhuma parte interessada e gerando valor superior compartilhado, respeitando e valorizando todos os stakeholders. As metas econômicas não se dissociam do comportamento ético. Ao contrário, empresas antiéticas costumam perder valor de mercado e até desaparecer. O movimento “Capitalismo Consciente”, por exemplo, é uma ótima abordagem que orienta nessa direção.

Para orientar e regrar o comportamento dos líderes e colaboradores muitas empresas adotam práticas disciplinares sobre ética e compliance. Muitas tem implantado um Guia de Conduta ou um Código de Ética, que norteia o que é certo ou errado e auxilia o gestor na tomada e decisão. Essas empresas têm criado também um departamento ou estrutura específica e dedicando um gestor exclusivo para gerir a ética e compliance no trabalho. Além disso, é usual a implantação de uma linha telefônica direta (hotline) para denúncias de atos que prejudiquem a organização. E, ainda, cursos e treinamentos sobre ética e compliance para todos os colaboradores.

A ética começa na educação e termina na educação

Ações de treinamento e desenvolvimento sobre ética são essenciais para a excelência ética da organização, pois a ética baseia-se nos valores e crenças dos indivíduos e deve ser coerente com a cultura e os valores organizacionais. Abordar e disseminar aspectos conceituais e filosóficos sem todavia excesso de teorização, imbuirá a organização de princípios morais. Visualizar o conjunto de comportamentos e decisões adequadas a um ambiente particular e a uma situação específica promoverão o desenvolvimento gerencial para otimizar a performance dos líderes, tornando-os mais justos, íntegros e respeitosos, assegurando, por consequência, a sustentabilidade empresarial.

Com base no livro de Gene Ahner, “Ética nos Negócios: construir uma vida, não apenas ganhar a vida” (2009), sugiro algumas dicas para elevar seu nível de ética no trabalho:

  • Agir dentro das leis, normas, regras e políticas da empresa e sociedade
  • Quando tomar uma decisão preocupe-se com o que realmente sabe e sente que é correto e não sobre o que os outros vão pensar de você
  • Na dúvida, deixar-se guiar pelo que o seu coração diz que é certo
  • Antes de tomar uma decisão preocupar-se primeiramente se será injusto ou se prejudicará alguém, antes de avaliar seus próprios benefícios
  • Adiar ganhos imediatos, e aceitar perdas imediatas em prol de soluções que tragam benefícios para um maior número de pessoas
  • Preocupar-se primeiro com a segurança e bem-estar das outras pessoas e depois preocupar-se com sua segurança e bem-estar.
  • Ter honestidade e integridade em suas ações e decisões.
  • Indicar um erro ou punir uma irregularidade e não deixar o sentimento de pena interferir na sua decisão
  • Preocupar-se em cumprir suas atribuições e responsabilidades.
  • Autogerenciar-se e desenvolver-se continuamente para ser uma pessoa “melhor”, cultivando hábitos positivos, analisando-se a si próprio sobre seu atos e valores
  • Quando for decidir, procurar conhecer todos os detalhes possíveis envolvidos para certificar-se que está sendo justo e discutir com todas as pessoas envolvidas, independentemente do tempo disponível.

Pensando na frase de Albert Einstein, “Somente a moralidade das nossas ações pode nos dar a beleza e a dignidade de viver”, creio que se cada gestor e profissional buscar mudar a si mesmo, gradualmente logo teremos um efeito contagiante e escalar que poderá contaminar a empresa e mudar consequentemente a sociedade e o mundo para uma vida digna e feliz.


Fonte: Artigos Administradores / Brasil: somos um país antiético?

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