Características e desafios do Gerenciamento de Projetos em organizações do terceiro setor

Características e desafios do Gerenciamento de Projetos em organizações do terceiro setor

Empresas, sejam elas privadas ou públicas, possuem recursos financeiros, humanos e materiais (equipamentos, capacidade produtiva, etc.) limitados. Por isso, a identificação e a priorização dos projetos que trarão maiores benefícios e que estejam mais alinhados com os objetivos estratégicos da empresa são imprescindíveis para que esses recursos limitados sejam utilizados da melhor maneira possível

Empresas, sejam elas privadas ou públicas, possuem recursos financeiros, humanos e materiais (equipamentos, capacidade produtiva, etc.) limitados. Por isso, a identificação e a priorização dos projetos que trarão maiores benefícios e que estejam mais alinhados com os objetivos estratégicos da empresa são imprescindíveis para que esses recursos limitados sejam utilizados da melhor maneira possível. Após essa fase, segue-se outra de importância fundamental: a gestão dos projetos escolhidos, para que os seus objetivos sejam atingidos dentro da estimativa de custo, tempo, escopo, qualidade e atendimento às expectativas e necessidades das partes interessadas.

Portanto, as técnicas e os conhecimentos em gerenciamento de projetos são parte essencial do sucesso das empresas. E esse cenário não é diferente nas organizações do terceiro setor. Aliás, nestas geralmente os recursos são ainda mais limitados, tornando ainda mais necessário um gerenciamento eficiente e eficaz dos projetos.

Mas qual é a melhor forma de se gerenciar projetos no terceiro setor? Deve-se gerenciar os projetos da mesma forma que nas empresas com fins lucrativos? Obviamente que o conjunto estabelecido de técnicas e conhecimentos em gerenciamento de projetos, em grande parte, também é útil para as organizações do terceiro setor. Porém, existem algumas peculiaridades e nuances que devem ser considerados.

Um erro muito comum em organizações do terceiro setor é desprezar o retorno financeiro (ROI) dos projetos. Acredita-se que por não ter fim lucrativo, não faz sentido se preocupar com o retorno financeiro dos projetos do terceiro setor. Porém, justamente pela limitação dos recursos financeiros, este retorno também é uma variável importante nos projetos do terceiro setor. É necessário que os recursos próprios da instituição e os dos seus mantenedores e parceiros sejam aplicados de forma eficiente para gerar o maior impacto social possível. É altamente recomendável desenvolver formas de se medir o impacto social dos projetos e, se possível, encontrar o resultado financeiro equivalente. Essa equivalência dependerá muito do escopo de atuação da ONG, dos objetivos do projeto, dos resultados que se quer alcançar e do público beneficiado por ele.

Outra característica que sobressai em projetos do terceiro setor é o alto grau de envolvimento das partes interessadas, bem como a sua abrangência. Geralmente os projetos do terceiro setor envolvem um grande número de pessoas, instituições e órgãos, das mais diversas esferas privadas e públicas, e por vezes com objetivos e propósitos diferentes (até mesmo conflitantes em muitas situações). Como o impacto na sociedade e na vida das pessoas é o objetivo primordial do escopo dos projetos, o gerenciamento transparente e eficiente das partes interessadas é um dos principais fatores de sucesso! Portanto, é imprescindível desenvolver um alto grau de envolvimento com as partes interessadas. É necessário que os gerentes de projetos e até mesmo a alta direção das organizações do terceiro setor mantenham um relacionamento estreito com as partes interessadas do projeto, sentindo em tempo real, ou muito próximo disso, a percepção delas em relação ao progresso do projeto, os seus efeitos, benefícios, problemas e impactos até o momento. Qualquer insatisfação ou desvio nos objetivos do projeto pode causar impactos negativos na condução do projeto ou na reputação da entidade.

Como consequência natural do maior envolvimento das partes interessadas, o gerenciamento de riscos em projetos do terceiro setor adquire uma importância ainda maior em relação aos projetos de empresas. Quando se fala em escopo, objetivos e resultados intimamente ligados aos aspectos socioeconômicos, culturais e educacionais das pessoas e de conjuntos da sociedade, os riscos se potencializam e, em muitos casos, são difusos e de difícil identificação, percepção e quantificação. O mesmo se aplica às oportunidades, lembrando que os riscos de um projeto não se resumem a eventos e situações negativas. Os eventos e situações positivas se configuram como oportunidades que devem ser, na medida do possível, identificadas, percebidas, quantificadas e aproveitadas pelo projeto. Para isso, é necessário que o gerente de projetos esteja sempre atento às situações e eventos do projeto, preocupando-se em captá-los, identificá-los, definir se são negativos (riscos) ou positivos (oportunidades) e gerenciá-los para que não afetem negativamente os projetos, caso sejam riscos, ou para que sejam plenamente aproveitados e revertidos em prol dos projetos, caso sejam oportunidades.

Um dos maiores desafios em organizações do terceiro setor é a elaboração de processos e a definição de uma metodologia para o gerenciamento dos projetos. Nessa questão, há um ponto em comum entre as organizações do terceiro setor e as empresas: não há receita pronta e infalível! Cada empresa ou organização tem os seus valores, a sua cultura, a sua história e as suas especificidades organizacionais, hierárquicas e administrativas. Com o tempo, as empresas já consolidaram alguns modelos (templates) prontos que necessitam apenas de algumas adaptações. No terceiro setor esse processo de consolidação está no estágio inicial. Nos últimos anos muitos pesquisadores, autores e instituições voltaram os seus olhos para o gerenciamento de projetos no terceiro setor. Desse movimento surgiram algumas propostas interessantes de modelos e templates de gerenciamento de projetos para esse segmento, que trataremos em artigos futuros. [GS1] Porém, ainda temos um longo caminho a percorrer até a consolidação de técnicas e metodologias de gerenciamento de projetos para o terceiro setor nos mesmos moldes do existente atualmente para as empresas de outros segmentos da economia.

Outro desafio bastante interessante, e ainda mais complexo do que a definição de processos e metodologias, é a criação de indicadores relacionados ao impacto social dos projetos e das ações implementadas pelo terceiro setor. Por se tratar de projetos cujo impacto está relacionado à melhoria das condições de vida das pessoas e de parte da sociedade, aumento da qualificação profissional e do grau de conhecimento, no caso de projetos da área educacional, entre muitos outros ainda mais subjetivos, nem sempre se consegue quantificar de forma objetiva e clara o progresso alcançado. Dessa forma, prejudica-se a análise do previsto versus realizado e nem sempre se consegue visualizar claramente quanto do objetivo e do escopo foram alcançados.

Algumas organizações e instituições do terceiro setor já iniciaram um trabalho de identificação, definição e construção de indicadores apropriados para a medição do impacto social dos projetos. Porém, da mesma forma que os processos e metodologias, há um caminho ainda mais longo para se formar um conjunto minimamente comum de indicadores aceitos pelas partes envolvidas do terceiro setor, principalmente patrocinadores e mantenedores.

As ponderações aqui realizadas, as dificuldades mencionadas e a conclusão dessas reflexões jamais podem nos causar desânimo ou nos desestimular na busca pela eficiência e por práticas comuns no gerenciamento de projetos do terceiro setor. Pelo contrário, o objetivo é mostrar que vivemos um momento único e riquíssimo de aprendizado e criação! Todos nós, envolvidos no terceiro setor, temos a magnífica oportunidade de participarmos desse processo criativo que culminará no aumento da eficiência das organizações do terceiro setor e, consequentemente, no crescimento desse importante segmento da sociedade. Todo esse processo, no final, resultará em organizações do terceiro setor ainda mais fortes, mais eficientes, mais competentes e mais comprometidas com o resultado do seu trabalho de transformação da vida das pessoas e de construção de um mundo melhor para todos!


Fonte: Artigos Administradores / Características e desafios do Gerenciamento de Projetos em organizações do terceiro setor

Os comentários estão fechados.