Cegueira coletiva

Cegueira coletiva

Usando um pouco a razão, vemos que a realidade econômica do país precisa servir como input para o planejamento de uma carreira, mas existe algo ainda mais importante: a percepção de velocidade das mudanças

Poucas pessoas estão conscientes sobre o impacto da tecnologia no mercado do século XIX. Seguir o modelo sempre pareceu ser a coisa certa, até a palavra modelo virar sinônimo de obsolescência. Deixe-me explicar melhor: pense em poucas frases o que seus colegas de trabalho e da faculdade estão fazendo para crescer profissionalmente. Agora tente explicar por que 70% dos jovens (de até 24 anos) trocam de emprego antes mesmo de fechar um ano de empresa. Sim, há muita insatisfação dos jovens com as empresas e das empresas com os jovens, mas eu me pergunto que padrão de empresa ou de cargos têm sido visados por esta geração. Uma geração que cresceu ouvindo conselhos de quem viveu outra época, uma época de economia aquecida, de oportunidades, em que o simples fato de ter uma formação ou de saber inglês já fazia você “especial”.

Hoje você se forma, aprende inglês e descobre que as empresas não vão brigar por você ou fazer você crescer numa carreira meteórica, muito menos oferecer um trabalho coerente com suas preferências. Então você procura uma diferenciação, especializações, e descobre que no mundo real existe o QI (quem indica), existe o amiginho do chefe, o falastrão “articulado”, fatores que muitas vezes contam mais do que anos de dedicação e esforço. Mas, fazer o quê? Todos sabem disso e continuam fazendo a mesma coisa, então você não tem opção. Se todos são cegos, o mais inteligente é arrancar os próprios olhos. É o que sugere o pensamento dominante.  

Usando um pouco a razão, vemos que a realidade econômica do país precisa servir como input para o planejamento de uma carreira, mas existe algo ainda mais importante: a percepção de velocidade das mudanças. A internet, por exemplo, mudou completamente nossa realidade, mas ainda é encarada como “coisa nova”, “recente”, pelo sistema jurídico, pelas autoridades, pelas empresas, etc. Isso é uma falha grotesca.

Não me impressiona o fato de poucos atribuírem a devida relevância à internet, afinal as mudanças drásticas da humanidade vieram sempre a passos lentos, de maneira que a adaptação sempre esteve relacionada com o conceito de transição suave. Isso deixou de ser verdade porque a própria internet mudou as regras do jogo, conectando o mundo, oferecendo o conhecimento a um clique de distância e, principalmente, abrindo um leque de oportunidades para os visionários. Nunca houve tantos jovens ficando ricos com poucos anos de trabalho. Ei, espere um pouco, jovens ficando ricos? Sem longos anos de especializações, experiências profissionais, currículos bombásticos? Sem trilhar o plano de carreira de uma grande corporação? Pasme.

Para ter uma leve ideia de que as coisas mudaram, repare que 89% das empresas listadas na Fortune 500 em 1955 não estavam na lista em 2014. Nas últimas décadas, o tempo de mercado que titulava uma empresa como tendo um diferencial competitivo caiu de 30 anos para 5 anos. Conclusão: a concorrência está chegando mais rápido, com mais cartas na manga, ávida para destronar quem quer que seja. Vimos isso pouco antes da bolha das ponto com no fim da década de 90, quando um grupo de estudantes rivalizou com a poderosa  Microsoft, na briga pelo lançamento do primeiro navegador. Ficou claro para todos os empreendedores que um novo mundo estava se formando. É curioso, contudo, que poucos tenham tirado real proveito disso.

A NET, por exemplo, não deu atenção ao serviço de Streaming até que a Netflix tomou conta desse mercado. As corporativas de taxi não se importaram com essa história de aplicativo até uma Startup criar o Easy Taxi em 2011 e controlar um mercado que já era para ter seus donos. Logo em seguida, sem tempo para as corporativas respirarem e digerirem a tecnologia, surge outro aplicativo (Uber), dessa vez ameaçando não só revolucionar como sepultar o conceito de taxi. Surpresa?!

Em outros campos temos as empresas de telefonia que assistiram de camarote a internet engolir quase todos os seus mercados mais rentáveis. Vimos a indústria musical insistir nos CDs em tempos de digitalização. A lista é grande, e não pense que sua empresa não está vivendo nessa mesma época. Se a expectativa de vida do ser humano aumentou graças à tecnologia, saiba que a expectativa de vida das empresas diminuiu drasticamente. Quem não está disposto a mudar (e até se reinventar) está fadado a morrer.

Por outro lado, se o mundo ficou mais cruel e sanguinário para o trabalhador que sonha com o cargo estável, ao mesmo tempo permitiu que a criatividade e a percepção se transformassem em armas letais para os proativos combaterem os acomodados. Hoje, mais do que nunca, pensar fora da caixa é um diferencial. E como “em terra de cego, quem tem olho é rei”, a cegueira coletiva pode ser o melhor ambiente para você estar.


Fonte: Artigos Administradores / Cegueira coletiva

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