Como a paixão empreendedora pode acabar com seu negócio

Como a paixão empreendedora pode acabar com seu negócio

Porque somente a paixão não sustenta um negócio por muito tempo.

Existem textos que são capazes de nos fazer pensar nas mais improváveis analogias e assim promover insights que talvez jamais seriam desencadeados de outra forma, foi isso que aconteceu comigo e é por esta razão que este texto foi escrito.

Recentemente li um texto de Ana Freitas, intitulado: “Como o mito do amor romântico pode arruinar sua vida amorosa” e é nesta leitura que me inspirei para trazer a você a reflexão sobre paixão e empreendedorismo.

E já que estamos no mês dos namorados, nada mais justo do que falar de amor. Talvez não aquele amor entre duas pessoas, mas aquele que se cria quando você decide empreender e transformar em realidade o projeto que nasceu de um sonho cultivado com tanto empenho. E justamente por isso, o que você vai ler agora, pode não ser algo tão romântico quanto se imagina, mas pode abrir sua mente para cultivar um relacionamento saudável, positivo e acima de tudo realista entre você e seu negócio.

Hoje se vê muito por aí, o discurso de empreendedores de palco que propagam que o melhor é ter paixão pelo seu negócio. Mas será mesmo? Se analisarmos a coisa de uma maneira mais crítica, sabemos que paixão é aquela coisa avassaladora que tem começo, meio e fim. Depois disso meu amigo, é preciso que você se vire nos trinta para dar conta de transformar aquilo em amor. É aquela hora que chamamos de “ou vai ou racha”. Quem tem um negócio, seja ele do tamanho que for, sabe do que estou falando.

E quando falo de amor ao negócio, não me refiro em sempre amar o que faz, muito menos ainda sobre aquela coisa romântica que vemos por aí, mas de algo que se pudéssemos traduzir de outra forma, no mundo dos negócios, chamaríamos de propósito.

Para explicar melhor o que digo, vou contar a você a experiência realizada pelo psicólogo Artur Aron, em 1997. Este psicólogo social, da Universidade Estadual de Nova York desenvolveu e publicou um estudo afirmando que seria possível fazer com que duas pessoas se apaixonassem uma pela outra em poucas horas, e assim, formulou um questionário com 36 perguntas direcionadas, onde bastando apenas responder a tais perguntas e: Shazan! Nasciam dois novos apaixonados.

O estudo ganhou a mídia em 2015 quando a colunista Mandy Len Catron do jornal The New York Times publicou uma matéria afirmando ter seguido o roteiro de perguntas em um encontro e se apaixonado pela pessoa.

Mas e o que esse estudo tem a ver com empreendedorismo? Tudo! Quer ver só?

A cada dia mais vemos discursos e mais discursos inflamados por aí, dizendo sempre as mesmas coisas… mude sua mente, sonhe alto, apaixone-se pelo seu negócio, você é capaz de realizar tudo o que deseja e assim por diante. Existem pessoas que até formularam perguntas para te ajudar a encontrar a sua paixão empreendedora (seria mera coincidência?)

Toda essa coisa meio circense me lembra aquele vídeo da música “The Wall” do Pink Floyd onde crianças entravam em uma máquina de lavagem cerebral e saiam como robôs pré-formatados sentados em carteiras escolares e com máscaras no rosto.

Não seriam estes discursos inflamados também scripts da paixão enlatada para o empreendedorismo, uma fórmula pronta que é martelada todos os dias via redes sociais, e-mail marketing e se duvidar até por sinal de fumaça?

Já estamos cansados de saber da importância da criatividade, da automotivação, do sonho e da dedicação naquilo que se faz, mas sabemos também que somente com isso um negócio não se sustenta. Palavra de quem já quebrou algumas vezes. É preciso ir além, pensando de maneira administrativa e gerencial.

Se você seguir os passos certos, chegará ao sucesso empreendedor! Eles dizem. Mas será mesmo? E quem disse que os passos certos para mim são os mesmos que podem dar certo ao seu empreendimento? E assim se cria a cultura do empreendedorismo romântico propagado em massa, baseado numa paixão avassaladora, quase uma droga que vicia e faz sentir como se o próprio negócio fosse o melhor de todos os tempos, o único a fazer você e seu cliente feliz. Que responsabilidade hein?

Não que este não deva ser o propósito de um negócio afinal, empresas são abertas para ganhar dinheiro oferecendo um produto ou serviço de valor, caso contrário não duram muito tempo. Mas será que você deve ir com tanta sede ao pote sem antes ter uma estratégia bem definida, traçada por você mesmo e com os pés na realidade? Algo com menos firulas e mais profissionalismo, menos frases motivacionais e mais foco no resultado.  

E quando falo em adequar a realidade ao seu negócio, não pense que estou falando em conformismo, mas de ver o tamanho da faca que se tem antes de colocar na bota e sair desbravando o mercado por aí.

Afinal, neste mundo não há mais espaços para amadores, muito menos para paixão momentânea sendo vista como duradoura o que bem sabemos, não é verdade.

Estudos científicos mostram que a paixão se trata de um fenômeno neuroquímico, influenciado por adrenalina, dopamina e serotonina que atuam no cérebro, trazendo essa sensação de euforia e contentamento. Sabe-se também que esse fenômeno pode durar no máximo até dois anos. Seria coincidência tanta empresa fechar as portas no mesmo período de tempo? Acho que não.

O fato é que se você começa um negócio por paixão, deve ter consciência e algumas doses de realidade para transformar isso em algo maior, que você pode chamar de amor ou de propósito pois, assim terá uma visão clara do que realmente tem nas mãos e o que pode fazer para que seu negócio dê certo.

Mas lembre-se: esse amor no mundo dos negócios não é aquela coisa romântica cheia de coraçõezinhos fofos, deixe isso para outro aspecto de sua vida, o amor ao negócio, está relacionado a propósito de fazer acontecer, mesmo que para isso seja preciso fazer coisas das quais não gosta ou tenha que ceder um pouco para conseguir aquilo que quer pois, assim como nos relacionamentos é o amor que sustenta o presente e dá esperanças para visualizar um bom futuro e isso no mundo empresarial, chamamos de sustentabilidade, algo que garante uma relação duradoura entre você e seu negócio. Pense nisso.

 

 


Fonte: Artigos Administradores / Como a paixão empreendedora pode acabar com seu negócio

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