Como Adam Smith pode salvar sua vida

Como Adam Smith pode salvar sua vida

Um livro que você pode ter deixado passar por puro preconceito. Mas não deveria

Se assim como eu você não dá muita atenção a livros de autoajuda, poderá estar correndo o risco de desdenhar um livro muito interessante de Russ Roberts, da Universidade de Stanford, lançado no Brasil agora em 2015, pela editora Sextante.
O autor é bem conhecido por três livros anteriores e por seu podcast Econtalks, tendo adentrado o universo pop pela porta de uma mídia pouco convencional: rap vídeos, onde aparecem se confrontando dois economistas da pesada, Keynes e Hayek, mortos no século passado, mas que ainda por muito tempo vão continuar mexendo com os vivos. (Você pode ver alguns desses vídeos no Youtube, com legenda em português).

A capa do livro destaca o perfil de Adam Smith em amarelo berrante, usando óculos de sol modernos, dando uma ideia da descontração de Russ e do livro, e seu titulo “Como Adam Smith Pode Salvar sua Vida” (disponível para comprar aqui, na versão tradicional, e aqui na versão para Kindle) com o subtítulo “o que o pai da economia tem a ensinar sobre a natureza humana a felicidade e a riqueza” pode fazer com que em algumas livrarias vá parar na estante de livros de autoajuda, o que seria uma pena, pois muitos de seus potenciais leitores não visitam com grande frequência essas estantes.

Todavia, os que forem adiante, e chegarem ao final da leitura, talvez concordem com Nassim Taleb, um auto definido racionalista, que se trata de um grande livro, capaz de lhes fazer sentir-se de bem com a vida, como se tivessem tido uma longa conversação, bebendo um scotch, com o escocês Adam Smith.

Surpresas não faltam ao livro. A primeira de uma série é constatar que Roberts deixa de lado a obra prima “A Riqueza das Nações”, para se aventurar numa interpretação atual de uma obra anterior de Smith – A Teoria dos Sentimentos Morais. Esta obra, uma longa discussão sobre as bases de um comportamento moralmente adequado, um bem arrazoado elogio de virtudes tais como caridade, generosidade, gratidão e amizade (acredite, o capitulo sete do livro de Russ se intitula “How to be Good”) apresenta um Smith que maneja com destreza um corpo de ideias bem diferentes das que são comumente associadas ao economista que primeiro mostrou que é o auto interesse e não a benevolência que rege o provimento da oferta.

Mas Russ vai bem mais longe e afirma que o público costuma demandar dos economistas o que eles menos podem oferecer: opiniões precisas sobre o comportamento futuro do mercado. Segundo ele a economia trata de escolhas, de modo que embora tiver dinheiro seja bom, melhor ainda é saber manejar as escolhas criadas por ele. Isto leva à justificativa dele ter deixado de lado a obra prima de Smith e então concluir o final do primeiro capítulo de forma categórica: se você quiser obter o melhor da vida, Smith tem mais a lhe dizer na Teoria dos Sentimentos Morais que na Riqueza das Nações.

Embora a Teoria dos Sentimentos Morais seja um livro pouco lido, a existência dentro de cada um de nós de um espectador imparcial, que acompanha e avalia todos nosso atos, e que baliza nosso comportamento, é uma das ideias mais conhecidas do livro, apesar de nada original, pois está na base de muitas religiões e teorias psicológicas. Smith usa esse espectador para nos convencer do erros provocados pela auto ilusão (o capitulo quatro se intitula How not to fool yourself) e para mostrar a propriedade moral de moderar nossa satisfação em função da dos demais, aos quais não se pode causar o menor dano na busca do nosso interesse. Se isso soa diferente do Smith da Riqueza das Nações, muito mais ainda está por vir.

Os capítulos três, cinco e seis compõem um bloco. No primeiro aparece um Smith que de maneira quase cândida afirma que o homem deseja ser amado e ao mesmo tempo merecedor desse amor, defendendo que a maior parte da felicidade humana provém da consciência de ser aceito e considerado. É claro que não se refere a Eros, o amor erótico, e sim a philia – a amizade – e caritas, o amor sem receptor especifico, mas mesmo assim não é o que geralmente se esperaria ouvir de Smith. Os outros dois capítulos (How to be loved e How to be lovely) apresentam o que seriam as regras Smithianas para satisfação desse desejo. Com esses temas e esses títulos de capítulos, parece pura auto ajuda. Mas não é.

Nos dois capítulos que antecedem o final ressurge o Smith filosofo social a que nos acostumamos, e aí o livro começa a atingir seu ápice. A complexa interação social de indivíduos que leva a resultados não buscados individualmente, resultados estes ordenados e previsíveis, finalmente tem o destaque merecido. Embora seja um mecanismo imperfeito, na maioria das vezes é mais efetivo que a imposição da lei. A consequência logica desse reconhecimento é a defesa de um intervencionismo mínimo em detrimento da imposição radical, numa argumentação sustentada por exemplos brilhantes, tais como a não programada absorção de novos vocábulos e o sucesso da luta contra o tabaco versus o insucesso da guerra contra o tóxico.

No capítulo final (How to live in the modern world) o leitor já terá se reconciliado com as ideias de Smith e concluído que os dois livros são complementares ao invés de opostos: um trata do nosso espaço de relações pessoais e o outro do espaço das trocas impessoais. E Russ relembra a advertência de Hayek que tentar unir essas duas esferas nos põe no caminho da tirania. Para nós brasileiros no mínimo leva à rota do patrimonialismo, um velho e indesejado nosso conhecido.

George Stigler, grande economista de Chicago agraciado com o Nobel, dizia que depois da Riqueza das Nações não há nada de novo em Economia. Richard Thaler, autor do best seller Nudge e um dos líderes da nova economia comportamental, afirma no seu recente e interessante livro Misbehaving – the making of behaviorial economics, que a grande contribuição de Smith para esta nova área da economia se encontra na Teoria dos Sentimentos Morais. Que mais se poderia dizer de quem fundou uma ciência e fomenta suas mudanças em nosso tempo?


Fonte: Artigos Administradores / Como Adam Smith pode salvar sua vida

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