Como não se tornar um herói?

Como não se tornar um herói?

O herói é aquele profissional que diante de um problema toma decisões erradas, e corre o risco de sair da empresa por problemas comportamentais. Saiba como não cair nessa armadilha!

Paulo Gaudêncio explica didaticamente a diferença entre o profissional prudente, o covarde, o corajoso, o irresponsável e o herói. O prudente é aquele cujo problema não dá para enfrentar e foge; o covarde é aquele que sabe que vai dar, mas foge; o corajoso é aquela pessoa que sabe que vai dar e vai em frente; o irresponsável é aquele que sabe que não vai dar e enfrenta; o herói é aquele que morre de medo e foge, mas erra de direção e pula para frente.

O herói é aquele profissional que diante de um problema toma decisões erradas, e corre o risco de sair da empresa por problemas comportamentais

Diante de um problema, escolha sempre os comportamentos prudente ou corajoso.

Existe uma diferença fundamental entre o irresponsável e o herói: o irresponsável sabe que não vai dar, e vai mesmo assim; o herói acaba fazendo algo que não deveria durante a sua tentativa de fuga, ou melhor, de resolver o problema. Ambos são mal avaliados no comportamental.

O especialista de TI que gerou uma vulnerabilidade no servidor para resolver um problema mais rapidamente; o analista de sistemas que utilizou uma tecnologia que não estava homologada, mas que era do seu interesse aprender; o gerente de TI que gastou demais num projeto que lhe daria visibilidade, mas esqueceu de alinhar com o chefe e a área financeira. Esses heróis fizeram escolhas erradas para resolver problemas que poderiam ser contornados de outra forma. Alguns serão bem lembrados: “o Sicrano se sacrificou para resolver o problema e foi injustiçado”. Outros nem tanto: “o Beltrano fez uma grande bobagem naquela implantação”.

Paulo Freire dizia: “ninguém se disciplina sozinho, os homens se disciplinam em comunhão, mediados pela realidade”. É a realidade corporativa que disciplina os funcionários a terem comportados esperados. Comportamentos oriundos das mais diversas fontes de regras: Compliance, CLT, práticas de TI, código de ética profissional, código cível etc.

Sabemos o que acontece quando um especialista implanta uma solução sem alinhar com a área de arquitetura e segurança (ou quem tiver estes papéis dentro da empresa) ou quando se gasta mais do que deveria para salvar um projeto, que deveria ser cancelado ou repensado. As empresas não são mais tolerantes a desviosde comportamento, mas são com frequência omissas no controle e nos incentivos para que isso não aconteça.

Não faça algo que a empresa não recomendaria mesmo na ausência de controles.

O código civil tem uma frase clássica: “quem causa dano a outrem, fica obrigado a repará-lo”. Existem danos causados pela ação direta quando por exemplo alguém atravessa o sinal e colide com um carro. Em outras situações, cometemos um crime por omissão, quando não atendemos a pessoa que estava ferida no carro. A omissão é a falta de ação que causa indiretamente o dano a outrem, quando bem tipificado. Esta lógica também é válida para os pequenos delitos que se cometem dentro de uma empresa.

Ou seja, o simples fato da empresa não prescrever o que você não pode fazer, não dá o direito de fazê-lo. Algo maior hierarquia das regras irá condená-lo ou ao menos condenar o seu comportamento. Ao assinarmos um contrato com uma empresa exige uma concordância implícita as regras de conduta, mesmo que não sabemos de cor que regras são essas.

Na ausência de informação, de regras, de procedimentos, use o bom senso e escale para o seu gestor, colegas ou a área pertinente.

A dinâmica do herói é sempre parecida. Um profissional de TI atarefado que vê a empresa como um gargalo crescente para a realização das suas atividades e o seu desenvolvimento profissional. Esse custo crescente, conhecimento como custo de transação, é o esforço para se fazer algo novo ou contratar um serviço externo. Pressionado por prazos cada vez mais curtos e por custos crescentes de transação, busca atalhos técnicos não ortodoxos ou assume riscos que deveriam ser escalados.

Em outra situação típica, o profissional opta por uma tecnologia por interesse próprio. A escolha tem como objetivo um ganho não pecuniário tal como se qualificar numa nova tecnologia, serviços e interagir com um fornecedor que possa lhe dá visibilidade. O herói ouve o chamado a aventura e embarca numa solução que resolverá o problema enquanto se beneficia profissionalmente. Este é o anti-herói, que se sacrifica não por bondade, mas por motivações próprias.

Em seu famoso livro sobre o arquétipo do herói: “the hero with a thousand faces”, Joseph Campbell5 descreve a jornada do herói, tão comum na nossa literatura e na nossa história. O herói no seu mundo normal se vê diante de um problema; em seguida é chamado para a aventura; enfrenta inimigos, provações e regressa para casa com o elixir, que usa para ajudar todos no mundo comum. É este comportamento inconsciente que dirige as ações de muitos heróis corporativos.

O problema é que a jornada do herói muitas vezes se transforma num pesadelo. O elixir vira um mico, torna-se um passivo tecnológico ou um desvio de conduta, que a longo prazo interrompe carreiras e reforça a má fama de muitas áreas de TI. Na busca pelo sucesso, o profissional de TI pode cair na armadilha da jornada do herói, quando deveria percorrer uma jornada de valor, aquela na qual a empresa percebe valor nas coisas que você faz e entrega.  

 


Fonte: Artigos Administradores / Como não se tornar um herói?

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