Condicionamento físico + Instagram = Qualidade de Vida = Likes = Felicidade?

Condicionamento físico + Instagram = Qualidade de Vida = Likes = Felicidade?

A interação social de qualquer indivíduo em nossa sociedade surge a partir dos propósitos individuais que incluem, entre outros, os interesses de poder, vaidade e riqueza, disse certa vez Georg Simmel

Viver é tarefa complexa. E se tenho na palma de minhas mãos algo que me entregue a lá carte o que devo comer, como devo comer, como malhar, onde frequentar, o que vestir, onde devo viajar, enfim, como devo viver, é algo que se torna extremamente essencial e que muitas pessoas desejam hoje em dia. Dentro dessa estratégia discursiva, podemos colocar na berlinda uma série de “pessoas-oráculo” que vimos nascer de uns anos pra cá e que pregam as mais desvairadas certezas para milhões e milhões de outras pessoas em sites como Facebook, Instagram, Snapchats e tantos outros. Vemos hoje uma infinidade de moças, em sua maioria, viciadas em condicionamento físico, que vivem numa relação simbiótica com seus smartphones e que oferecem a bel-prazer dicas que vão desde receitas light de alimentos, tirinhas, fotografias de situações cotidianas e todas vendendo uma espécie de chamada “qualidade de vida”, um termo utilizado excessivamente hoje em dia e que, para mim, não diz absolutamente nada. Para algumas pessoas, “qualidade de vida” é levantar todo dia às 5:17hs da madrugada e ingerir um suco verde batido com couve. Pra mim, “qualidade de vida” é sentar com a minha mulher no buteco copo sujo aqui na esquina de casa e tomar uma Skol de casco. Rá!

O sucesso desses perfis de Instagram hoje em dia não só magnetiza obviamente uma legião de seguidores, mas também muitas marcas, afinal vemos uma miríade de marcas de roupas, jóias, alimentos funcionais e suplementos que se aproximam dessas web-insta-celebridades com a intenção de que elas sejam patrocinadas, e com isso ofereçam um endosso (muito bem pago) a determinados produtos. Bem-vindo a era da publicização da vida! Ao arrastarmos o nosso dedo pela tela do smartphone, observarmos incontáveis fotos de moças que protagonizam uma espécie de reality show fitness, e onde devemos ter a lupa muito bem ajustada para analisar qual estratégia que elas adotam. Consciente ou inconscientemente, todas essas pessoas têm uma estratégia de apropriação do Instagram. Assim como nós, todos temos uma estratégia de uso e apropriação desse aplicativos de rede social, afinal postamos, fazemos selves, deixamos à mostras coisas que nos favorecem e sagazmente ocultamos coisas que não jogam a nosso favor. Almejamos likes e temos as nossas disputas simbólicas ali dentro. São inúmeras.

A interação social de qualquer indivíduo em nossa sociedade surge a partir dos propósitos individuais que incluem, entre outros, os interesses de poder, vaidade e riqueza, disse certa vez Georg Simmel, sociólogo alemão que morreu na década de 1910. E é exatamente o que evidenciamos em boa parte de fotos em timelines de nossas redes sociais online. Muito evidente na grande maioria de imagens que vemos, onde há fundamentalmente um processo de inscrição em imaginários do consumo que denotam elementos de sofisticação, ostentação, bens materiais exclusivos, corpos minuciosa e exaustivamente tonificados. Tudo é esteticamente calculado e tratado: os enquadramentos, os ângulos, as matizes de cores, as poses, as marcas, os rótulos. As fotos em situações clichês também não são economizadas. Nos comentários dessas “pessoas-web-contorcionistas” sempre vemos uma legião de fãs, seguidoras (na maioria, são mulheres) se inspirando e se espelhando nos dizeres e dicas.

Muito complexo viver hoje em dia, e ainda mais complexo analisar, interpretar e dizer qual a a nossa percepção sobre esses conteúdos imagéticos, discursivos, visuais e sonoros produzidos por essas atrizes-sociais. Mais que isso, ter uma visão crítica de todo esse fenômeno contemporâneo e cair em argumentos simplistas é uma armadilha muito fácil. Por isso, eu procuro me preparar para analisar um bom objeto de pesquisa como esse. Eu busco a perspectiva teórica de autores contemporâneos das áreas de comunicação e consumo para me aproximar desses objetos e buscar algum tipo de nitidez e lucidez analítica. Sim, a estratégia web-discursiva dessas moças é um objeto de pesquisa tão bom que virou tema de um artigo que publiquei em um congresso de comunicação em 2013. Para lê-lo inteiro, baixe meu último livro, ONdivíduos que está no meu site MarcosHiller.com.br/ondividuos e procure no índice. É um dos últimos textos chamado “Reality Show Fitness”.

Esse tipo de fenômeno encaixa-se hermeticamente nesse universo do turbo-capitalismo e do hiperconsumo em que estamos inevitavelmente inseridos, e onde há uma infinidade de benefícios, bem-estar material, melhor saúde, mais informação. Tudo é entregue na palma de nossa mão, de graça e sem necessidade de pagar. Essas moças excessivamente malhadas contribuem para tornar possível uma maior autonomia de suas adoradas seguidoras nas ações cotidianas e na busca do utópico corpo-perfeito, namorado-perfeito, roupas-perfeitas, viagens-perfeitas. Afinal, como disse certa vez o filósofo francês Gilles Lipovetsky, as atividades mais elementares da vida cotidiana tornam-se problemas para nós e causam interrogações perpétuas, como a alimentação. O que devo comer? Que horas? De que forma? Vivemos numa era onde o agora é a hora da desorganização das condutas alimentares, da cacofonia das referências e critérios. Trata-se não mais tanto de comer quanto de saber o que comer, de tão presos que estamos entre os estímulos gulosos e o modo de nos alimentarmos mal, de consumirmos muito açúcar, muita gordura, corantes, de nos tornarmos obesos em uma sociedade que apresenta como modelo a ditadura da magreza.

No manancial de fotos e textos que algumas pessoas publicam em suas indefectíveis timelines de Instagram, evidencia-se nas entrelinhas um discurso norteado pela camarotização das práticas cotidianas mais elementares, onde se colhe frutos da eficácia tecnológica da medicina e de uma condição sócio-econômica geralmente bem sucedida. Essas web-celebridades surgem para milhares de seguidoras em um mundo que promete satisfações incontestáveis e sempre renovadas. Mais que isso, o discurso dessas moças viciadas em condicionamento físico encaixa-se muito bem em um mundo tão depressivo, cheio de ansiedades, gerador de inquietações de toda natureza e, pela primeira vez, menos otimista quanto à qualidade de vida por vir, disse também o filósofo francês Gilles Lipovetsky em um dos seus últimos excelentes livros, “A Cultura Mundo”, que escreveu em conjunto com Jean Serroy, em 2010. As formas desse neoindividualismo centrado na primazia de si são incontestáveis. Paralelamente à autonomia subjetiva, ao hedonismo, desenvolve-se uma nova relação com o corpo: obsessão com a saúde, culto do esporte, boa forma, magreza, cuidados com a beleza, busca por likes, cirurgia estética, crítica-fobia, manifestações de uma cultura tendencialmente narcísica. São sintomas de um mal estar de nossa sociedade contemporânea. Hoje em dia, dezenas de milhões de usuárias seguem essas moças e os seus reality show fitness hiperbólicos, que extrapola o simples ato do condicionamento físico. Um discurso que vende uma forma física idealizada, e que significa uma certa qualidade de vida e insinua a conquista de felicidade.

Ao passarmos nossos olhos em busca de respostas, chego em autores que pensam o consumo, e onde vamos encontrando algumas pistas que explicam como se alicerça a estratégia de apropriação de um site de rede social pelos seus usuários. Trata-se, fundamentalmente, de uma manifestação do consumo contemporâneo, ou seja, um fenômeno da ordem da cultura, um construtor de identidades, uma bússola das relações sociais e como sistema de classificação de semelhanças e diferenças na vida contemporânea, como nos ensinou certa vez o antropólogo Everardo Rocha, um dos mais prestigiados pensadores do consumo hoje no Brasil. O professor da PUC Rio também nos ensina que o consumo assume lugar primordial como estruturador dos valores e práticas que regulam relações sociais, que constroem identidades e definem mapas culturais. Não apenas essas moças, mas qualquer um de nós, publicamos em redes sociais apenas as informações que apresentam uma imagem desejada nossa. Enquanto estamos supostamente nos mostrando, estamos apresentando uma versão muito seletiva de nós mesmos.

Camarotização da vida, culto ao corpo, vaidade online, exibicionismo digital, vida vazia, falta do que fazer, ócio criativo, defina como quiser. É tudo uma questão de entendermos não a tecnologia, mas sim entender as pessoas. Devemos enxergar toda essas insta-estratégias como um fenômeno do consumo, ou seja, uma expressão de status e capaz de construir uma estrutura de diferenças. Séries de produtos e serviços se articulam, pelo consumo, a séries de pessoas, grupos sociais, estilos de vida, gostos, perspectivas e desejos que nos envolvem a todos num permanente sistema de comunicação de poder e prestígio na vida social. Vou fazer meu shake e vou pra academia, tchau!


Fonte: Artigos Administradores / Condicionamento físico + Instagram = Qualidade de Vida = Likes = Felicidade?

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