Correr é um exercício de humildade

Correr é um exercício de humildade

E aquela imagem, daquele senhor, magrinho, correndo tortinho, me deu o ânimo de que eu necessitava para continuar…

A corrida é um dos exercícios mais democráticos que existem. Você não precisa ser sócio de um clube; não precisa gastar com equipamentos caríssimos; pode correr a qualquer hora do dia, e em qualquer lugar, bastando somente um bom par de tênis, e não necessariamente do mais caro.

Mas, para iniciar e evoluir no mundo da corrida, é preciso muita determinação, paciência e, principalmente, muita humildade.

Determinação, porque, no início, você estará forçando seu corpo a sair da zona de conforto, quando o repertório de desculpas para não sair de casa para correr é gigantesco: preguiça, chuva, frio, calor, compromissos, novela, horário, lesão, filhos, marido, esposa… Enfim, tudo vai conspirar contra essa sua ideia maluca de pôr um par de tênis e sair correndo feito um louco por aí.

Você precisa de paciência para entender que a sua evolução será lenta. Desde o aumento da velocidade até o aumento das distâncias percorridas, tudo deverá ser feito de forma lenta e gradual, para que o seu corpo se habitue a esse aumento de esforço, evitando, dessa forma, o surgimento de lesões que podem atrasar esse processo ou até mesmo obrigá-lo a desistir totalmente.

Por fim, humildade para entender que não existe idade para correr. Ou seja, numa prova, uma pessoa mais velha poderá correr bem mais rápido que você, dependendo do tempo e do volume de treino que cada um pratica.

Aconteceu comigo. A prova era a Meia Maratona do Bela Vista, na cidade de Gaspar – SC, numa manhã de domingo fria e chuvosa. Um ótimo dia para ficar na cama até mais tarde ou fazer qualquer outra coisa, exceto correr!

Já no local da largada, esperei até o último minuto para me livrar das roupas quentes e encarar aquela chuva fria. De shorts, camisa manga longa e mais uma camiseta por cima, encarei o desafio de correr os 21 km.

Sempre gostei dessa prova, que é praticamente no quintal da minha casa e sempre uma ótima oportunidade para reencontrar velhos amigos. E também por proporcionar uma excelente estrutura de apoio aos atletas, pois é organizada por um dos melhores clubes da região.

Mas, correr no frio, para mim, sempre foi um grande desafio. Minhas mãos demoram muito para aquecer, bem como meu corpo todo!

Eu já estava no sétimo quilômetro, dando o máximo de mim, quando um senhor magrinho, muito simpático, encosta no meu lado e começa a conversar.

Sempre corro ouvindo música, mas, quando alguém puxa conversa, eu imediatamente tiro um dos fones de ouvido para poder dar atenção à pessoa.

Não lembro o nome dele, era de Jaraguá do Sul – SC, e acredito que conversamos por uns cinco minutos. Ele estava bastante animado com a possibilidade de pegar pódio nessa corrida, pois tinha acabado de completar 70 anos e sua categoria mudara. Não duvidei que pegasse, pois logo o veria desaparecer da minha frente.

Pior, além da idade, ele devia ter um desvio na coluna, pois corria um pouco inclinado para o lado esquerdo.

“Humilhado”, eu até poderia ultrapassá-lo novamente, mas, conhecendo as minhas limitações, pois eu tinha recentemente incluído as meias maratonas em minha agenda, achei por bem continuar no meu ritmo. Acertei.

Logo acabei esquecendo esse episódio, pois o “velhinho” literalmente desapareceu da minha vista, da face da terra, quando, por volta do décimo oitavo quilometro, eis que o vejo à minha frente.

E aquela imagem, daquele senhor, magrinho, correndo tortinho, me deu o ânimo de que eu necessitava para continuar, pois àquela altura eu já estava bem cansado, e, por mais que a gente tente aceitar que esse tipo de situação é perfeitamente normal, nosso inconsciente não concorda assim tão facilmente.

Mesmo como ânimo renovado, tive que suar bastante para conseguir ultrapassá-lo. Não sei se ele conseguiu o pódio que buscava, mas eu posso afirmar que, para mim, ele já é um vencedor, pois, se eu chegar à sua idade, correndo com a mesma alegria e disposição, já estarei realizado.

 


Fonte: Artigos Administradores / Correr é um exercício de humildade

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