Crise brasileira ou falta de um grande sonho?

Crise brasileira ou falta de um grande sonho?

O artigo traz uma reflexão sobre a ausência de um “Sonho Brasileiro” e as consequências da falta de alinhamento de objetivos para a construção de um futuro mais positivo

Eu conheço o sonho americano[i]. Você encontra uma definição clara dele em vários lugares. Você pode não gostar, mas ele continuará lá para quem quiser compartilhar daquela visão. A  julgar pelos fatos e resultados concretos, pode não ser o melhor, mas é um bom sonho, porque a grande maioria dos indicadores de desenvolvimento econômico e social americanos é melhor que os brasileiros, começando pela renda por pessoa, expectativa de vida, desempenho escolar, sem falar em infraestrutura, etc..

O sonho macro brasileiro conhecido é o de milhões de pessoas querendo prestar concurso para se tornarem funcionários públicos e conquistarem uma aposentadoria integral, além de milhares de pessoas que sonham em entrar para o governo para “se arrumar na vida”. Pensar nisto aos 22 anos é ter um objetivo, mas está longe de ser um sonho comum que possa levar uma nação a uma posição de liderança. O mesmo vale para o sonho dos movimentos “sem” alguma coisa. Liderança pressupõe conduzir uma grande parcela da população a uma melhoria geral, vencendo seus próprios desafios, de uma forma muito ampla, e mesmo que não seja geral, possa abrigar a maioria.

Então você pode não querer um sonho parecido com o americano, não há problema em não gostar dele, mas eu pergunto então: qual é o nosso sonho como país e como nação? Eu não quero discutir se o sonho americano é bom ou ruim, eu quero saber: qual é o “Sonho Brasileiro”?

Quando se estuda a economia, tendo a oportunidade de conhecer como as coisas realmente funcionam na base dos agentes econômicos e contando com a possibilidade de observar fatos e fenômenos econômicos e políticos ao longo de décadas, não é necessário muita inteligência para constatar que vivemos paradigmas errados.

Vivemos o paradigma das coisas temporárias e fúteis, o paradigma das ideologias desconectadas da realidade, o paradigma da junção de interesses públicos com interesses privados (sempre da pior forma possível), o paradigma de achar que os outros países são melhores, ou que são nossos inimigos mortais, o paradigma de achar que riqueza só se constrói com malandragem ou ginga, enfim, são dezenas de paradigmas focando e levando as coisas para baixo, colocando o país em condição de submissão e de constante sofrimento em relação a tantos temas básicos como saúde, educação, previdência social, segurança, transportes e outros.

Nas últimas décadas a China se transformou numa potência econômica e pode estar agora passando por alguns apertos, ou ajustes. Eles são comunistas assumidos. Teoricamente defendem o maior bem para o povo, com o estado concentrando tudo. Uma parte da população ficou fora do processo de avanço, outra foi utilizada como ratos de produção. Talvez você não queira nem saber o que é ser funcionário de algumas das indústrias na China, simplesmente pelo fato de que você pode ser um prisioneiro do regime, ou de algum protegido dele. Sem direitos. Isto quer dizer que, mesmo diante de milhares de variáveis a serem consideradas numa análise mais profunda, não é o contexto ideológico específico que determina a possibilidade de crescimento de um país, nem é ele que define se a doutrina é boa ou má. É sim a determinação de um conjunto significativo de pessoas para a construção de uma nova realidade que define o rumo e confere um perfil a um país no cenário de desenvolvimento econômico.

Grandes transformações positivas aconteceram na Europa do pós-guerra, no Japão, depois na Coréia do Sul, no Vietnã e pode acontecer em qualquer lugar onde se desenhe um futuro claro, uníssono, coerente e se mantenha o equilíbrio financeiro adequado para se chegar a um lugar e poder permanecer nele por um tempo. Desenhar este futuro melhor, em formato de sonho coletivo, não é tarefa das mais fáceis. É bem mais fácil culpar os outros.

Não podemos culpar os outros, nem os Estados Unidos por sua arrogância, nem a China pelo momento cambaleante, por nossa situação. Eles possuem modelos imperfeitos e podem nos afetar, mas somos fracos porque não temos objetivos coletivos concretos e os objetivos individuais, ou de grupos muito restritos, frequentemente estão associados aos desvios que todos presenciamos há muitas décadas. Somos fracos porque não temos um sonho comum, que não viram objetivos. Sem eles ações concretas e alinhadas se tornam uma raridade. O tempo passa e os problemas continuam os mesmos, quando não piores.

O Brasil é um país pobre na concepção de suas soluções, raramente foca suas potencialidades, os governantes querem fazer tudo para todos e isto qualquer gestor razoavelmente bem formado sabe que não é possível. A simples questão de decidir entre fazer o maior bem para o maior número de pessoas, ou o menor mal para o menor número de pessoas, já coloca uma linha de raciocínio sobre situações críticas e limites que devem ser observados pelos gestores públicos nas suas decisões. As concessões e trocas feitas a diferentes grupos de poder para garantir a governabilidade sugam o potencial econômico do país. Cada grupo tem um sonho, que não se concilia com as necessidades prioritárias da grande maioria.

Então, além de desenhar um sonho concreto, os brasileiros precisam destruir os legislativos da forma como são, precisam rever a forma de controlar o orçamento público, que não através dos Tribunais de Contas, precisam operar com instrumentos claros de discussão de prioridades e de controle de gastos sobre estas prioridades. O que não falta é trabalho a ser feito, mas antes de fazer a obra é preciso saber qual  obra será feita em benefício da maioria e, eventualmente, de todos. Quando a obra é desenhada surgem inúmeras perguntas: o que, por que, quem , como, quando, onde e com quanto (conhece isto?). Sem esse desenho grandes obras viram pó e cidades viram favela.

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[i] O sonho americano pela Wikipedia  O Sonho Americano (em inglês: American Dream) é um ethos nacional dos Estados Unidos, uma variedade de ideais que liberdade inclui a oportunidade para o sucesso e prosperidade, maior mobilidades social para as famílias e crianças, alcançada através de trabalho duro em uma sociedade sem barreiras. Na definição do que é o “Sonho Americano”, por James Truslow Adams, em 1931, afirma que “a vida deveria ser melhor e mais rica e mais completa para todos, com oportunidades para todos baseado em suas habilidades ou conquistas”, independente de sua classe social ou circunstâncias do nascimento.


Fonte: Artigos Administradores / Crise brasileira ou falta de um grande sonho?

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