Desculpe, mas não é um insight que vai mudar sua vida

Desculpe, mas não é um insight que vai mudar sua vida

Grandes decisões, para gerarem grandes resultados, precisam nascer de processos – às vezes, bem longos

Epifanias são uma farsa. Muitas pessoas acreditam que são alertas momentâneos que as levarão à inovação, crises de identidade, mudanças de visão e progressos. Como se fosse assim que alguém “de repente” decide abandonar a NFL. Ou vai a público com denúncias graves. Ou propõe uma nova e ousada teoria sobre o mundo depois de passar a noite em claro.

As pessoas que pensam assim, na maioria, são aquelas que nunca encamparam uma realização dessas. E provavelmente nunca irão. Elas não tiveram que deixar um grande emprego ou abandonar muito dinheiro. Ou sequer questionaram algum ponto de vista ou instituição dominante. Sua saída criativa é próxima de nulo. Elas estão muito ocupadas em busca (ou esperando por) um “Eldorado” que não existe.

Eu entendo. Você quer ser como as pessoas que você admira – todas elas parecem ser inspiradas, ousadas, e não têm problemas em incendiar o lugar em que vivem. Eu também quis ser daquele jeito.

Mas então eu tomei de verdade algumas daquelas decisões. Eu larguei a faculdade e foi assustador. Eu decidi me expor à mídia de maneira que teria que admitir as coisas ruins que eu fiz. Eu discordei de um mentor e de um amigo e isso tem me corroído por dentro.

Então, ultimamente, estive tentando pensar sobre como isso realmente pode funcionar. Como é realmente chegar a questionar tudo e mudar sua mente ou vida? O que você precisa saber ao avançar com isso?

Em The Structure of Scientific Revolutions, Thomas Kuhn argumentou pela primeira vez que não são os flashes de genialidade que mudam o pensamento científico, mas, em vez disso, é um processo lento em que as conclusões se revelam lentamente e assim necessitam de uma nova explicação – uma mudança de paradigma, como ele mesmo chama isso.

Mas não é assim que gostamos de imaginar. Imaginamos Edward Snowden escutando seus chefes planejarem um plano maníaco de espionagem mundial e decidindo: “Eu vou acabar com esses filhos da mãe”. Na realidade, ele passou cinco anos aguardando com a informação antes de ir a público. Fazendo o quê? Provavelmente pensando, provavelmente com medo, provavelmente mudando de ideia um milhão de vezes. É sempre mais complicado – na realidade, o informante é geralmente conivente nos crimes de alguma forma ou pelo menos cego à sua severidade antes de ir adiante.

O salto “Fosbury Flop” – que mudou completamente o Salto em Altura Olímpico – não era algo que Dick Fosbury tentou fazer pela primeira vez nos jogos de 1968. Nem era algo de que ele tinha certeza. Em vez disso, ele brincava de pular e cair de lado sobre a barra, o contrário de fazê-la de obstáculo como fazia desde a escola primária – apenas obtendo resultados medianos. Ele tentou no ensino médio e foi dito que era um “atalho para a mediocridade”. Ele continuou voltando para a maneira “certa”, mas isso também não funcionou. Como sabemos agora, apesar disso – depois de ganhar sua medalha de ouro e todas as medalhas desde então – ele estava certo e sua técnica permaneceu.

Nós pensamos que O Grande Gatsby era um tiro de sniper de descobertas para a Era do Jazz e para seus participantes. Na realidade, o livro foi rejeitado e reformulado pelo editor de F. Scott Fitzgerald três vezes e só emplacou quatro anos depois da publicação.
Eu acho que o cinema e a televisão são parcialmente responsáveis por esse total equívoco sobre o mundo. Porque eles só conseguem exibir cenas. Como eles não conseguem nos levar para dentro da cabeça do personagem, começamos a pensar que é assim que nossa vida deve ser. Eu penso naquela cena do filme O curioso caso de Benjamin Button em que Brad Pitt foge sem dizer nada numa manhã e nunca retorna porque não quer colocar o peso sobre sua mulher e sua família.

Tá ok, como se eles tivessem brigado por meses e não soubessem por quê. Como se eles não tivessem abordado o tópico ou discutido alternativas. Como se o término tivesse ficado decidido logo da primeira vez. E ele não estaria destruído por dentro e feito um monte de coisas estúpidas para lidar com isso. Mas como espectadores tudo que é deixado para nós é a atuação, a montagem de cena e a última reinvidicação, mas não o processo que precede e sucede isso.

Isso é traiçoeiro porque intimida estreantes e os medrosos. Porque acreditamos que deve ter sido claro para outras pessoas, e mesmo assim parece tão opaco para nós, nos convencemos a não nos arriscarmos. Duvidamos de nós mesmos porque somos afastados do aspecto humano da experiência e da vulnerabilidade que está realmente lá.

Quando eu escrevi meu primeiro livro, que foi colocado como autobriográfico, cada repórter que vinha a mim perguntava quando eu percebi o que eu queria fazer. Eles diziam: “Qual foi a coisa que pediram para fazer e da qual você se arrependeu e resolveu mudar tudo?”.
A realidade é que “essa coisa” nunca existiu. É um maldito processo. Um que ironicamente ainda nem começou a parecer fazer sentido até chegar no processo de escrever e publicar o processo. Porque é assim que as pessoas são. Elas agem antes de estar totalmente prontas e descobrem as coisas com o andar as coisas. Mas eu tenho que dizer algo para as pessoas – assim eu posso lhes dar uma resposta.

Largar a faculdade foi a mesma coisa. Foi algo que eu passei um tempo considerando, claro. Então recebi uma oferta. Decidi não aceitá-la. Depois decidi que valia o risco. Mas um ano depois eu considerei seriamente voltar. Apesar de que minha biografia – minha narrativa – faz parecer que eu sabia de tudo quando tinha 19 anos. (Na verdade, eu completei 20 anos durante os meses em que tudo isso acontecia). Não é verdade, mas isso não ajuda outro jovem de 19 anos na batalha sobre largar a faculdade ou não.
Então se você está encarando uma decisão que mudará sua vida exatamente agora, você precisa entender isso. Isso sempre será impenetrável. Não haverá clareza. Nem antes, nem durante, nem até bem, bem depois.

Veja: Thomas Kuhn disse outra coisa muito sábia e adequada aqui. Quando um novo paradigma surge, ele disse, se torna quase impossível para as pessoas nascidas nesse paradigma entenderem a lógica do sistema que veio antes delas. Como Kuhn chama, incomensurabilidade separa um paradigma do outro que o precede.
Nós dificilmente podemos reconhecer o mundo em que costumávamos viver, e se era isso que nos fazia pensar do modo que pensávamos. Porque agora as coisas são radicalmente diferentes.

Seria ótimo se isso fosse um puro rompimento, mas não é. É como uma guerra civil interna – uma hora haverá um vencedor evidente, mas isso não vai aparentar durante o acontecimento. Leva um tempo para que tudo seja resolvido.

O que eu quero dizer é isso: abrace o período de limbo. Arrisque-se. Duvide das coisas. Não espere a certeza para agir… Porque ela não está chegando. Ela nunca está.

Artigo originalmente publicado no blog do autor e gentilmente cedido ao Administradores.com.


Fonte: Artigos Administradores / Desculpe, mas não é um insight que vai mudar sua vida

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