Em que o rebaixamento da nota de crédito do Brasil nos afeta?

Em que o rebaixamento da nota de crédito do Brasil nos afeta?

Você sabia que o rebaixamento da nota de crédito pode afetar diretamente o seu bolso? Confira

“Eu não como nota de crédito”. Essa foi a afirmação mais repetida pelos defensores do Governo em relação ao rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela agência de classificação de risco Standart & Poor’s, em analogia ao fato de que o rebaixamento não afetará no custo de alimentação das famílias Brasileiras. Contudo, sinto informa-los, mas nós comemos nota de crédito, e muito!

As agências de classificação de risco existem para nortear os investidores sobre os riscos dos ativos soberanos. Em outras palavras, são as agências que dizem aos investidores se comprar títulos de determinado país é seguro, no sentido de avaliar se os Governos tem capacidade de honrar seus compromissos e não dar calote. Quanto melhor estiver a capacidade de pagamentos do Governo e expectativa de a economia gerar resultados (fonte de renda do Governo), ou seja, quanto mais saudáveis forem suas contas, maior será sua nota de crédito, e, quanto pior estiver sua situação fiscal, pior será tal nota. 

Recentemente, o Governo anunciou que não conseguirá arcar com o superávit primário, e mais, fechará em déficit em 2015 e 2016. Os mercados que olhavam para o Brasil tencionaram-se ainda mais, tornando o rebaixamento de nossa nota de crédito algo quase que certo.

Nosso país, até então, era o único no globo terrestre que apresentava nota de crédito à nível de investimento pagando juros de crédito especulativo, quase um paraíso para o capital não produtivo, aquele que pode sair a qualquer momento, “sem dar tchau”, e isso porque temos problemas de produtividade crônico tal como uma impressionante irresponsabilidade pública, somado a políticas de cunho consumistas e insustentáveis. Uma bela receita para o fracasso.

Ontem foi anunciado pela agência o rebaixamento da nota de BBB- (ultimo nível de investimento) para BB+ (primeiro nível de especulação). Significa dizer que as agências estão alertando os investidores que não tem certeza de que o Brasil terá capacidade de pagar o prometido, ou, em outras palavras, que investir no Brasil é especular, podendo ter alto retorno, é verdade, mas se expondo a um risco grande de não receber. Imagine que um amigo lhe peça um dinheiro emprestado, mas sua fama no bairro vem caindo concomitantemente e as pessoas o veem como um mau pagador. Provavelmente você não emprestaria dinheiro para esse cara, mas vamos supor que você detivesse de um dinheiro extra e resolvesse emprestar a ele. Como há um grande risco de ele não pagar, você cobraria um retorno bem alto por este dinheiro, ou seja, só emprestaria se lhe valesse muito a pena, se você fosse ganhar bastante dinheiro, certo?

Esse fato leva a algumas consequências indesejáveis. Inevitavelmente, dinheiro sairá do país devido a investidores que fugirão do risco de calote tal como fundos de pensões e de investimentos aplicados no Brasil que exigem um nível mínimo de segurança, entre outros. De imediato, o dólar irá disparar, inibindo ainda mais o poder de importação e pressionando a inflação, que afeta principalmente os mais pobres, uma vez que consomem maior parte de sua renda, enquanto os mais abastados se aproveitam do alto retorno que o juro elevado lhe conceberá. Além disso, o financiamento do Estado Brasileiro se tornará mais caro, e isso porque tomar crédito no exterior terá um custo maior, uma vez que os bancos cobrarão juros mais altos para se colocarem nesta situação de maior risco, como também acarretará em aumento do “prêmio pelo risco” (exigência de retorno dos investidores acerca do risco que correm por comprar aquele ativo) que o Brasil terá de pagar para vender títulos públicos.

Aumentando o custo de rolamento da dívida, uma parte maior do orçamento público será destinado ao serviço da dívida, leia-se serviço pelo custo de “rolar a dívida”,ou seja, pagar juros aos investidores dos títulos vincendos daquele mês ou ano (pós fixados), e não saná-la, efetivamente. Assim, uma fatia menor do orçamento será destinado à gastos com a população. Como muito dos gastos são rígidos, além de as contas do Governo estarem deterioradas, o Governo certamente recorrerá a um aumento maior de impostos, e como estes são regressivos no Brasil, afetará a mesa do mais pobre. Além disso, se as exportações não forem suficientes para recompor o volume de reservas perdidos com essa fuga, levando em conta que o Governo do PT adotou a medida de endividamento público líquido para demonstrar a solidez do endividamento público (Endividamento bruto – reservas em dólar), terão de aumentar, ainda mais, o volume de títulos vendidos no exterior a fim de “manter as aparências” e não gerar mais pânico. Enquanto isso o endividamento bruto segue se elevando e o custo para as próximas gerações se torna cada vez maior.

Parece-me que, não só comemos nota de crédito, como a tal vem descendo de forma bastante indigesta.


Fonte: Artigos Administradores / Em que o rebaixamento da nota de crédito do Brasil nos afeta?

Os comentários estão fechados.