Em que tempo você vive, presente ou futuro?

Em que tempo você vive, presente ou futuro?

Depois de ler uma reportagem sobre pessoas que haviam perdido tudo o que tinham em negócios mal sucedidos, ele resolveu apostar mais no hoje que no amanhã.

Acompanhando suas postagens nas redes sociais, percebi que um amigo estava gastando acima do seu padrão usual. Muitas viagens, reforma na casa e outras extravagâncias. Conheço-o há muito tempo, sei que é um bom profissional, bem remunerado, mas normalmente comedido nos gastos. Por isso estranhei seus, digamos, “pequenos exageros”.

Coincidentemente encontrei-o em um evento. Depois das conversas iniciais e superficiais, tomei a liberdade de perguntar sobre aqueles novos hábitos. Sua resposta me surpreendeu ainda mais.

Disse-me que havia comprado um carro novo por 60 mil reais. Retirou-o da concessionária na 4ª feira à tarde, programando fazer emplacamento, seguro e som na 5ª logo cedo. Ele e a esposa resolveram comemorar a aquisição e foram jantar fora. Na saída do restaurante, o susto que logo virou desespero: haviam furtado seu carro novo. Que prejuízo!

Minha reação foi um mix de emoções: senti pena do amigo pelo azar, critiquei-o internamente pela imprudência e, mais que tudo, não consegui entender a lógica entre este episódio do furto e a explicação prometida pelos gastos excessivos.

Antes que eu pudesse falar alguma coisa, ele disse: “Isso podia ter acontecido, né? Mas felizmente não aconteceu. Nem comprei o carro.” E finalmente me explicou sua métrica tão particular. Trabalhou a vida inteira e, nesta trajetória, experimentou muita coisa boa, sem exageros. Em um determinado momento percebeu-se felizardo pois, durante seus quase 50 anos, nada de muito ruim havia acontecido com ele. Os ganhos haviam superado as perdas.

Depois de ler uma reportagem sobre pessoas que haviam perdido a poupança de uma vida inteira em negócios mal sucedidos justamente na semana da morte de um colega de trabalho vítima de infarto fulminante, ele resolveu que era hora de pensar mais no hoje que no amanhã. E despediu-se de mim com uma frase enigmática: “Hoje eu sei que existe. E se não houver o amanhã?”

Fiquei vários dias pensando nesta conversa. Meu amigo encontrou-se no desejo e no direito de transgredir, de ousar, de surpreender. Mas o fez de forma refletida e calculada. Percebeu que a vida acontece agora e é no “carpe diem” que está a nossa felicidade. Sem ser irresponsável ou leviano, ousou. Interpretou, do seu jeito, a divertida frase do escritor Ruy Castro: “Não me incomodo que as pessoas pensem que há vida depois da morte. O difícil é convencer algumas que também há vida antes da morte.”

Não escrevo para julgá-lo mas para refletirmos juntos sobre as importantes decisões que tomamos em nossas vidas.


Fonte: Artigos Administradores / Em que tempo você vive, presente ou futuro?

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