Escrita surda: desafios e possibilidades ao professor de língua portuguesa

Escrita surda: desafios e possibilidades ao professor de língua portuguesa

O ensino da escrita para surdos constitui um grande desafio ao professor de língua portuguesa, uma vez que tais alunos são falantes de uma língua que acontece apenas na modalidade sinalizada e não possui correspondente escrita

Em seu último censo sobre pessoas com deficiência, o IBGE apontou que há no Brasil, cerca de 9,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva, sendo que dois milhões destas se declararam surdas, ou seja, possuem perda auditiva severa e se comunicam por meio da Língua Brasileira de Sinais, a Libras. Tal número expressa as grandes chances que todos os professores têm de receber ao menos um aluno desse grupo em sua sala de aula, e nos coloca a questão: será que sabemos o quanto estamos preparados (ou não) para ensinar um aluno que não compartilha da mesma modalidade de língua que nós?

Este artigo convida professores ouvintes a embarcarem no silencioso universo dos surdos, por meio da compreensão da língua brasileira de sinais e do modo singular com que esses alunos se relacionam com a escrita.

Nosso ponto de partida é a desmistificação da ideia de universalidade da língua de sinais ainda bastante presente entre os ouvintes. Afinal, ao observar duas pessoas surdas conversando é comum que se fique com a impressão de que estão fazendo mímica ou gestos que não somos capazes de compreender, apenas por conta da rapidez com que são executados. Entretanto, essa é uma impressão errônea, uma vez que cada país conta sua própria língua de sinais, que reflete a identidade cultural de seus falantes e passa por variações linguísticas regionais, históricas, sociais e culturais, assim como qualquer outra língua.

Os surdos brasileiros são falantes da língua brasileira de sinais, a Libras, oficialmente reconhecida no ano de 2002, pela Lei 10.436. Com forte influência da língua de sinais francesa, a Libras possui estrutura gramatical e semântica completamente independentes do português e é constituída por sinais icônicos e arbitrários, que são realizados respeitando cinco parâmetros, a saber: 1) Configuração de Mãos; 2) Ponto de Articulação; 3) Expressão Facial; 4) Movimento; 5) Orientação.

São os parâmetros que diferenciam a Libras dos gestos, pois eles regem a realização dos sinais, que correspondem às palavras nas línguas orais. Deste modo, entendemos que realizar um sinal é uma atividade bastante complexa, afinal é preciso se atentar aos cinco parâmetros, sendo que todos acontecem de modo simultâneo, sendo esta, uma das características que difere a Libras do português: a simultaneidade da língua.

Como consequência da visualidade dessa língua, não existem nela artigos, preposições ou conjunções, pois não se fazem necessários. A conjugação verbal, assim como as flexões de gênero, número e grau também figuram de modo muito diferente das línguas orais. O plural, por exemplo, pode ser marcado pela repetição do sinal, se quero dizer que em São Paulo há muitos prédios, em Libras posso dizer: “São Paulo prédio, prédio, prédio, prédio”.

Diante desse cenário, passamos a compreender que, quando um surdo escreve, ele precisa organizar-se de um modo absolutamente diferente do qual está habituado em sua língua materna, pois precisará lidar com elementos que não fazem sentido para ele, como é o caso da própria estrutura frasal do português.

Se para nós, ouvintes, que temos a referência visual parece difícil construir uma frase em Libras, imaginemos o tamanho da dificuldade que um surdo pode enfrentar para escrever em português, sem a referência oral auditiva, ponto chave da língua portuguesa.

Contudo, tais dificuldades nem sempre foram compreendidas e, por muito tempo, acreditou-se que os sinais eram insuficientes para expressar todos os conceitos e, por isso, era recorrente o pensamento de que os surdos tinham dificuldade em aprender, o que constituiu um grande equívoco, já que a Libras é uma língua completa, que se diferencia das línguas orais apenas por sua modalidade.

Nesse sentido, compreender a questão do repertório linguístico se torna fundamental no trabalho de professores de surdos. Diferente dos alunos ouvintes, que adquirem a língua materna de modo natural, por serem expostos a ela desde o seu nascimento, os alunos surdos dificilmente têm a oportunidade do contato com a língua de sinais quando bebês. Segundo Wrigley (1996) menos de 10% das crianças surdas possuem um familiar surdo, em geral esse contato se dá na escola ou em centros de saúde.

Neste cenário, podemos afirmar que parte significativa das dificuldades de leitura e escrita encontradas pelos surdos, tem origem no desconhecimento de palavras e expressões da língua portuguesa, já que grande parte dessas expressões são aprendidas “de ouvido”. Dificilmente paramos para pensar nisso, mas você se lembra de alguém ter explicado para você a expressão “estou morto de cansaço”? Provavelmente, você a aprendeu por ter ouvido alguém dizer isso após chegar do trabalho ou fazer uma faxina. E a palavra bater? Com certeza você a percebeu em diferentes contextos e atribuiu variados significados a ela, pois ouviu que o vizinho bateu na porta, que bateu saudade da sua avó, que sua mãe bateria um bolo para o café e, quem sabe que, se você desobedecesse seus pais, eles bateriam em você. Na Libras, há um sinal diferente para cada um desses significados e, ao ler a palavra escrita, talvez o surdo não identifique tão rapidamente qual o significado mais adequado ao contexto.

Deste modo, quando nos deparamos com a produção textual de um surdo, é fundamental considerarmos todo o trabalho e esforço necessários para organizar todas as ideias – que estão em forma de imagens – traduzindo cada uma delas em palavras e as organizando dentro de uma estrutura que não é visual, utilizando elementos de ligação que sua língua dispensa.

Neste cenário, a escrita surda convoca o professor a reinventar-se, a colocar-se no campo visual do aluno com uma responsabilidade diferente. Assim, apontar uma palavra no caderno, deixa de ser um complemento à fala e passa a ser ela própria, o gesto de positivo ou negativo ganha peso de palavra, a expressão facial passa a ser consciente. Quando um aluno surdo apresenta uma tarefa finalizada ao professor e o olha aguardando uma resposta, ele convoca também corpo do professor ao trabalho.

Sabemos que escrever não é uma tarefa das mais fáceis, pois foge ao princípio do prazer, nos tirando da famosa “zona de conforto”. Afinal, escrever é pensar, organizar as ideias, estruturar o texto e, ainda, se expor ao julgamento do leitor. Se escrever em sua língua materna é um desafio, escrever em uma língua cheia de segredos e repleta da ausência de sentidos pode ser uma experiência terrível.  

Deste modo, é importante que o professor apresente ao aluno surdo a língua portuguesa em suas mais diversas formas, que questione as estruturas junto com o aluno, monte e desmonte palavras, transforme imagens em textos, textos em apresentações artísticas, apresentações artísticas em aulas de gramática, aulas de gramática em filmes, enfim!

É preciso construir sentido, abrir espaço para a criatividade, transformar a dúvida em experiência, dar ao aluno o posto de protagonista, compreendendo sua subjetividade e vivendo um ensino de escrita que seja verdadeiro.

REFERÊNCIAS

  1. Lei 10.436 de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira  de Sinais – Libras, e o artigo 18 da Lei n. 10.098, de 19 de dezembro de 2000.  Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10436.htm>. Acesso em: 12 ago. 2011.

BERNARDINO, E. L. Absurdo ou Lógica? Os surdos e sua produção linguística. Belo Horizonte: Profetizando Vida, 2000.

BRITO, L.F. Por uma gramática da língua de sinais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995.

STROBEL, K. L.; FERNANDES, S. Aspectos Linguísticos da Libras: Língua Brasileira de Sinais. Secretaria de Estado da Educação, Superintendência de Educação, Departamento de Educação Especial. Curitiba: 1998.

WRIGLEY, O. The Politics of Deafness. Washington, DC: Gallaudet University Press, 1996.


Fonte: Artigos Administradores / Escrita surda: desafios e possibilidades ao professor de língua portuguesa

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