Eu admiro a minha chefe mas não quero a vida dela

Eu admiro a minha chefe mas não quero a vida dela

O modelo do chefe workaholic, sem tempo para nada, que só sabe falar de trabalho (inclusive durante o almoço e conversas informais), está ficando démodé. Cobranças descabidas, mau humor no trabalho, e-mails aos finais de semana ou pelas madrugadas incomodam

Hoje em dia é comum que pessoas que estão celebrando seus aniversários de 30 anos ouçam a seguinte frase: “Os 30 são os novos 20”. Ou “Os 30 são os novos 20, só que com mais dinheiro”.

Esta frase aponta que a entrada na era balzaquiana não é mais sinônimo de estar ficando mais velho. Quando Honoré de Balzac escreveu o romance A mulher de 30 anos, que originou o termo “balzaquiana” para designar mulheres mais maduras, em 1832, provavelmente não imaginava que, ao descrever a situação de Julie e seus problemas com a vida sentimental, amorosa e o fracasso do casamento, possivelmente estava sendo um precursor de questões dessa faixa etária, desse período da vida.  A diferença daquela época – mais de 180 anos atrás, era que, aos 30 anos, as pessoas já estavam no fim da vida e eram tidas como velhas.

Hoje, são consideradas jovens as pessoas de até 29 anos. Segundo relatório da OIT (Organização Internacional do Trabalho), a política nacional para a juventude definiu que a faixa etária para sua atuação vai dos 15 aos 29 anos.

Mudanças no mundo no séc. XXI, configuradas pela chamada Era do Conhecimento, têm influenciado a forma de as pessoas pensarem e se relacionarem em muitos âmbitos, inclusive com a carreira e questões profissionais. O avanço da tecnologia, a necessidade de altos investimentos na formação para garantir a empregabilidade, a globalização, a imprevisibilidade, o cenário de instabilidade e incertezas facilitam a compreensão de questionamentos relacionados aos seus esforços e recompensas.

Há alguns anos, era comum que pessoas com graduação tivessem a garantia de um emprego, e o caminho era muito natural. Era normal que o reconhecimento, o crescimento e o desenvolvimento viessem com o tempo cronológico de trabalho e dedicação, em uma organização. As mudanças na forma de gestão das empresas possibilitam hoje um crescimento mais rápido. O reconhecimento passou a ser feito por entrega de resultado e não por tempo de empresa.

De fato, o cenário social se modificou e novos contornos, resultantes das transformações da pós-modernidade estão se formando. Essas transformações impactaram na forma como as pessoas se relacionam com a família, com o trabalho, com as escolhas e com as suas carreiras. As constantes transformações e mudanças fazem com que as pessoas não criem uma relação de confiança entre si e com instituições, porque é muito difícil pensar no longo prazo. Por esse mecanismo, as pessoas acabam pensando mais nos ganhos imediatos, ao fazerem suas escolhas.

Motivada por essas mudanças e o aumento da busca pela Orientação de Carreira por profissionais entre 28 e 35 anos, realizei entrevistas ao longo dos últimos 3 anos para fazer um levantamento acadêmico sobre as questões de carreira na atualidade. Um aspecto que me chamou atenção foi a falta de admiração das pessoas que atuam no mercado há mais tempo e seus chefes diretos. A maioria dos participantes não conseguiu falar sobre uma referência profissional positiva.  Uma frase que me chamou a atenção que foi repetida algumas vezes foi: “Eu admiro o meu (minha) chefe. Mas não quero ter a vida dele (a)”. Os motivos da não admiração estão relacionados principalmente com a carga horária muito puxada e a falta de tempo para lazer, amizades e família.

O modelo do chefe workaholic, sem tempo para nada, que só sabe falar de trabalho (inclusive durante o almoço e conversas informais), está ficando démodé.  Cobranças descabidas, mau humor no trabalho, e-mails aos finais de semana ou pelas madrugadas incomodam. Dizem os participantes da pesquisa, que têm entre 29 e 33 anos, que não querem ser amigos dos chefes, mas gostariam de ter uma relação mais próxima com eles. Acham que têm o que aprender tecnicamente e admiram sua dedicação à carreira, mas ao mesmo tempo, mostram-se dispostos a abrir mão de cargos, altos salários e benefícios se este o preço for ter que abrir mão de suas vidas. Existe um forte sentido de família nesta geração que em breve estará ocupando os postos mais altos das organizações. E como será?

Com o passar do tempo, existirão menos referências externas para que as pessoas possam se guiar e verificar seu sucesso na carreira. Caso esteja buscando inspiração, olhe para dentro se si, sonde os seus valores e diga “oi” para novas formas de se relacionar com a carreira e com o trabalho. Este não é um movimento passivo. Se o modelo precisa mudar para não colapsar, é preciso um movimento ativo e constante de reflexão, mudança, questionamento e ação. Quem vem?


Fonte: Artigos Administradores / Eu admiro a minha chefe mas não quero a vida dela

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