Fui demitido e me senti velho!

Fui demitido e me senti velho!

Esta é a história do Eustáquio, um brasileiro que, assim como muitos outros, está enfrentando e superando o desafio de ficar desempregado depois dos 50 anos.

“A maior glória do homem não reside no fato de nunca cair, mas sim em levantar-se sempre depois de cada queda. ” Oliver Goldsmith

Meu nome é Eustáquio. Tenho 52 anos, sou casado e pai de 4 filhos. Sou graduado em Administração de Empresas e estou cursando minha quarta pós graduação. No início de 2009 fui convidado para trabalhar como consultor em uma das maiores empresas petroquímicas de nosso pais. O convite partiu de um dos diretores da empresa que queria que eu fizesse parte do seu Staff, respondendo diretamente a ele. Fiquei responsável pela área de gestão da diretoria. Planejamento estratégico, tático e operacional era o meu dia-a-dia. Analisava, junto com a minha equipe, os processos, estabelecia padrões, benchmarking, metas e objetivos estratégicos, indicadores, planos de ação, interagia com os stakeholders etc.

Eu adorava aquilo tudo. A pressão, a correria e a dinâmica diária das coisas. Tudo me parecia muito bom. Minha carreira ia de vento em popa e em franca ascensão. Aproveitei para me especializar mais. Fiz cursos, MBA e iniciei meu mestrado. Cuidei da saúde, voltei para academia, comprei um apartamento novo, comprei a caminhonete dos meus sonhos e fiz planos, muitos planos. Enfim, eu me sentia no centro das coisas e cheio de expectativas em relação ao futuro.

Até que a tragédia me sobreveio…

Com a brusca queda do preço do barril do petróleo no mercado internacional, toda a indústria petroquímica entrou em uma profunda recessão. A cadeia produtiva foi seriamente abalada. A princípio pensou-se ser uma situação sazonal, mas logo ficou claro que a crise veio para ficar. A indústria petrolifera começou a ruir sobre nossas cabeças. A fartura secou.

As empresas, no desespero de se reposicionarem o mais rapidamente possível diante deste quadro recessivo, demitiu aos milhares. Centenas de milhares de pessoas foram demitidas.

O diretor com quem eu trabalhava sempre teve uma visão diferenciada e arrojada em relação a diretoria colegiada, que era bem mais conservadora. Ele, contrariando a tudo e a todos, propôs investimentos e não retração. Ele entendia que a empresa deveria ocupar posições nos mercados antes inatingíveis, para que quando a crise acabasse estivéssemos melhor posicionados. Foi voto vencido.

Nesta esfera de poder existem muitas vaidades e ao longo dos 10 anos em que esteve à frente da diretoria, suas ideias inovadoras produziram muitos resultados financeiros para a empresa, porém despertaram o ciúme e a inveja de alguns que se tornaram seus inimigos. Houve uma forte campanha contra ele junto ao conselho administrativo da empresa. Ele foi convidado a renunciar ao cargo. O mercado se movimentou rapidamente e um grande banco lhe ofereceu uma proposta muito interessante e ele aceitou. Com sua saída, os olhos dos seus inimigos se voltaram contra aqueles que apoiaram sua gestão. Em uma atitude irracional, quase toda a equipe da diretoria foi demitida. A desculpa foi que a crise no mercado de petróleo exigia medidas drásticas. Sob esta efígie, dezenas de colaboradores foram dispensados, sem o devido critério meritocrático.

Eu fui demitido…

Pela primeira vez na minha vida, fui demitido…nunca passei por esta situação antes. Já mudei de empresa algumas vezes, mas foi sempre por vontade própria, de forma negociada e para ocupar posições melhores. Desta vez foi diferente. Fui demitido sumariamente, sem qualquer preparo prévio.

Confesso que eu não estava preparado…

Alguns meses antes eu havia concretizado a compra de um novo apartamento e isto consumiu minhas reservas, inclusive meu FGTS. Nunca fui bom em guardar dinheiro, confesso. Investi em meus quatro filhos, formei eles nas melhores faculdades do país, custeei a pós-graduação de cada um deles e os inseri no mercado em uma posição bastante confortável. Todos estão trabalhando em grandes empresas, com ótimas perspectivas de futuro. Este foi meu grande investimento. Fiz um plano de previdência privada e contribuo há anos com 10% de tudo que ganho com o objetivo de complementar minha aposentadoria, para não depender exclusivamente da previdência pública. Isto foi o máximo que consegui.

Confesso também que nunca nutri preocupações em relação ao meu futuro profissional. Me especializei na indústria do petróleo e durante décadas ela me sustentou e me garantiu um determinado padrão de vida que foi melhorando a medida que a indústria petrolífera prosperava. Eu me sentia seguro e confortável nesta posição.

Não me passou pela cabeça que em um espaço curtíssimo de tempo o preço do petróleo despencaria de forma tão significativa. Em junho de 2014, o barril tipo Brent era negociado a US$ 115. Desde janeiro de 2015, a commodity vem sendo negociada abaixo de US$ 50, terminando o ano de 2015 cotada a US$ 37 o barril.

Sempre fui bom com relacionamentos, busquei manter um bom networking, porém a imensa maioria dos meus amigos e contatos estavam em situação igual ou semelhante a minha, pois, ou faziam parte da cadeia produtiva do petróleo ou gravitavam em torno dela. Portanto, não podiam me ajudar.

O otimismo, antes pungente, deu lugar a um pessimismo dominante. Não conseguia mais ver luz no fim do túnel. Me senti injustiçado e vitimado. Perdi a alegria e a vontade de viver. Não dormia bem e não comia direito. Me revoltei contra a minha própria situação.

Senti-me doente emocionalmente, entrei em depressão…

A doença emocional se somatizou e eu fiquei doente fisicamente. Tive várias enfermidades. A minha situação foi piorando dia após dia.

Meus antigos amigos, seja por falta de compreensão dos fatos que me aconteciam, seja pela impossibilidade de ajudar ou por desinteresse, me deixaram só…

Eu, que antes estava cheio de planos, aos poucos fui me tornando um ser triste, abatido e amargurado.

Nunca havia procurado emprego, não sabia como fazê-lo.Sentia-me envergonhado em pedir ajuda. Nunca precisei.

A indústria do petróleo parou de contratar e quando fui buscar oportunidades em outras áreas, vi que eu estava completamente despreparado para competir nelas. Os salários eram muito abaixo da minha última remuneração e muitas as exigências. Eu mal falo inglês e queriam que eu tivesse, além do inglês, fluência em espanhol, mandarim ou francês.

As frustrações emocionais, somadas às debilidades físicas produzidas por um emocional abalado e acrescida de uma sensação de impotência diante dos desafios exigidos, me fizeram sentir que eu estava velho…

Apesar de ter hoje 52 anos, nunca havia me sentido velho…

Naquele momento me senti velho, ultrapassado e sem perspectiva…

Cheguei ao fundo do meu inferno astral…

Foi ai que eu acordei do meu transe de autocomiseração…

Dizem que quando você não tem mais o que afundar, só lhe resta recomeçar a subida. E foi isto fiz.

Não fiz isto sozinho, não. Algumas pessoas, neste momento difícil, foram muito importantes para mim. A primeira delas foi Deus…alguém pode até achar que falar com Deus em horas como esta faz parte do delírio humano em busca de alento e conforto, porém, eu, quando me sentia sozinho dentro do buraco onde eu me meti, sem forças físicas ou emocionais para sair, contei com a ajuda dele e ele nunca me abandonou. Obrigado Deus! Outra pessoa que me ajudou foi minha mãe. Isto mesmo, minha mãe. Ela é uma senhora de 70 anos, mas se revelou uma grande guerreira e esteve ao meu lado me dando incentivo, compartilhando suas experiências e cuidando de mim. Por ser uma profissional oriunda da área de saúde, ela me ajudou tanto em relação as minhas doenças emocionais como também com as minhas doenças físicas com raízes emocionais. E a última que quero reverenciar é a minha esposa. Ela nunca esmoreceu e sempre esteve ao meu lado. Meu deu forças, uniu minha família, economizou o máximo que podia e sempre disse que o nosso casamento e a nossa família eram maiores que qualquer emprego ou dinheiro.

Hoje estou me recuperando…

Através do LinkedIn fiz contatos e consegui minha recolocação no mercado. É verdade que por um salário bem menor, porém, em uma nova atividade que está se despontando como muito interessante. Mudei minha carreira, tive que aprender novas coisas, descobrir novos conceitos e colocar em práticas alguns conceitos que são universais, como humildade, amizade, cordialidade e respeito.

Já não me sinto velho. Resolvi adiar a decisão de ficar velho por mais 20 anos, no mínimo.

Em paralelo, iniciei um MBA de coaching, buscando transformar minhas experiências profissionais em palestras e treinamentos que ajudem outras pessoas a se qualificarem melhor e serem mais felizes naquilo que fazem. Está difícil pagar o MBA, a grana está muito curta. Porém, tenho aprendido a planejar o futuro, vivendo um dia de cada vez.

Atualmente tenho menos atribuições, sofro menos pressões, tenho mais tempo para Deus, para minha mãe, esposa e filhos. Tem sido muito bom.

Não virei monge e continuo com as minhas boas ambições. Quero voltar a me posicionar melhor no mercado e resgatar a renda que eu tinha, porém, aprendi muito com esta crise. Não sou mais a mesma pessoa.

Agora sei, mais do que nunca, que não há garantias, vivemos em um mundo de inseguranças, incertezas, mudanças e medos. Porém, podemos tirar vantagens disto tudo e transformar cada uma de nossas quedas em um novo passo de dança e com isto aumentar o nosso repertório, nos tornando cada vez mais qualificados e, portanto, mais valiosos.

Desejo a todos que estão passando por situações que nem a minha:

Coragem para enfrentar os desafios;

Coragem para mudar o que precisa ser mudado;

Coragem para aprender o que precisa ser aprendido;

Coragem para esperar o tempo necessário a este processo de readaptação.

 


Fonte: Artigos Administradores / Fui demitido e me senti velho!

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