Malandro é malandro

Malandro é malandro

Nós temos muito o que mudar como sociedade antes de querermos bater o pé contra o que acontece em Brasília. Nosso “poder do voto” se tornou uma grande falácia, pois não sabemos usar. É uma arma que usamos para suicídio.

O Brasil é um país engraçado e controverso. Ri de si mesmo, até na própria desgraça. E não como os mexicanos que festejam nos funerais, mas de um modo absurdamente prejudicial a si mesmo.

Brasileiro, quando joga a seleção é assim, se o governo é de outro partido que não o do torcedor, torce contra. Se uma obra grande é anunciada, e o governo ainda é contrário aos seus interesses, torce contra. Conta os dias para sair uma manchete dando conta de que a obra ruiu, a empresa faliu, o recurso sumiu. E como isso acontece por aqui! Brasil-sil-sil-sil

Tim Maia já havia dito que nosso país e estranho: “O Brasil é o único país em que além de p*t* gozar, cafetão sentir ciúmes e traficante ser viciado, o pobre é de direita”. Paradoxal esse país.

O problema não é só rir de si mesmo, o que ás vezes é até bom, mas sim fazer chacota. É torcer pelo pior. O ponto é que brasileiro pensa que o que acontece no poder público não é com ele. Políticos são todos corruptos, dizemos, mas as nossas próprias corrupções não nos fazem corruptos. Nos fazem malandros. E malandragem é um aspecto positivo na cultura chovinista dos patrícios.

Aqui vemos um presidente da Câmara, acusado e investigado em diversos crimes, alguns contra a pátria, ser um herói temporário da nação, então ele sai de cena e quem assume seu lugar desfaz – no canetaço – o processo de impeachment começado pelo herói, e depois, por forças do além que nunca saberemos de onde vieram – ou saberemos? – o deputado convicto de sua contrariedade se contradiz e volta atrás. Nem dá pra imaginar qualquer tipo de pressão. E está anulada a anulação. Aliás, que sistema porco é esse em que uma votação parlamentar é desfeita no grito? Só pode virar meme no Facebook, mesmo.

As pessoas reagem a isso, não com sentimento de quem percebe que há algo sinistro onde os homens exercem seus podres poderes, parafraseando Caetano, mas com suas opiniões divididas entre os “petralhas” e os “coxinhas”, afinal, até posição política vira piada na Brazucalândia. Ou se acha que o Maranhão está certo de recuar ou se acha que ele está errado, conforme a pessoa seja de esquerda ou de direita, governista ou oposicionista, não por razões técnicas e coerentes. Para o “coxinha”, se um juiz dá ganho de causa pro governo, é indicado pelo presidente, por isso sua opinião é viciada, se dá ganho contra o governo é um homem equilibrado e da lei. Para o “petralha” o argumento é inverso. Santa hipocrisia.

Aqui achamos um absurdo gastar verba pública com pobre, mas fechamos os olhos para auxílios a juízes e empresários, que consomem valores muito maiores que outras políticas sociais. Defendemos o engravatado e adulamos o coronel, enquanto desprezamos o favelado, o colono e o sertanejo. Somos um país de muito bom humor – humor negro.

Os estudiosos, os intelectuais, os afortunados, ao invés de focarem nos problemas do país e tentarem mudar os rumos da nação, procuram sempre por uma nova oportunidade no exterior. Os que só querem viver suas vidas, procuram Miami. O Brasil? Ah, o Brasil que se dane.

Se vemos um hospital com pessoas dormindo no chão, procuramos logo saber se o prefeito e/ou o governador é do nosso partido, para podermos elaborar uma boa desculpa que justifique aquilo com o menor prejuízo ao partido e aos partidários – os que estão ali, sem leito, que se explodam, o que importa é a sobrevivência política.

Nós temos muito o que mudar como sociedade antes de querermos bater o pé contra o que acontece em Brasília. Nosso “poder do voto” se tornou uma grande falácia, pois não sabemos usar. É uma arma que usamos para suicídio. Mas tudo bem, em outubro tem eleições municipais e vamos votar – de novo – nos mesmos políticos politiqueiros, nos mesmos nomes tradicionais da cidade, pois sempre teremos dívida com aquele secretário que descolou uma consulta na frente dos outros, ou daquele que conseguiu a escola ou a bolsa que eu queria pro meu filho, ou daquele que me pagou a conta da farmácia, a dentadura nova, o botijão de gás, a caçamba de aterro – com a máquina e o aterro da prefeitura. A corrida já começou. O vizinho já recebeu a visita que garantiu 50 votos da família em troca do banheiro novo ou do telhado da cozinha. E você, vai ficar esperando o vereador aparecer ou vai lá procurar por ele? Corra, se antecipe. Que chega antes leva mais dinheiro. Ano que vem a gente se junta e vai pra rua protestar contra a corrupção. Afinal, nós não temos culpa. Esses deputados e senadores que lá estão hoje nunca passaram por nossas Câmaras de Vereadores, né?

E tratando-se de política na terrinha, lembre-se sempre do poema: “malandro é malando e mané é mané”.


Fonte: Artigos Administradores / Malandro é malandro

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