Não quero ser um líder assim

Não quero ser um líder assim

Alguns líderes fazem da liderança um meio de alcançar privilégios e desfrutar de regalias. Mas, não seria a própria liderança um privilégio?

                 Desde o lançamento do livro O Monge e o Executivo, de James C. Hunter, aconteceu um despertamento para o lado mais humano da liderança, e o adjetivo ‘servidor’ foi incorporado ao perfil do líder. Algumas palavras foram sendo acrescentadas a esse perfil, como humildade, companheirismo e outras que expressam esse lado mais discreto do líder, desfazendo, até certo ponto, aquele mito do líder que está acima de todos, tem o poder nas mãos e age “sem dó, nem piedade”.

                Simon Sinek, em seu livro Start with Why, comenta que “a liderança servidora é um novo estilo de liderança”. E, de fato, esse estilo tem sido ensinado em sala de aula, principalmente para os administradores, mentores e profissionais de Coaching. Mas ainda encontramos alguns líderes que se agarram ao pensamento de que humildade é fraqueza e líder tem que ser servido e não servir.

                Em pleno século XXI, encontramos, em vários ambientes, aquele personagem que se sente um “semideus” e que, aparentemente, só tem a ensinar, nunca a aprender. Não faz muito tempo, encontrei um desses líderes e ouvi a seguinte frase: “eu demorei para chegar até aqui e preciso aproveitar os privilégios disso”. Não me contive e perguntei quais seriam os privilégios. Antes não tivesse perguntado. A resposta foi dolorosa aos meus ouvidos. Para aquele homem que estava à frente de uma grande equipe, os privilégios da liderança envolviam humilhações aos liderados, preferência constante, destaque em toda e qualquer circunstância e a garantia de estar sempre certo – mesmo quando estivesse errado. Em um primeiro momento, pensei em argumentar, mas não se argumenta com quem chegou aonde ele chegou, não é mesmo? Preferi o silêncio e a reflexão. E como aprendemos com tudo, minha lição depois da conversa foi: não quero ser um líder assim.

                Não quero ser um líder que encara a liderança como um lugar aonde se chega. Para mim, liderança não tem linha de chegada, mas sim um horizonte que sempre nos desafia a aprendermos mais, lutarmos mais, revisarmos nossos conceitos e, consequentemente, gera em nós humildade suficiente para olhar para o próximo, seja um liderado ou não, e compartilhar com ele experiências; em alguns momentos, aprendendo e, em outros, ensinando.

                Não quero ser um líder que aproveita da liderança. Liderança não é um título que se conquista e que vem acompanhado por um prêmio. Ela está mais para uma situação em que hoje estamos e amanhã podemos não estar. Aproveitar da liderança é uma filosofia tão pobre que pode nos igualar ao político corrupto ou ao empresário desonesto. Aliás, é por causa dessa filosofia que vivemos a crise generalizada no Brasil. Pessoas querem sempre ‘aproveitar’ de cargos, situações, posições e acabam cometendo erros terríveis que prejudicam muita gente. Se podemos aproveitar a liderança de alguma forma, que seja sentindo-nos privilegiados por ela e, ao mesmo tempo, responsáveis por pessoas que estão sob nossa supervisão.

                Não quero ser um líder que busca privilégios na liderança. Liderança não é fim, é meio. É melhor enxergar-nos ‘estando’ e não ‘sendo’ líderes. Enxergar a liderança como fonte de privilégios pode produzir em nós vaidades que não ajudam os outros e nem a nós mesmos. Penso que qualquer ‘busca por privilégios’ é perigosa. Então, em vez de buscar privilégios na liderança, o melhor é simplesmente deixar que o tempo, as condições oferecidas e o próprio exercício da liderança tragam, de forma espontânea, natural e totalmente livre, algum privilégio. Não buscamos, mas se eles nos forem oferecidos, seremos gratos. E dependendo do privilégio, deveremos ser maduros o bastante para abrir mão deles, caso venham interferir em nossa ética e moral. Nem todo privilégio é presente: alguns são verdadeiras armadilhas que nos desautorizarão na liderança.

                Quero ser um líder que vê na liderança uma estrada sem fim e não um caminho curto com um pódio ao final.

Quero ser um líder que aproveita a oportunidade de liderar e não um aproveitador que usa a liderança para construir impérios pessoais.


Fonte: Artigos Administradores / Não quero ser um líder assim

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