Nossa extinção não virá de um cometa, mas de nós mesmos: nos tornamos incapacitados sociais

Nossa extinção não virá de um cometa, mas de nós mesmos: nos tornamos incapacitados sociais

As novas gerações não sabem se relacionar. Isso está nos matando enquanto espécie, já que só conseguimos nos separar dos neandertais graças à nossa capacidade de manter relações sociais favoráveis

Venho observando, sistematicamente, que as novas gerações não sabem se relacionar. Isso está nos matando enquanto espécie, já que só conseguimos nos separar dos neandertais graças à nossa capacidade de manter relações sociais favoráveis. Estamos próximos da extinção. Retrocedendo e nos tornando neandertais.

A capacidade de socialização do homo sapiens (somos nós) fez com que a luta por espaço na economia da natureza ficasse desfavorável ao neandertal (a espécie que nos antecedeu) e, por isso, estes, tiveram que se isolar em locais inférteis da terra. Esta hipótese é sustentada pelo fato da grande quantidade de fósseis neandertais serem encontrados em regiões geladas e inóspitas do planeta. Nós vencemos e expulsamos nossos concorrentes para o gelo. Nossa maior arma foi o desenvolvimento do córtex cerebral pré-frontal, responsável em grande parte por nossa habilidade social.

Minhas análises sobre o que acontece com os jovens atualmente estão longe do rigor metodológico científico, mas a própria ciência já aceita que amostras aleatórias a partir de trinta observações já tendem a se comportar dentro de uma curva normal de distribuição. Ou seja, a maioria das pessoas se comporta dentro de uma média esperada e apenas a minoria tem um comportamento discrepante em relação à população. Acho que já tive amostras superiores a trinta alunos, embora não aleatórias.

É escorado nesse arrimo que busco construir minhas análises a respeito de alguns comportamentos do mundo acadêmico e corporativo.

By User: UNiesert and User: Frank Vincentz [CC BY-SA 3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], via Wikimedia Commons

Vejo, portanto, com enorme preocupação, como os jovens (e os nem tão jovens assim) estão se tornando inábeis na capacidade de se relacionar. Basta dar um trabalho em grupo que o desconforto se torna nítido. Se o professor pedir a formação de um grupo de quatro alunos para um trabalho e o grupo de amigos (a conhecida panela) for de seis, certamente surgirá a pergunta: “pode ser de seis?” Esta pergunta é sintomática, já que demonstra o desconforto de dois alunos que provavelmente terão que entrar em um território desconhecido ao se associarem a outras panelas.

Esse foi apenas um exemplo. Entre os jovens, é nítido o frequente conflito. Além disso, basta um simples debate em sala de aula para que os ânimos entre os detentores de opiniões distintas se exaltem. Me lembro que quando estava na primeira série a escola em que estudava organizou uma eleição simulada entre os alunos, era algo bem legal. Nós fazíamos campanhas e votávamos em uma urninha de papelão. Me lembro só de três candidatos: Collor, Lula e Brizola. Não me lembro em quem votei.

Realizei um trabalho mental e transpus essa experiência para 2015. Me imaginei no meio de um debate bélico, em que amizades seriam desfeitas. Além disso, pais de alunos entrariam na discussão e processariam a escola por tentar implantar uma mentalidade petralha ou coxinha.

A internet potencializou nossa capacidade de aglutinamento. Ela fez com que pessoas, antes distantes, pudessem trocar ideias, além de se sentirem próximas. Com milhares de amigos virtuais pensando iguais a mim sou levado a inferir que o mundo é minha semelhança e que o resto está errado. Porém, o que não entendemos é que o diferente também tem milhares de amigos o seguindo. É o mimo levado a escalas globais. O recente fenômeno das redes sociais nos levou a mimarmos a nós mesmos. Potencializou a intolerância (que sempre existiu). Veja os conflitos ao redor do mundo. Não estamos cavando nossa própria extinção? Estamos demonstrando para seres de outros planetas que somos incapazes de manter laços sociais saudáveis e, com isso, nos exterminando.

Me preocupo com o que esses jovens farão nas empresas, que são ambientes sociais complexos onde a negociação e o relacionamento é a regra constante. Nossa capacidade produtiva está em xeque.


Fonte: Artigos Administradores / Nossa extinção não virá de um cometa, mas de nós mesmos: nos tornamos incapacitados sociais

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