O Brasil não precisa de mais heróis, carece mesmo de menos vilões

O Brasil não precisa de mais heróis, carece mesmo de menos vilões

O ideal mesmo seria que não precisássemos de tantos mártires. É preferível ter uma nação pobre de heróis a uma atulhada de vilões

Parece já estar arraigada na imaginação criativa dos brasileiros a tarefa de forjar heróis. Nos últimos anos tem acontecido quase que repetidamente a projeção de homens públicos, que estão nada mais do que desempenhando normalmente suas atividades. Cumprindo suas obrigações.

Refiro-me especificamente às autoridades brasileiras que são responsáveis pela fiscalização e punição dos desmandos nas entranhas dos poderes. Tão logo começam a irromper como protagonistas das inúmeras operações de combate ao ‘crime de colarinho branco’, são logo cotadas para assumir os mais diversos cargos: de carrascos da pena de morte a presidente da república.

As redes sociais, secundadas pela midia, nos mais diversos segmentos são as grandes responsáveis, pela maior parte, não só da promoção de velhos heróis como da criação de novos. Vire e mexe nos deparamos com  ilustres desconhecidos, até então, sendo cogitados ao cargo de candidato a presidência. A mim não parece razoável criar-se um herói do dia para noite. E temerário. Um presidente pior ainda. Ademais acredito ser mais importante a permanência de tais agentes públicos em seus cargos de origem do que serem elevados a um estranho a eles. Se são importantes nas tarefas que desempenham e as fazem com esmero devem se aprofundar nelas.

Há alguns dias assistia a uma entrevista em que um Oficial da Marinha do Brasil, que comandou um navio responsável pelo resgate de centenas de pessoas em um naufrágio, durante uma destas tentativas de refugiados em cruzar a fronteira marítima de um país.  A insistência da repórter era esdrúxula:

– Como o senhor se sente, salvando tantas vidas?

– Me sinto um simples oficial da Marinha Brasileira, desempenhando minha obrigação! Arrrematou o oficial ao telefone, que claramente se esquivava das várias tentativas de promoção ao posto de paladino dos mares.

Após várias decepções nos últimos tempos, mantenho um certo niilismo com relação a aparição inopinada de certos ‘heróis’. Procuro me manter na reserva e não tecer elogios em público a eles. Sempre acreditei que, em dependendo da idade, ainda haverá tempo suficiente para que nos desaponte.

O Administrador e Palestrante Stephen Kanitz, no Artigo “A Relação Pais e Filhos”,  chama de “Crise dos pais imperfeitos”, a decepção que acometem os adolescentes quando estes descobrem que seus pais não são as pessoas perfeitas que eles imaginavam ser. Não são os heróis infalíveis desenhados pela sociedade. O profissional defende ainda que, a situação tende a piorar se os pais, também, deixarem a entender que nunca cometem erros. Considero essa relação, criada pelo autor bastante didática. É preciso desde cedo não criarmos expectativas fantasiosas em relação a determinadas situações ou pessoas.

Com tantas perspectivas baixas de crescimento e um futuro duvidoso para economia e a política, temos que nos cercar de cuidados. Aparecerão falsos heróis, supostos defensores intransigentes da sociedade, dos fracos e dos oprimidos. É preciso cautela.  O ideal mesmo seria que não precisássemos de tantos mártires. É preferível ter uma nação pobre de heróis a uma nação atulhada de vilões. É como disse Chico Xavier: Ambiente limpo não é aquele que mais se limpa e, sim o que menos se suja.


Fonte: Artigos Administradores / O Brasil não precisa de mais heróis, carece mesmo de menos vilões

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