O difícil equilíbrio entre o pé no chão e a cabeça nas nuvens

O difícil equilíbrio entre o pé no chão e a cabeça nas nuvens

Pode não parecer tão romântico, mas qualquer negócio precisa de planejamento, metas, responsabilidades, compromissos, organização e ordem. É ilusão achar que as técnicas de gestão são contra o espírito empreendedor

Vejam a história de Vitória, uma jovem talentosa, criativa, inteligente e muito simpática que, durante um evento, chamou a atenção de Jeremias, um empreendedor que estava se preparando para lançar sua startup de marketplace em São Paulo. Vitória, de fato, parecia ser a pessoa ideal para Jeremias e depois de trocar algumas ideias e perceberem a afinidade, o convite para a sociedade não demorou muito.

Desde o começo Vitória demonstrou ser a escolha certa. Com uma ampla rede de contatos, Vitória apresentou a Jeremias várias pessoas importantes que iriam ajudar bastante em seu negócio. Embora jovem, Vitória já havia trabalhado em diversos tipos de organizações e conhecia mais de 15 países, tendo vivido nos EUA e na Espanha por 5 anos, o que lhe dava uma visão de mundo bastante integrada e completa.

Jeremias se encantava com a visão de Vitória de que o empreendedor não deve se ater a planos complexos e detalhados e sim em realizações simples que levassem a pequenas conquistas significativas, um passo de cada vez. Ele não via o tempo passar quando se perdiam em devaneios sobre brilhantes futuros que o negócio deles proporcionaria para ambos. Ficava sensibilizado com a determinação de Vitória de usar o negócio como um mecanismo de troca, não só de produtos entre pessoas, como todo marketplace funciona, mas do negócio com a sociedade, na convicção que todo negócio deve ter um fim social como bastião sagrado de sua causa e propósito.

Vitória cantava aos quatro ventos que a liberdade e a autonomia são os principais valores que o empreendedor deve buscar e respeitar. De nada adiantava sair do jugo do emprego se não houvesse a possibilidade de seguir os desígnios que o destino trouxesse. Pregava que a serendipidade traria muito mais oportunidades do que a busca frenética por conquistar mercados e acreditava que qualquer empresa deve se considerar sempre em versão beta, nunca pronta e sempre em desenvolvimento e evolução contínua. Jeremias sorvia sua sabedoria e agradecia aos céus pela felicidade de tê-la encontrado.

Ela não era muito de cumprir horários, mas tudo bem, sem regras, lembra-se? Jeremias ficava um pouco preocupado com o fato de ela não fazer algumas coisas que haviam combinado, mas tudo bem, precisamos ser mais flexíveis, certo? Também não se sentia bem com algumas decisões incômodas, porém necessárias e importantes, sendo adiadas frequentemente, mas talvez elas não sejam tão importantes assim, pode ser mania de perfeccionismo dele. “Relaxa, cara”, pensava ele, tentando imitar o comportamento descompromissado e solto de Vitória.

O fato inquestionável é que o tempo estava passando e nada estava acontecendo. Jeremias queria compartilhar sua angústia com Vitória. Uma conversa franca, transparente e honesta, como tem que ser, pensou Jeremias, ela vai entender. Vitória não entendeu, e não gostou da conversa. Cobranças não eram aceitáveis. As coisas tinham que seguir o fluxo natural. “Que raios de fluxo natural?”, não entendia Jeremias. Contas para pagar são preocupações mundanas diante da grandiosidade que estavam construindo.

No dia seguinte, Jeremias recebe um email de Vitória. Ela agradecia tudo o que tinham feito juntos, mas se despedia porque não podia tolerar a pressão sendo imposta contra ela e não queria se sentir como um pássaro preso na gaiola. Havia decidido fazer um curso no exterior e dar um novo rumo para sua vida. “Tudo bem”, ela escreveu, “sem mágoas, eu faço isso o tempo todo, dar um novo rumo para minha vida. Não gosto de destinos preestabelecidos, não gosto que me digam o que fazer, não sei fixar raízes em um só lugar, e achei que você valorizasse isso, Jeremias, mas me enganei. Você é como qualquer outro empresário”.

Incrédulo, Jeremias tentava processar o que deu errado. Não é difícil entender Jeremias. A mídia vem disseminando histórias e falas muito inspiradoras, sobre sonhos, a beleza da liberdade e autonomia, a satisfação de ser dono do próprio nariz, a importância da visão do futuro e sobre a causa do negócio, criando uma falsa ilusão de que isso é suficiente para empreender com sucesso.

Pode não parecer tão romântico, mas qualquer negócio precisa de planejamento, metas, responsabilidades, compromissos, organização e ordem. É ilusão achar que as técnicas de gestão são contra o espírito empreendedor. Os sonhos são importantes porque alimentam nossa determinação. Temos que ter determinação para realizar tarefas que vão contra nossa natureza, mas são necessárias em qualquer negócio.

Temos que ter força de vontade para superar os desafios impostos tanto ao negócio quanto a nós mesmos. Temos que saber crescer e evoluir com as circunstâncias adversas que se apresentam diante de nós. Temos que admitir que, junto com o prazer de fazer o que queremos, também temos que fazer o que não gostamos, também precisamos aprender a fazer o que não sabemos. Temos que entender que o ‘eu’ do empreendedor precisa dar lugar ao ‘nós’ de nosso empreendimento. Nossos empreendimentos serão tão grandes quanto nossa capacidade de crescer e mudar nossa essência para amadurecermos.

Quanto maior a convicção de Vitória de que ela está certa em suas decisões, quanto maior a cegueira imposta por suas verdades e crenças, quanto maior a sua incapacidade em reconhecer seus erros, quanto menor a sua humildade e disposição de admitir seus defeitos, menor também é sua abertura para crescer, aprender e amadurecer. E é essa a lição que deve ficar para Jeremias.


Fonte: Artigos Administradores / O difícil equilíbrio entre o pé no chão e a cabeça nas nuvens

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