O dispositivo móvel e a (falta de) etiqueta

O dispositivo móvel e a (falta de) etiqueta

Está cada dia mais difícil dizer que esse não seja o mais novo membro do corpo humano

Há mais de 4 anos quando lancei meu livro sobre o gerenciamento de dispositivos móveis e serviços de telecom, eu já escrevi um pouco sobre a etiqueta e a mobilidade, mas de lá pra cá a coisa só piorou. Sei que todos que lerem isso concordarão comigo, pois basta sair às ruas e observar as pessoas. Hoje ninguém mais olha por onde anda. Literalmente, as pessoas atravessam as ruas olhando para o celular e não para os lados, o pintor numa escada ao invés de pintar a parede está enviando mensagens, aquela vendedora chata da loja nem nos incomoda mais porque está ocupada demais respondendo às mensagens de seu Whatsapp e até eu, na fila para entrar numa aeronave, estou escrevendo esse artigo!

As pessoas parecem estar enfeitiçadas pelos dispositivos móveis, e imagino que algum intérprete das previsões de Nostradamus deve estar provavelmente falando que a “besta” que ele falou que viria inserida no corpo das pessoas é o smartphone, porque, de certa forma, está cada dia mais difícil dizer que esse não seja o mais novo membro do corpo humano. As pessoas parecem ter perdido a noção mesmo (e não estou seguro para atirar a primeira pedra e afirmar que estou imune, embora procure me policiar ao máximo).

Vejamos alguns exemplo e provas dessa “e-nsanidade” e cheque se você já se perdeu ou se há esperança de salvação:

1) Quando você está numa reunião e resolve pegar seu smartphone delicadamente, abaixando-o para debaixo da mesa e da visão dos demais, você se sente invisível e acha que ninguém está percebendo que você perdeu o interesse na reunião e o respeito pelos seus colegas?

2) Quando seu telefone vibra, toca ou emite aqueles sons terríveis de chegada de nova mensagem, você se sente como um viciado que está há muito tempo sem a droga e alguém lhe mostra uma quantidade enorme e diz: “quer”?

3) Você já se flagrou trabalhando, estudando ou fazendo algo importante e no meio do raciocínio, interrompe-se para checar se chegou alguma mensagem, mas, claro que não chegou senão algum tipo de som irritante teria tocado, e mesmo assim você confere novamente e ao perceber que não chegou, fica triste e com a sensação que ninguém te ama?

4) Já combinou de almoçar com alguém e percebeu que algum tempo depois ambos, você e a outra pessoa, estavam usando seus smartphones ao invés de conversar?

5) Alguém já lhe sugeriu para usar menos o smartphone? Ou arrancou bruscamente de sua mão dizendo: “Chega! Larga esse negócio!”?

6) Acordou no meio da noite e ligou seu dispositivo?

Talvez apenas um tipo de pessoa responda “não” para todas as perguntas acima: um mentiroso!

Mas tudo bem, diagnosticamos que todos sofremos desse mal, mas o que fazer para se comportar com o mínimo de “decência móvel” no ambiente corporativo? Vejamos algumas sugestões:

1) Você não fica invisível ao colocar seu smartphone para baixo da mesa de reuniões, portanto não o faça, mas se precisar usá-lo para alguma emergência, peça desculpas, peça licença e explique o motivo. Seja rápido e volte para a reunião.

2) Configure seu smartphone para não tocar nada durante reuniões, exceto chamadas, pois algo realmente urgente pode surgir. Livre-se de sons de e-mails ou mensagens instantâneas.

3) Durante reuniões desligue, utilize o modo avião ou, no mínimo, mude para o silencioso.

4) Se quiser usar seu dispositivo para fazer anotações de temas e atividades discutidas na reunião, antes, avise a todos que usará seu smartphone ou tablet para tal. Mas faça apenas isso e não abra e-mail ou qualquer outra aplicativo.

5) Se receber uma chamada durante uma reunião e for muito importante atender, pergunte se as demais pessoas lhe dão licença para rapidamente responder, mas seja rápido. Se já for do seu conhecimento que uma chamada importante poderá chegar durante a reunião, avise no início da reunião.

6) Se você lidera a reunião, experimente propor que todos desliguem os celulares e os deixem no centro da mesa. Sua reunião provavelmente durará metade do tempo e será mais eficiente. Nas primeiras vezes você poderá achar até engraçado observar algumas pessoas olhando para seus smartphones parecendo um alcoólatra olhando para uma garrafa de whisky, mas com o tempo (e talvez um pouco de terapia) elas conseguirão superar.

7) Às vezes você pode decidir que deve chamar a atenção de uma pessoa por estar grudada no dispositivo e distante da reunião; seguramente a resposta será: “eu só li porque é importante”. Como se fosse um médico recebendo algum paciente grave na UTI. Eu geralmente respondo: “Não tenho a menor dúvida disso, porque tenho certeza que é mais importante que o seu respeito por mim e pelos seus colegas, por isso, todos aguardaremos você finalizar para prosseguir a reunião”.

Eu poderia citar outras sugestões, mas, o mais importante é entender o conceito e encontrar formas de ajudar as pessoas a entenderem que o respeito aos outros é mais importante que a impulsividade pelo uso ininterrupto de um dispositivo móvel. A maioria das pessoas não percebe o quão deselegante é seu comportamento quando possui seu smartphone a menos de 1 metro de distância de suas mãos. Sem falar do prejuízo que geram para suas empresas. Ainda desenvolverei um modelo matemático para calcular o prejuízo que cada grupo do WhatsApp (de conteúdo besteirol) gera por semana para as empresas.

E por fim, não conseguirei finalizar sem comentar sobre a pessoa ao meu lado nesse voo, que está super cansada, sua cabeça não pára de “pescar”, ou seja, ele não consegue segurá-la de tanto sono, mas seu smartphone segue firme, segurado por suas duas mãos sem nenhum risco aparente de escapar. Seu corpo parece estar tentando me dizer que ele poderia perder a cabeça ou até mesmo o juízo, mas o cidadão direcionou a pouca energia de seu estado de pseudo-hibernação para não perder seu mais novo membro, o smartphone!

Roberto DarivaCEO da Navita


Fonte: O dispositivo móvel e a (falta de) etiqueta O dispositivo móvel e a (falta de) etiqueta

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