O "egoendredor": um ponto fora do habitual planejamento

O “egoendredor”: um ponto fora do habitual planejamento

Certamente já ouvimos afirmações de que uma empresa é o espelho de seu dono ou gestor, ou ainda que toda e qualquer mudança consistente deva vir da parte mais alta da empresa para que em cascata, chegue a todas as pessoas, ou ainda, como de forma não tão simpática costumo citar: “cada empreendedor tem a equipe e a empresa que merece”.

Certamente já ouvimos afirmações de que uma empresa é o espelho de seu dono ou gestor, ou ainda que toda e qualquer mudança consistente deva vir da parte mais alta da empresa para que em cascata, chegue a todas as pessoas, ou ainda, como de forma não tão simpática costumo citar “cada empreendedor tem a equipe e a empresa que merece”.

Pois bem, toda empresa é conduzida por uma ou mais pessoas, que como eu e você tem suas inseguranças, seus conceitos e preconceitos, limitação, sonhos e dúvidas. Este conjunto de pensamentos, emoções e padrões reativos, repetitivos e persistentes, em seu núcleo central é denominado pelo escritor alemão Eckhart Tolle como o ego. Sim, este mesmo substantivo que está em nosso vocabulário quando julgamos grande e dominante nas outras pessoas e que numa autoanálise chamamos, quem sabe até erroneamente, do nosso “eu” interior. Não quero entrar no mérito do entendimento e profundidade sobre o conceito ou mesmo a separação do ego de quem realmente somos, mas quero destacar como tenho buscado perceber e compreender como o ego define a posição de empreendedores perante seus negócios, e uma vez isto reconhecido, como trabalhar para não ser controlados por ele.

Todos são em maior ou menor grau atingidos e até sabotados pelo próprio ego e com empreendedores isso é muitas vezes ainda mais perceptível. Ele tenta o tempo todo satisfazer algumas premissas básicas que o empreendedor permitiu repousarem sobre si. Manifesta-se na pessoa que supervaloriza sua história de dificuldades familiares e usa sua empresa como uma forma de compensar e mostrar aos outros sua importância e valor. Leva-nos a não querer reconhecer comportamentos e decisões equivocadas e persistir em práticas nocivas seja na gestão da equipe ou no relacionamento entre sócios, afinal, o ego sempre precisa do sentimento de assertividade da razão em tudo, o que preconiza que “eu ajo na minha razão”.

O ego exige que a equipe a nossa volta mude e adapta-se a ideias ou posturas que nem sempre são virtuosas para o negócio, mas atendem o sentimento de estar no controle, mesmo que na prática, a falta de comando e direção esteja escancarada. O ego do empreendedor proporciona que as experiências mal sucedidas de outrora sejam limitantes na contínua necessidade de inovar, pois ele carrega o medo e a frustração vivida no passado. O ego leva empresas ao sacrifício financeiro pela manutenção de um status das pessoas físicas e a necessidade da identificação com o “bem sucedido” que bagunça a ideia de quem deveria estar olhando para a sustentabilidade do negócio. Em outros casos, ele age como atenuador de nossas competências, tentando ressaltar incapacidades e nos oferecendo o sentimento de dependência de fatores que fogem ao nosso controle, afinal, uma das satisfações da mente egóica é o gosto pelo sofrimento. O ego mostra uma de suas facetas práticas nas contínuas queixas e ressentimentos, supervalorizando situações corriqueiras, criando monstros em decisões simples do dia a dia e fazendo da reclamação uma prática de gestão, que a cada desabafo ou pensamento sobre a incapacidade da empresa ou das pessoas não resolve quase nada, apenas alimenta o “egoendedor”.

Todos nós temos uma história, cultura e experiências que são elementos de sobra para nutrir nosso ego, e desta influência não conseguimos estar totalmente blindados, contudo, identificar-se com este ego é uma escolha do empresário e de cada pessoa. Não identificar a empresa com seu ego passa obrigatoriamente pelo entendimento do que a empresa representa na vida do empreendedor e especialmente o que o impulsiona a estar à frente de um negócio. As motivações são as mais diversas. Ganhar dinheiro, trabalhar para num provável futuro aproveitar, ter reconhecimento, não decepcionar as gerações anteriores, mostrar superioridade, ter o sentimento de participar de um seleto grupo social, poder ajudar as pessoas ou ainda ser servido em suas necessidades e desejos, entre tantos outros. Seja qual for a forma de influência ou repercussão prática na gestão o ego distancia a empresa e os empreendedores do seu máximo potencial.

Muitas vezes, ao fazer esta reflexão de forma profunda e desprendida, encontramos um ponto fora da linha do tempo dos tradicionais métodos de planejamento. Este ponto fora da habitual análise estratégica reside na compreensão do que verdadeiramente move e orienta os pensamentos e atitudes do empreendedor.

Após esta reflexão e o entendimento do modelo mental que impulsiona o empreendedor segue-se a etapa de descrever de forma clara a razão para empresa existir, que estruturados na figura da missão ou do propósito do negócio começa a dar vida a um empreendimento que certamente fará diferença para o mercado e para todas as pessoas que com ele se relacionam. Assim, buscando uma compreensão sistêmica, começo a observar com frequência que as travas para o alcance dos resultados empresariais residem tantas vezes no demasiado apego a um ego que perturba e limita empreendedores a desenvolverem empresas e pessoas.

A parte fantástica de tudo isso, é que convivendo com empresas e seus atores, vejo que cada vez mais pessoas estão percebendo o impacto do ego no seu negócio – mesmo sem grandes explicações técnicas e conceituais, até por que esta teorização não tem a maior importância – e tomando novas posturas em observar mais a si e o impacto do seu pensar e proceder com as outras pessoas, e a partir daí orientando e definindo estratégias para seu negócio com lucidez de saber que o ego existe e continuará existindo, mas que ele não deve ser o guia primário a nortear o negócio. Quando menos o ego influenciar as decisões empresariais mais conscientes elas serão, e assim, empreendedores e empresas passam a desenvolver uma sensibilidade diferenciada para reconhecer e criar oportunidades, tomar decisões corajosas e bem sucedidas e superar quaisquer obstáculos, que pela natureza da atividade se apresentam àqueles que escolheram empreender.


Fonte: Artigos Administradores / O “egoendredor”: um ponto fora do habitual planejamento

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