O mundo corporativo e os relacionamentos amorosos

O mundo corporativo e os relacionamentos amorosos

Como diria Erasmo de Rotterdam “Às vezes é preciso ser louco para dizer o óbvio”

Sempre pensei que amor, romance, paixão, primeiro encontro tivesse algo em comum com o mundo corporativo.

Talvez você possa rapidamente achar que não têm nada em comum entre si, mas convido você a ler até onde se sentir confortável e convencido de que talvez faça algum sentido.

Tudo começa na adolescência, entre os 14 e 19 anos de idade. Esta fase é marcada por muitas emoções, mudanças repentinas, dilemas, e incerteza das certezas que acreditamos ter.

Um dos desafios que começam na adolescência são as atrações físicas, ou seja, momento em que começamos a paquerar (caro leitor, uma pausa. Dependendo da sua idade, paquerar seja uma palavra ultrapassada. Então ressignifique para “processo de conquista entre dois seres vivos” rs). E é no momento da adolescência que os jovens iniciam no mercado de trabalho.

Aqui está à primeira relação entre relacionamentos e o mundo corporativo. Mas as convergências não param por aí.

A busca por uma oportunidade no trabalho é intensa. Diariamente existem milhões de pessoas se cadastrando em sites de emprego, compartilhando seus currículos, atualizando suas redes sociais para se tornarem mais atrativos. Do outro lado as coisas não são diferentes. Diariamente são feitos milhões de downloads de aplicativos de relacionamentos, atualizações nos perfis do facebook, fotos intuitivas no instagram, postagem de frases como “sou para casar”, “adoraria um travesseiro de orelha” e outras frases clichês para chamar atenção e se tornarem mais atrativos.

As entrevistas de emprego também possuem certa semelhança com os relacionamentos amorosos.

Somos orientados que antes mesmo da entrevista acontecer temos que procurar saber um pouco sobre a empresa, ou seja, estar informado da origem, principais produtos, missão, valores, e afins. Estar ciente destas informações pode ajudar a se sair bem na entrevista. E com os relacionamentos não são diferentes.

Levando em consideração que antes mesmo do encontro ser marcado o indivíduo já adicionou seu (sua) pretendente em todas as redes sociais (facebook, instagran, whatsapp, linkedIn, twitter, skype…) inicia-se a corrida pelo “estar informado”. Onde o indivíduo procurar saber mais “sobre” seu (sua) pretendente, visualizando as fotos, analisando os comentários, fuçando nos “amigos em comum”, verificando os locais frequentados, curtidas, gostos, e afins.

Eu poderia parar por aqui, porque acredito que você já tenha se convencido desta analogia, mas vamos adiante.

Vamos para o momento em o rapaz ou a meninas, na busca pelo relacionamento, ops, quis dizer emprego dos teus sonhos, se prepara para a entrevista de emprego. Dicas como: “a primeira impressão é a mais importante, acredite, você não terá uma segunda chance”, são corriqueiras, afinal, as primeiras impressões sobre alguém são feitas nos 10 segundos iniciais do encontro. Química e opinião sobre o outro são formadas a partir da linguagem corporal e aparência. Além disso, na entrevista todos dizem que querem contribuir pela empresa, dar o melhor de si, enquanto ser humano, para que a empresa cresça. Outras preocupações como ser cauteloso (a), falar o que o outro, no caso a o entrevistador, quer ouvir; ser educado, pedir licença para entrar na sala, sentar, são pontos que nos atentamos especialmente neste momentos ( o que não é diferente em um primeiro encontro). Afinal, tanto o homem quanto a mulher quando querem conquistar se portam como príncipes e princesas. E como todo homem adora uma princesa e toda mulher adora um príncipe, acreditam em quase todas as suas realezas.

E as sensações será que são as mesmas?

Friozinho na barriga, nervosismo, ansiedade, insegurança… O que mais veio em sua cabeça quando se lembrou do seu primeiro – não necessariamente o inédito – encontro, ops, quis dizer entrevista?

Quando finalmente entramos em uma nova empresa, conseguimos aquele job que tanto lutamos, é hora de fazer valer a pena todas aquelas coisas que falamos para o entrevistador, de mostrar na prática as habilidades que o fazem ser quem somos (ou queremos ser).

Nos primeiros meses de trabalho é motivação total. A maioria dos funcionários sente-se motivados a trabalhar para conseguirem atingir os melhores resultados possíveis. Fazem de tudo para não mostrar suas paranoias, seus medos, seus “pontos de melhoria”.

Atitudes como: chegar mais cedo ou pontualmente, bater o cartão quando sente que realmente o dia acabou, mesmo que isso signifique 2 horas além do seu horário normal; fazer tudo que lhe é pedido; perguntar para os colegas se estão precisando de ajuda com algo, a preocupação em manter um ambiente de apreciação e gratidão pelo que os companheiros de trabalho fazem, dentre outros componentes típicos de quem está no começo do relacionamento empresarial.

Nos relacionamentos amorosos não são diferentes No início tudo são flores. A maioria dos casais quer algo próximo à perfeição com a finalidade da sentirem-se plenos e felizes. Comportamentos que simbolizam este momento são: pensamentos que giram o tempo todo em torno um do outro, risadas dos próprios defeitos e dos defeitos do outro; aquela pedidinha para ir ao futebolzinho com os amigos, a preocupação com a hora que vai chegar em casa para preparar a janta; a vontade de saciar a todo momento as vontades do parceiro (a); aquelas perguntas rotineiras respondidas de forma generosa; a demonstração de interesse pelas necessidades emocionais, e assim por diante.

Mas ai, os anos passam e a coisa começa a tomar outra forma, popularmente dizendo, o relacionamento esfria.

E podemos identificar que ele esfriou quando o casal passa a demonstrar falta de vontade em realizar atividades que costumeiramente faziam juntos. A falta de diálogo, a falta de tolerância na aceitação do outro; atos simples como responder a perguntas rotineiras com agressividade, brigas por pequenas coisas, até a rotina, que antes era fonte de alegria, vira uma tortura, apontar o erro do outro, para o que o outro deixou de fazer, esquecendo-se dos pontos positivos. O atraso da parceira ao se preparar para um jantar pode ser encarado pelo parceiro como agressividade, afinal, ela sempre se atrasa, nunca se apronta na hora combinada. Ele não pensa que, talvez o atraso foi motivado pelo tempo que ela gastou preparando uma surpresa para ele.

No trabalho o chefe é um pé no saco, as atividades realizadas passam a ser exatamente aquelas descritas na vaga; oito horas de trabalho são mais que o suficiente, se caiu a caneta após 8 horas e 1 minuto, ixi só no dia seguinte. Os colegas já não são tão legais assim, a menina do marketing é metida demais, a coordenadora é impaciente demais, o estagiário folgado demais, nada está tão bom como antes.

E quando em ambos os momentos já não se consegue mais seguir adiante, começam as buscas por uma nova oportunidade.

Caro leitor, outra pausa. Se até agora você não se convenceu que há sim uma semelhança entre o mundo corporativo e os relacionamentos amorosos você vai se surpreender com o final deste texto.

Voltando a tal busca…

Esse não é um processo de busca qualquer não, há uma característica particular nele. Não há um rompimento contratual daquilo que faz mal naquele momento, ou seja, a busca é simultânea.

Enquanto o (a) funcionário (a) está no trabalho com as janelinhas do computador abertas, pode ter certeza que uma delas é a página de uma empresa de recrutamento e seleção. As atualizações nas redes começam a bombar, mas claro, cautelosamente para que ninguém descubra.

As vezes diz para o chefe que vai se atrasar um pouquinho no almoço, ou que precisa sair mais cedo porque tem que resolver umas pendências pessoais, e na real, é uma entrevista de emprego agendada na surdina.

As vezes um trabalhinho como freelance pode ser a saída, até encontrar aquele que realmente o complete…

E mesmo decidido que é a saída é sair (ao invés de olhar para dentro, analisar o que está efetivamente atrapalhando essa relação) se o RH o chama na sala e pede para o funcionário assinar a cartinha de demissão ele se apavora, diz que está surpreso, que não poderia ser assim, que fez de tudo por aquela empresa, que não é justo, que se sente traído.

Nem preciso dizer como funciona esse momento nos relacionamentos, talvez você já tenha se convencido.

Como diria Erasmo de Rotterdam “Às vezes é preciso ser louco para dizer o óbvio”.

Publicado originalmente em https://www.linkedin.com/pulse/o-mundo-corporativo-e-os-relacionamentos-amorosos-elisabeth-rodrigues


Fonte: Artigos Administradores / O mundo corporativo e os relacionamentos amorosos

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