O que é empreender? Uma análise antropológica

O que é empreender? Uma análise antropológica

O que é empreender? Será que empreendemos desde sempre? É o que este texto visa examinar

O que é empreender?

Esta é uma palavra que estamos habituados a ouvir, empreender. Sempre que a ouvimos, associamos a uma empresa, a um empresário bem sucedido, a alguém que lucra alto, de terno e gravata. Mas estes são pré-requisitos de ser um empreendedor?

Para entender o que é empreender, se faz necessário entender o que é o mercado e como ele surgiu, uma vez que o pré-requisito de haver empreendimento é que haja o tal mercado.

Nos primórdios do ser humano, no qual costumamos tratar como Estado de Natureza, não há moral, ou seja, não há conceitos daquilo que é certo ou errado. Roubar, matar, entre outras atrocidades era bastante normal. Ora, se colocar em uma posição de trabalho, naquela época, descrito como colheita, pesca, plantio, entre outros, era se colocar em uma posição vulnerável, uma vez que o trabalho exige concentração, desconcentrando-o de sua própria segurança. Assim, o ser humano tinha duas opções, poderia se dispor a trabalhar ou tentar roubar os frutos do trabalho de alguém. Ambas as opções são arriscadas, mas a segunda parece ser mais viável, dado este estado de convívio.

Da mesma maneira que era possível roubar e matar o próximo, a qualquer momento também havia a possibilidade de ser roubado ou morto, o que o colocava em uma situação não só desagradável, mas também de grande desvantagem, uma vez que a chance de morrer é significativamente maior que a de matar. Trabalhar, roubar ou se proteger? Essa não parece ser a receita de uma nação próspera, concorda? Pois bem, os homens também perceberam tal fato e começaram a se agrupar. Vamos supor um agrupamento de seis homens, a fim de maximizar o bem estar individual de cada, onde quatro se dispõem a trabalhar e dois cuidar da segurança do grupo. A situação já começa a ficar mais confortável, uma vez que abriria a possibilidade de concentrar-se no trabalho enquanto dois cuidariam da segurança e, ainda melhor, cada um poderia focar naquilo que era mais talentoso, ou seja, os dois maiores cuidavam da segurança, o mais alto colhia frutos em árvores, o que nadava melhor pescava, e assim por diante. Ao invés de um fazer todas as funções, agora há uma divisão onde cada um focará naquilo que é mais hábil. Parece que essa nação tende a ser mais próspera, certo? Mas o que tudo isso tem haver com empreendimento? Estou certo que o leitor mais atento já consegue entender onde quero chegar.

Aquele que pesca, irá comer apenas peixe? Ou aquele que colhe, comerá apenas fruta? De forma alguma. Estes homens trocam o produto de seu trabalho, e maximizam o bem estar de todos nessa sociedade. O sistema que compõe um emaranhado de trocas voluntárias dá-se de forma natural, tal que funciona mesmo não existindo dinheiro, até porque, dinheiro não é um pré-requisito para haver mercado, pois surge como um produto (sim, o dinheiro é um produto) para facilitar as relações de troca. Vamos imaginar leitor que você, como um criador de bois, gostaria de adquirir maçãs, como fazer essa troca? É possível, mas bastante complicado. Foi assim que surgiram metais preciosos para serem usados como meio de pagamento mais padronizado, como moeda de troca, e também com a necessidade de precificar pequenos valores. A utilização do sal, antes dos metais,por curiosidade, foi o que deu origem à expressão ‘salário’.

Assim, vamos analisar o que houve no descrito acima buscando definir o que é mercado. Para que os seres se juntaram em sociedade, o que houve? Houve uma ação de cada indivíduo para maximizar seu bem estar (sim, a sociedade parte de necessidades individuais) e, dentro dessa sociedade assim constituída, passaram a realizar trocas, em primeiro lugar para viabilizá-la, isentando cada um de fazer todo o trabalho necessário para sua sobrevivência, e também a fim de sanar seus desejos, maximizando o bem estar de todos.

A partir daí, a sociedade segue evoluindo na medida em que cada membro dá soluções a problemas. Para a pesca, com o tempo, surgiram barcos. Para a colheita em árvores, escadas. Para a segurança, armas. Obviamente, as funções citadas estão postas a título de exemplo, apenas para ilustrar como a formação social se deu e como a interação entre as pessoas, tal como a arte de empreender, foram – e ainda são – primordiais para nossa evolução.

Com o aumento do conforto social, os membros da sociedade passaram a ganhar tempo para executar tarefas. A divisão do trabalho evoluiu significativamente essa sociedade. Tempo somado a evolução possibilitou cada vez mais que os pertencentes deste arranjo social conseguissem identificar necessidades que ainda não tinham sido atendidas e buscassem formas de atendê-las. Voltemos ao exemplo da colheita, a fim de sintetizar o conceito de empreender. Vamos supor que cada homem tenha a capacidade de colher seis frutos, em média, cada, por dia. Um dos homens deste arranjo vê a necessidade de aumentar o volume de colheita, e resolve então, destes seis frutos que colhe, comer apenas dois ao dia e juntar quatro. Isso porque ele precisará acumular frutos para passar um tempo sem colher e sobreviver, e usar esse tempo para elaborar uma ferramenta que aumente o volume da colheita. Após acumular, parte-se para a construção da tal ferramenta. Note que os riscos de que ferramenta não dê certo são enormes e ele terá um grande prejuízo com isso, mas resolveu correr tal risco mesmo assim. A ferramenta, enfim, acaba por dar certo e aumenta o volume de colheita diária de seis para quinze frutos. Assim, este homem volta a consumir seis frutos ao dia, acumula nove, visando construir mais ferramentas. Ao construir a segunda, o homem percebe que não usará as duas ao mesmo tempo, e resolve entregar a um outro homem, lhe dando oito frutos ao dia como pagamento por seu esforço, e fica para si com sete. Neste arranjo, o homem em questão correu riscos consideráveis, mas empreendeu. Ao empreender, enriqueceu a si mesmo, mas note que o homem que passou a utilizar de sua ferramenta agora possui oito frutos ao dia, e não mais seis. TODOS nesta sociedade enriqueceram, onde apenas UM homem empreendeu.

Podemos tirar algumas conclusões desta elucidação. A primeira delas é que este processo tem de ser estimulado pelo bem do avanço social. Quanto maior a liberdade e facilidade de se empreender, maior a prosperidade da nação. Quanto mais se bloqueia ou se dificulta esse processo, menos próspero será o arranjo. A segunda conclusão, ainda mais importante para os objetivos deste texto, é a identificação do que é empreender. Empreender é dar soluções a problemas, é formular ferramentas para resolvê-los. E se assim o é, podemos dizer então que quando alguém empreende, enriquece a sociedade como um todo.

Muitos, erroneamente, fazem a leitura de que o empreendedor explora, que ganha vultosas fortunas sem muito esforço. Não me parece ser verdade. Para empreender temos, em primeiro lugar, que identificar o que a sociedade necessita. Entretanto, ao identificar uma necessidade, não significa que seu sucesso já esteja garantido, e isso, em primeiro lugar, devido ao fato de que tal necessidade é sua interpretação de mercado e não necessariamente a realidade em si. Ademais, não basta identifica-la, é preciso elaborar uma forma de saná-la. Não é preciso dizer que a solução tem de ter um custo que seja menor do que manter tal necessidade não atendida. Somado a isso, será necessário investigar como alocar os recursos a fim de tornar sua solução viável. Por fim, após todo este processo, é preciso mostrar sua solução ao mundo, ou seja, vendê-la, ao mesmo passo que tem de se manter vigilante para que outras soluções não surjam de forma mais eficiente que a sua. Leve em consideração que, ao iniciar todo esse processo, há um imenso risco de fracassar, e se este ocorrer, não voltaremos apenas ao ponto inicial do processo, retrocederemos ainda mais, haja vista que arriscou-se recursos e tempo. Não é uma tarefa fácil, e justamente por isso que uma sociedade próspera e madura deve tornar o ambiente atrativo a este processo. Empreendimentos e soluções enriquecem a nação como um todo. Ambiente seguro, previsível, barato, livre, torna a missão de ir em frente mais fácil, ameniza o medo das incertezas e obstáculos.

Em síntese, pensar como empreendedor é, diariamente, fazer uma análise de mundo. O que falta no mundo? Do que as pessoas reclamam? Do que precisam? Esse pensamento crítico é o primeiro passo nesta longa jornada. No entanto, não é aí que a maioria emperra. O problema reside na coragem para seguir em frente, medo do incerto, do fracasso. Sair da zona de conforto é assustador. Se você, desde cedo, é observador, vive identificando problemas – mesmo que pequenos – e passa um bom tempo pensando em como resolvê-los, pode estar desperdiçando uma boa chance de sucesso!


Fonte: Artigos Administradores / O que é empreender? Uma análise antropológica

Os comentários estão fechados.