Obrigado por me demitir

Obrigado por me demitir

Ser demitido é uma droga. No mínimo, constrangedor. Mas, como já dizia o emblemático Jack Sparrow, o problema não é o problema: o problema é a sua atitude em relação ao problema

Aluno repetente na escola, o chinês Ma Yun tentou entrar diversas vezes na universidade, mas não conseguiu. Colocou a cara a tapa por 30 vezes na busca por um emprego e falhou em todas as tentativas. E a resposta para tantas recusas, invariavelmente, era: “não, você não é bom”. No entanto, as empresas e instituições provavelmente repensariam suas negativas se soubessem do que esse jovem seria capaz. As rejeições serviram de aprendizado para o rapaz, que foi responsável pela fundação de um dos maiores sites de comércio eletrônico do mundo, o Alibaba. E esse chinês, antes um jovem Ma Yun com poucas perspectivas, se tornou Jack Ma, um dos homens mais ricos do mundo.

Diferente das alcunhas que carregam, algumas pessoas que, convencionalmente, classificamos como vitoriosas ou bem sucedidas, tiveram que enfrentar barreiras e recusas que, em vez de fazê-las fraquejar, possibilitaram que construíssem negócios e carreiras que talvez não fossem possíveis se tivessem recebido o esperado “sim” dos empregadores.

Desistir de um emprego relativamente seguro ou mesmo se ver rejeitado e demitido do que seria o seu trabalho dos sonhos pode não parecer um bom prognóstico para uma trajetória brilhante. No entanto, essa saída da zona de conforto e o desprendimento de convicções fechadas sobre o que é o melhor para si podem ser o pontapé para algo maior e mais gratificante para o profissional.

Desemprego: não tema

Ser demitido pode parecer ruim num primeiro momento. Pedir demissão também evoca sentimentos de dúvida e medo em relação ao que vem pela frente (veja o box 1). No entanto, em ambos os casos, é possível colher muitos frutos e incrementar a carreira. “A demissão pode ser a chave para o próprio processo de desenvolvimento de um profissional”, explica Alfredo Castro, diretor-sócio da MOT – Treinamento e Desenvolvimento Gerencial.

No caso dos demitidos pelas empresas, Castro reforça a importância de o profissional entender as razões que levaram à demissão. “Muito embora seja visto como algo negativo na maioria das vezes, o fato de ser demitido pode responder perguntas-chave sobre sua capacidade de desempenhar-se bem naquela função ou empresa, e entender quais aspectos da cultura não se adaptaram à sua maneira de ser”, diz.

Por outro lado, em relação aos insatisfeitos com o emprego, é preciso fugir do conformismo para buscar novas e melhores oportunidades no mercado. Marcos Morita, especialista em Planejamento Estratégico, aponta algumas consequências da falta de atitude em relação à carreira. “Muitos profissionais hesitam em pedir demissão, mesmo quando suas carreiras estão estagnadas na empresa, seja por acomodação ou para serem demitidos e assim aumentar os ganhos da saída. Em ambos os casos, este é um erro do profissional, uma vez que além de estagnar sua carreira, precisará explicar ao próximo contratante porque não procurou outras oportunidades, transparecendo acomodação”, conta.

Esteja preparado

Por mais talentosos que sejam, os profissionais devem ter consciência de que seu emprego não vai durar para sempre ou que, um dia, eles ficarão insatisfeitos com as posições que ocupam e tarefas que exercem. Por isso, é preciso que a atualização, a capacitação e a manutenção de uma rede de contatos sejam uma constante para o desenvolvimento da carreira.

Para Marcos Morita é obrigação do profissional estar preparado e manter-se empregável, por meio de cursos de extensão, idiomas, viagens e, especialmente, através do networking, que é a principal ponte para voltar ao mercado. Ainda assim, essa busca por melhorar sempre e pela manutenção de uma boa rede de contatos ainda não é uma regra para quem está empregado. “Infelizmente o que ocorre em geral é que os profissionais acabam se acomodando com a situação, não se aperfeiçoando e, pior, esquecendo-se dos relacionamentos com amigos de faculdade, colegas de empregos anteriores e profissionais do setor”, destaca o especialista.

Além da preparação, os profissionais devem ficar atentos a sinais de que o seu emprego não vai bem. Deixar de ser convocado para reuniões que sempre participou, não receber convites para desenvolvimento de projetos da área ou da empresa ou não ter mais a opinião solicitada são alguns indícios apontados pela consultora de carreiras e outplacement Eni Santos.

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Um dos principais indicativos de demissão é quando, repetidamente, o superior dá feedbacks ao profissional para que melhore seu desempenho. Caso o funcionário nada faça para mudar, a tendência é que a situação piore. Quem quer manter o emprego, não pode cair na cilada de se eximir de suas obrigações na empresa. De acordo com Eni, mais que aos sinais, é preciso atentar para atitudes que causam a perda do emprego, como, por exemplo, o não cumprimento das metas, erros constantes, comportamentos inadequados e comprometimento frágil.

Quanto àqueles que não têm certeza de que querem continuar na empresa em que estão, Alfredo Castro aconselha que é preciso analisar a situação sob dois aspectos. Para o especialista, antes de definir e buscar outras oportunidades é necessário analisar a situação sob dois critérios. “Aponto dois fatores básicos: observar tanto os fatores objetivos e subjetivos”, aconselha. Após atentar para esses fatores, Castro indica que, caso não estejam de acordo com o esperado, então o momento é de definir e buscar novas alternativas.

Além da busca por emprego ou recolocação nas empresas em que atuam, os profissionais também vêm optando por abrir seu próprio empreendimento. Marcos Morita ressalta os cuidados que devem ser tidos quando essa é a opção escolhida, sugerindo opções de menor risco ou que exigem menor investimento, como franquias e consultorias. “Não necessariamente um bom gestor será um bom empreendedor, já que as características são muito distintas. Trabalhar muito, ter assertividade e poder de convencimento, saber ouvir não e não ter aversão ao risco são algumas das características dos empreendedores”, esclarece.

Ganhos maiores que perdas

Ser demitido não é algo prazeroso em nenhuma época do ano. Mas em períodos nos quais atributos como generosidade e coleguismo são celebrados, a demissão se torna um golpe ainda mais duro. Esse foi o caso de Gustavo Bastida, que foi pego de surpresa ao ser desligado do banco em que trabalhava uma semana antes do Natal.

O impacto não tirou seu ânimo. Após refletir sobre o próximo passo que queria dar, ele decidiu aproveitar e embarcar num projeto iniciado por sua esposa, um empreendimento na área de comunicação corporativa, a Ayla Meireles Comunicação. Ele, então, usou a experiência de quase uma década no mercado para assumir a administração da empresa. Em pouco tempo, o casal conseguiu alugar um escritório e contratar uma pequena equipe. “Como resultado de um bom trabalho, resiliência e muito esforço, os resultados vieram, pouco a pouco. Hoje ganho mais de dez vezes o que ganhava no último emprego e tenho certeza que, apesar do problema que passei, tudo serviu para me conduzir aonde estou hoje”, relata Gustavo.

Problemas com o emprego anterior também fizeram parte da vida da jornalista Vanessa de Oliveira, que tinha uma rotina atribulada e fazia viagens constantes. O dia a dia, que já era corrido, começou a pesar ainda mais quando ela se tornou mãe, pois os compromissos profissionais a faziam ficar longe de sua filha por dias. Como queria ter mais tempo com a bebê, decidiu, no primeiro momento, solicitar menos viagens ao seu chefe, que questionou se sua prioridade era a vida profissional ou a maternidade.

A partir daí, Vanessa ficou insatisfeita e acabou saindo do emprego, com o intuito de trabalhar em algo que lhe proporcionasse horários flexíveis. Foi aí que teve a ideia, junto a outras duas amigas, de unir publicidade em embalagens de pães. Com isso, surgiu em 2010, a Mídia Pane, em São José dos Campos (SP).

Hoje, a empresa tem 165 franquias espalhadas por 20 estados brasileiros, imprime anúncios mensalmente em cerca de 2 milhões de sacos de pão e, claro, é um motivo de orgulho para a empreendedora. “A saída do meu trabalho contribuiu para que eu pudesse amadurecer melhor a ideia de ter o meu próprio negócio e me dedicar quase que integralmente à formatação do negócio. A maternidade foi um divisor de águas na minha vida. Foi a partir daí que percebi que gostaria de me dedicar a esse momento tão importante. Foi um desafio que valeu a pena”, comemora Vanessa que, após a desistência de suas sócias logo no início, continuou o negócio com a ajuda do irmão.

Mais comum do que se imagina, a história de Vanessa, que mudou de vida para ter mais tempo para a família, também se assemelha com a de outras empreendedoras, como Germana Andrea Queiroz. Cozinheira em uma churrascaria de Pernambuco, Germana teve que reorganizar sua rotina para cuidar do filho, que havia nascido com fenda palatina. Assim, pediu demissão e com o dinheiro que recebeu do estabelecimento resolveu ter seu próprio negócio.

Após tentativas sem sucesso e diversas dificuldades para ter um estabelecimento, hoje Germana Andrea tem duas unidades da sua “Barraca da Andrea” na cidade de Monteiro, interior da Paraíba, onde vende salgados, bolos e outros tipos de lanche. Ela planeja, inclusive, montar um restaurante em 2016. O esforço da empreendedora também teve amplo reconhecimento no mês de março, quando conquistou o troféu prata na etapa nacional do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, pela categoria Microempreendedora Individual (MEI).

Para conseguir ter seu próprio negócio, a empreendedora revela alguns de seus passos e aprendizados. “Queria lidar com comida e, por isso, comecei a visitar estabelecimentos vizinhos para ver o que eles faziam por lá. No entanto, é preciso encontrar o que dá certo para você, sem copiar as ideias dos outros. Também é preciso saber o que se quer e se contentar com pouco no começo, se dedicar, não desistir facilmente, ter vocação e responsabilidade. Não se pode ter medo de arriscar, pois erramos muito no caminho para poder acertar. Além disso, à medida que cometemos erros e acertos, ficamos mais seletivos”, ensina Germana Andrea.

Recomeçar, atuar em um emprego novo ou mesmo criar um empreendimento – essas são algumas opções para quem encara a demissão não apenas de maneira negativa, mas como uma oportunidade para avaliar expectativas, atuação profissional ou mesmo mudar de vida. Superados os obstáculos emocionais e profissionais, a demissão pode ser, em vez de um entrave para o profissional, o incentivo que era preciso para a carreira decolar.

Efeitos psicológicos do pós-demissão

Inicialmente, o fantasma que pode rondar quem está sem emprego é o problema da falta de dinheiro. Com o impacto psicológico, segundo a psicóloga clínica Maria Aparecida das Neves, a autoestima diminui drasticamente e o maior desafio passa a ser de que maneira é possível voltar ao mercado. “Essa tarefa vai fazer com que gaste muito mais energia do que quando estava trabalhando e fazendo horas extras, por isso não se deve descuidar da alimentação e dos exercícios físicos”, recomenda. Para superar a demissão, a especialista dá algumas dicas:

– Levantar a cabeça e traçar um plano até a recolocação;
– Economizar e cortar despesas desnecessárias;
– Conversar com a família, explicar a situação e pedir ajuda;
– Cortar as despesas supérfluas, o desemprego pode durar de meses a anos;
– Aproveitar as oportunidades e usar a criatividade na nova fase da vida.

Grandes empresários que foram demitidos

Soichiro Honda

Falecido em 1991, aos 84 anos, Soichiro Honda foi o fundador de um negócio que hoje fatura bilhões de dólares. No entanto, antes de ter um empreendimento de proporções globais, ele trabalhava como engenheiro e tentou um emprego na Toyota, mas foi rejeitado. Durante o período desempregado, começou a fabricar motocicletas em sua própria garagem, dando origem à Honda Motor Company.

Sérgio Amoroso

Com infância humilde, Amoroso juntou dinheiro e decidiu, aos 18 anos, se mudar para São Paulo. Quando o que tinha acabou, chegou a passar fome por alguns dias, até se empregar numa fábrica de papelão. A partir daí, cresceu na empresa, mas dificuldades financeiras fizeram com que o dono do negócio pedisse concordata. Com isso, ele, junto a sócios, resolveu abrir sua própria empresa em 1981. Surgia então o Grupo Orsa, produtor de papel e celulose, que foi vendido por US$ 1,27 bilhão em 2012. Hoje, o empresário preside o Grupo Jari.

Lee Iacocca

Famoso por idealizar o Ford Mustang, Iacocca tinha uma carreira na Ford, tendo chegado ao cargo de presidente. No entanto, em 1978, quando a companhia tinha um lucro de US$ 2 bilhões, entrou em choque com Henry Ford II (neto de Henry Ford) e foi demitido. Acabou indo para a Chrysler e se tornou um dos grandes responsáveis pela recuperação da companhia. Hoje, aos 90 anos, é ex-presidente do conselho da Chrysler.


Fonte: Notícias Administradores / Obrigado por me demitir

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