Oh Agostinho, Agostinho! Que sejam minhas as tuas confissões!

Oh Agostinho, Agostinho! Que sejam minhas as tuas confissões!

Uma reflexão sobre Agostinho e as suas confissões, onde, entre outros ensinamentos, percebemos que são as perguntas que movem o mundo e não as respostas.

Todo homem é um filósofo, porque ser filósofo faz parte do ser que foi feito semelhante a Deus.

Existem os filósofos passivos, que são aqueles que fazem perguntas, porém se contentam em não ter respostas. Não sofrem pela falta delas, não agonizam e finalmente se conformam. A maioria de nós faz parte deste grupo.

Existem também os filósofos ativos, que são aqueles que questionam e, por uma questão de sobrevivência, precisam das respostas. E quando obtêm respostas, fazem uma nova pergunta querendo aprofundar-se na questão. Nunca se contentam e nunca se dão por satisfeitos. Como sofrem estes filósofos. Sofrem como só o filósofo sabe sofrer. Tu és um deste, Oh Agostinho!

Qual a substância de Deus?

Qual a origem do mal?

Perguntas que somente a tua genialidade e teu espírito inquieto poderiam produzir.

Na busca por respostas a estas perguntas, encontrastes o MANIQUEISMO. Intrigado, querias saber mais.

Será que ali encontrarás as respostas para as inquietudes da tua alma?

Lá ouvistes a respeito da origem cósmicas das forças do bem e das forças do mal. O que será isto? Como metralhadora cuspindo fogo, tu cuspias perguntas. Atiravas para todo lado, havido por respostas.

Perguntastes aos discípulos, porém eles se sentiam pequenos diante das tuas questões. Perguntas inquietantes e intrigantes os deixou desconcertados.

Procuras os mestres – disseram eles – certamente saberão te responder.

Eu queria saber, Oh Agostinho, se eles te seguiram, querendo também ter as respostas ou se contentaram com o pouco que tinham, deixando-te sozinho em tuas inquietações. Juro, diante de Deus, que teria ido contigo na busca pelas respostas as tuas perguntas, porque elas também são minhas.

-Mestres falem-me mais a respeito destas teorias. Falem-me sobre a origem do mal e a materialidade de Deus – clamava tu, Oh Agostinho!

Da forma como perguntavas, viram que não havia como embromar-te.

Rederam-se diante da tua genialidade e confessaram não serem capazes de suprir a tua busca.

-Espere por Fausto, ele virá e trará consigo todas as respostas.- Disseram eles.

Tua ansiastes por este dia. Te contentastes em ficar ali ouvindo o que não te atendia, confiado na esperança de que o mestre dos mestres viria, e com ele, como lhe disseram, todas as respostas.

O teu ser, seja o físico, o emocional e o espiritual, ansiavam por aquele dia, pois sabias que naquelas respostas estava o caminho do conhecimento, da sabedoria e da felicidade.

Fausto chegou!

Tolo homem que falas do que não sabes como se tudo soubesses! Tolo homem que ouves e não criticas, só porque aquilo que ouves vem da boca de alguém que é rotulado mestre dos mestres. Como bem disse um de teus orientadores, “Porque virá tempo em que não suportarão o verdadeiro conhecimento; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências”.

Fausto enganou a muitos, mas não enganou você. Percebeste logo, na primeira conversa, que estavas diante de um charlatão. A sua inteligência mediana era capaz de enganar a multidão, menos a ti.

Agostinho, se vivesses hoje ainda estarias diante de muitos Faustos!

Faustos batistas

Faustos católicos

Faustos presbiterianos

Faustos assembleianos

Faustos universais

Faustos espíritas

Faustos mulçumanos

Faustos judeus

Faustos ateus

Faustos falsos

Falsos Faustos

Multidões seguem estes Faustos! Enganam-se a si mesmos.

Por medo,

Por pura tolice

Ou Porque no fundo não querem as verdadeiras respostas.

“Desviam-se da verdade e voltam-se para as fábulas.”

Tu não! Jamais se contentarias com tão pouco!

Com Fausto experimentastes o desencanto próprio daqueles que buscam a verdade e não a encontram.

Que dor! Que sofrimento!

Eu sei como tu te sentias porque também me sinto assim.

Que dor! Que sofrimento!

Será Agostinho que não há respostas para as nossas perguntas?

Será que teremos que nos contentar em ficar com os MANIQUEISTAS porque não encontramos nada melhor?

Será que a ignorância é realmente uma benção?

Porque se não se sabe que não se sabe, não existe a fome de saber.

Mas se sabemos que não sabemos, esta fome nos consome e nos tira a paz!!

O que fazer Agostinho?

Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?

Espere Agostinho! Ouço uma voz no meu da multidão. É Ambrósio, famoso Ambrósio! Que eloqüência! Que oratória! Que modo de falar! Paremos para ouvi-lo. Quem sabe a nossa curiosidade possa trazer resultados. O que temos a perder?

Ardorosamente tu o ouvias, quando pregava ao povo, não com o espírito que convinha, mas como que a sondar a sua eloqüência para ver se correspondia à fama, ou se realmente se exagerava ou diminuía o que se apregoava. Não te esforçavas por aprender o que o Bispo dizia, mas só reparavas no modo como ele falava.

Oh Agostinho, Agostinho! Que sejam minhas as tuas confissões!

Sem perceber caíste na armadilha do altíssimo. A verdade foi até você. Ambrósio revolucionou o te conhecimento.

Tu que nem levemente ou por enigma suspeitavas o que era substância espiritual, contudo agora alegravas-te e envergonhavas-te de ter ladrado, durante tantos anos contra a fé católica.

Com Ambrósio tu aprendeu que o Deus do cristianismo, uno e criador, não forma uma substância corpórea ou material, mas espiritual, iniciando-se o processo de resolução do teu grande problema acerca de Deus – o da sua natureza ou substancialidade. Pois, enquanto maniqueu, o problema não consistia na verdade acerca da existência de Deus, mas quanto à sua substancialidade e aos caminhos para alcançá-lo.

Agora tu sabes que Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.

Ah Agostinho, se vivesses hoje verias como nos faltam os Ambrósios. Homens que se levantem no meio da meio da multidão e falem a verdade. Que não estejam preocupados em agradar aos seus ouvintes para serem agradados por eles, mas que falem o que precisa ser dito de forma que centenas de anos depois possamos lembrar com saudades da suas palavras.

Que se levantem Ambrósios no meio da sociedade! Seja na política, na religião, na filosofias e em todas as áreas do conhecimento humano.

Com Ambrósio tua sede e tua fome começam a ser supridas. Mas ainda lhe faltava alguma coisa. Algum conhecimento ainda lhe eram importantes. Onde buscá-lo? Nem a genialidade de Ambrósio podiam atender-te em toda a plenitude da tua genial necessidade.

Nesta angústia, eis que nasceu uma luz, que tu atribuiu como sendo a “mão oculta” de Deus, e que, em tuas Confissões, chamas de “O colírio das dores”. Chegaram em tuas mãos “alguns livros platônicos”. Os outros não tinham e não compreendiam o significado daquele conhecimento, mas para ti eram pérolas de grande valor.

Oh Agostinho, Agostinho! Que sejam minhas as tuas confissões!

Fostes apresentado ao mundo inteligível e incorpóreo, que como um todo é superior à realidade sensível. Conhecestes a famosa tríade composta pelas três hipóstases primordiais. No ápice de tudo está o Uno – Deus -, o Super-Bem, que é transcendente, perfeito, eterno, infinito e necessário. Deste primeiro Princípio, emana a segunda processão, a ‘Inteligência’ ou Noûs, que é uma cópia do Uno; e, embora tenha sido engendrada imediatamente pelo Uno, e, portanto, é a mais perfeita de todas as processões, esta não tem a unidade perfeita. Ela marca o início da multiplicidade, pois, não obstante ser a processão mais próxima do primeiro Princípio, a ‘Inteligência’ ou Noûs traz em si uma divisão interna; por um lado, ela contempla diretamente o Uno, do qual é parte, e, por outro lado, ela contempla a si mesma, é razão consciente de si mesma. Ou seja, ela é, ao mesmo tempo, a Inteligência que pensa, e é, por outro lado, Ser, enquanto é pensada. Por fim, encerrando o mundo inteligível, a terceira emanação, a Alma universal ou Alma do mundo (substância espiritual), princípio animador do universo, que dá vida a todos os corpos (seres).

Este conhecimento mudou-te completamente e tu mudaste este conhecimento, aperfeiçoando-o como só um gênio é capaz de fazer.

Tu desenvolves-te o conceito da trindade. É claro que entre as três hipóstases inteligíveis de Plotino e a Trindade bíblica, que tu defenderias com tanto fervor mais tarde, depois de convertido, há enormes diferenças. Em primeiro lugar, como observa Fraile, em Plotino, apesar do monismo, onde tudo deriva e volta ao Uno, há uma subordinação hierárquica entre as três hipóstases, sendo as duas últimas uma emanação da primeira. E, mais do que isso, a terceira hipóstase, a Alma, não emana diretamente da primeira, mas indiretamente, através da segunda. Portanto, há degradação hierárquica ou despotencialização, não no Uno, que continua perfeito, pois este pode dar sem perder, mas nas processões sucessivas. Assim sendo, as três hipóstases não formam uma única substância ou essência. Na Trindade bíblica, ao contrário, não há separação nem degradação hierárquica entre as três Pessoas; o Pai, o Filho e o Espírito Santo formam um único Ser – Deus. Ou seja, as três Pessoas formam uma só substância ou essência, uma só perfeição.

Oh Agostinho, Agostinho! Que sejam minhas as tuas confissões!

No Neoplatonismo tu passou a entender a origem do mal e compreendeu que o mal não existe, mas sim a ausência do bem.

Só tu serias capaz de conhecer e melhorar este conhecimento. Neste processo, tu viu a necessidade de calçar as sandálias da humildade, porque esta é pré requisito para que o conhecimento se transforme em sabedoria. Conhecimento serve para dar palestras, sabedoria serve para mudar para melhor a vida de milhões de pessoas.

Se vivesses hoje verias que o mundo nunca teve tanto conhecimento, mas tão pouca sabedoria. Assim como os neoplatônicos, nossos intelectuais estão sobrecarregados de tanto orgulho e de tanta vaidade que não enxergam mais o óbvio. Se as coisas não são do jeito que eles acham que é, é por que não são.

Tu dissestes que os “platônicos” chegaram até às portas do céu, mas não entraram, atolando-se no seu próprio orgulho racional, ao pensarem que o mais alto grau da felicidade, a eudaimonia, se encerrava no pleno desenvolvimento da razão natural que eles imaginavam ter alcançado.

É mais ou menos assim:

Os neoplatônicos chegam na porta do céu e ela está aberta. Eles se recusam a entrar porque acham que é necessário algum esforço para entrar, portanto a porta tinha que estar fechada para que eles pudessem fazer força para ela abrir, com isto haveria mérito próprio para entrar no céu. Se a porta está aberta, então não é para entrar. Loucos, arrogantes e vaidosos! Passarão a eternidade na porta do céu sem experimentarem a verdadeira felicidade, pois está escrito: “Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós,” neoplatônicos ” é dom de Deus.”

Oh Agostinho, Agostinho! Que sejam minhas as tuas confissões!

Rogo que eu consiga entender de forma plena o que tu querias dizer quando afirmaste que a felicidade se dá plenamente mediante a posse de Deus.

Por mais que o homem busque satisfações fora de si, é exatamente em seu seio que ela repousa, dentro de si.

Jesus Cristo é o Mestre dos mestres que ilumina e faz o homem chegar ao conhecimento e assim, ajuda-o a ser verdadeiramente feliz.

 


Fonte: Artigos Administradores / Oh Agostinho, Agostinho! Que sejam minhas as tuas confissões!

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