Pelo que seremos criticados nas auditorias?

Pelo que seremos criticados nas auditorias?

Certamente, que em qualquer auditoria, críticas são muito bem vindas. E motivadas ou não, devem levar o profissional a reflexão. Não é uma questão de humildade, mas de profissionalismo e de entendimento do que é uma auditoria e de como esta deve intervir na gestão.

Dizer que um gestor gosta de ser auditado, que ama de paixão a auditoria-interna ou independente, privada ou governamental-não é o que demonstra a experiência no Brasil. Um país que traz na sua herança o homem cordial de Sérgio Buarque de Hollanda, no seu “Raízes do Brasil”, avesso a formalidades, bem como tem um endeusamento pelo improviso e uma aversão a regras latente, leis que por vezes não pegam, no contexto de um país que foi escravocrata por muito tempo e que tem casuísticas de pequenos poderes e conluios que acobertam erros tratados de forma natural e cotidiana.

Essa resistência a auditoria, intrínseca, não se reflete apenas na ainda incipiente estruturação da função auditoria no país, em termos profissionais, de raras cadeiras nas universidades e na rala produção acadêmica e bibliográfica. Apresenta-se também em críticas costumeiras aos trabalhos dos profissionais dessa área, por vezes durante, mas principalmente na conclusão, quando emergem as verdades auditoriais que expõe fragilidades de controles, que atiçam temores da responsabilização, oriundos desse mesmo país de matriz mais policialesca, na qual se valoriza o culpado em detrimento das soluções.

Para melhor discutí-las de forma didática, as críticas serão estruturadas em três categorias, que nos permitirão analisar as críticas, de forma sistemática, buscando origens e remédios, para que na construção de nossos trabalhos como auditores, saibamos nos prevenir a estas, tudo com muita humildade e profissionalismo.

A primeira vertente de críticas deriva da alegada falta de competência técnica, que surge como argumentação, principalmente, quando o auditor se debruça sobre a gestão de instituições de processos específicos, herméticos, com profissionais de sólida e profunda formação acadêmica. Citam-se universidades, institutos de pesquisa, e demais setores cujo conhecimento especializado seja a marca registrada.

A origem dessa crítica se prende a própria natureza dessas organizações, que por dominarem conhecimento tão próprio, não encontram espaços para apontamentos externos. Seja por vaidade, seja por corporativismo, ou até pelo próprio desconhecimento do que objetiva uma atividade de auditoria, faz-se necessário mostrar a esses críticos que o conhecimento necessário ao auditor é o de auditoria, da arte de avaliar, com sólida visão de conhecimentos gerais, e que isso deve vir acompanhado de uma dose de humildade, apontando a estes a importância de um olhar externo, que proporciona eficiência e confiabilidade.

A segunda linha de críticas se dá na questão da relevância dos achados de auditoria, taxados por esses detratores de comezinhos, burocráticos, com excesso de formalismo, não agregando valor a gestão. É a crítica da auditoria da bagatela.

Esse tipo de argumentação tenta reduzir as questões encontradas e objeto de recomendações a situações de menor monta, por vezes utilizando-se de dados estatísticos e se origina de problemas de planejamento e interação pré-auditoria, mas também da própria ação do auditado no sentido de supervalorizar outros aspectos da gestão para diminuir aquele que foi escolhido como escopo na auditoria atacada.

O remedinho é simples. Depende muito de quem faz a auditoria construir uma avaliação que realmente tenha relevância quantitativa e qualitativa, e que a construção da avaliação seja permeada de interação com o auditado, para que ele perceba e faça parte desta. Com esse pertencimento,  esvaziam-se argumentos, pelo envolvimento dele no processo, preservada a autonomia típica do auditor.

Por fim, a terceira crítica, mordaz, é a de que o auditor está agindo com interesses diferentes do desejo de avaliar. Uma crítica que atribui desvio ao foco do auditor, apresentando a ideia de que ele está motivado por interesses de promoção pessoal, evidência, preconceitos ou ainda, interesses pessoais. Essa crítica atinge diretamente a pessoa do auditor e pode ser alimentada pela sua conduta e pelas suas palavras no decorrer do trabalho, bem como pela própria resistência a avaliação por parte do auditado, como recurso derradeiro.

O método consistente na elaboração das amostras e na construção das conclusões, aliado a uma postura ética e formal, com clareza e diálogo, demonstrando os efeitos daquela avaliação sobre a missão da organização, possibilitam avanços e a mitigação dos efeitos dessas críticas, reforçado pelo cuidado no que se escreve e fala no decorrer dos trabalhos.

Poderíamos falar também das críticas comuns pela falta de celeridade, questões de cordialidade e ainda, da falta de clareza nos relatórios, mas percebemos que  as categorias relacionadas a competência técnica do auditor, relevância dos achados e suspeita de foco desviado concentram as principais críticas que se não forem bem trabalhadas, podem denegrir ou até anular um trabalho, e os seus benéficos efeitos para a gestão.

Certamente, que em qualquer auditoria, críticas são muito bem vindas. E motivadas ou não, devem levar o profissional a reflexão. Não é uma questão de humildade, mas de profissionalismo e de entendimento do que é uma auditoria e de como esta deve intervir na gestão.

No contexto de contraposição de visões que acompanha os trabalhos de avaliação, em uma herança brasileira de resistência a atividades de cunho fiscalizatório, é salutar pensar, antes e durante o trabalho de auditoria, que objeções poderemos receber  no momento do “após”, para que não se percam valiosas percepções da gestão e as decorrentes soluções aventadas,  em meio a críticas que , apesar do barulho,  por vezes pouco agregarão valor a organização. 

 


Fonte: Artigos Administradores / Pelo que seremos criticados nas auditorias?

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