Pensar, criar, agir e empreender

Pensar, criar, agir e empreender

Pensamento criativo sobre o próprio pensar e leitura (de si e do mundo), são fundamentais para o ato empreendedor

Frente a essa complexidade de informações desta Era da Informação e do Conhecimento, pensar e aperfeiçoar o próprio pensar (metacognição) se reflete, entre outros aspectos, na comunicação, nas linguagens, na compreensão de si e do mundo, portanto, na qualidade das decisões e percepções das oportunidades. As mudanças verdadeiras, seja em qual esfera for, sendo o indivíduo o principal agente modificador, passam pela transformação na forma de pensar com seus reflexos no agir. Em outras palavras, passam “pelo pensar sobre o próprio pensar”, o que por sua vez implica em leitura e criatividade para vislumbrar e aproveitar as possibilidades que se apresentam.

Para o pensador Edgar Morin, a concepção da necessidade do modelo de pensamento complexo (pensar sobre o próprio pensar) advém das revoluções provocadas nas ciências, em especial, da Mecânica Quântica, onde esta é o segmento da física moderna que estuda o movimento das partículas muito pequenas, bem como o da Teoria da Relatividade proposta Albert Einstein, onde afirmou que tempo e espaço são relativos e estão profundamente entrelaçados. A idéia de “ordem do caos” e da “relatividade das certezas” é algo assustador para à concepção da razão absoluta proposta pelo modelo tradicional de educação. Segundo matéria vinculada na Revista Nova Escola (nº 25, p. 114) levando em consideração a Teoria do Caos, quando tudo parecia incerto e relativo, a teoria do caos, já na segunda metade do século, veio, de certa forma, na direção oposta, ao demonstrar que também no sistema caótico existe ordem”.

Face as novas descobertas da ciência da complexidade da Era da Informação e do Conhecimento, Edgar Morin defini os princípios de reformulação do conhecimento humano para ajustar a essa nova realidade e a sociedade moderna. Entre alguns esses princípios estão:

  • Reintrodução do conhecimento em todo o conhecimento: pensamento crítico sobre o próprio pensar;
  • Princípio sistêmico: o todo é mais do que a soma das partes;
  • Ciclo retroativo: a causa age sobre o efeito e vice-e-versa;
  • Autoeco-organização: o homem se recria em troca com o ambiente.

No que tange à Era da Informação e do Conhecimento, apensar das informações estarem disponíveis de forma rápida no ambiente virtual, a apreensão, a compreensão, o entendimento, a aplicação, enfim, dar sentido a determinada informação de modo a gerar conhecimento aplicável dependem das pessoas, dos seus processos mentais, emocionais e físicos, do seu modo de pensar e criar.

Para a pesquisadora, escritora e doutora em Letras pela PUC Valéria Pereira, que a mais de 20 anos estuda as variáveis na formação de leitores e como desenvolver leitores mais hábeis, essa apreensão, compreensão e entendimento podem ser aperfeiçoados por meio de práticas e metodologias adequadas voltadas para a formação de leitor. Essas práticas e metodologias vão além das abordagens propostas pela maioria dos cursos superiores. De forma complementar, para a Psicologia Cognitiva torna-se necessário “o estudo de nossos processos mentais no sentido amplo: pensar, sentir, aprender, recordar, tomar decisões, fazer julgamentos e assim por diante” (Rampazzo et al., 2009). Não seria maravilhoso poder tomar decisões melhores e com isso conseguir melhores resultados nos vários campos da sua vida? Imagine os impactos positivos nas relações familiares, na educação, nas empresas, na economia, na sociedade e na política!

Arisco em dizer que nesse momento o leitor deve estar se perguntado: “o que leitura tem haver com empreender? O que leitura tem haver com este artigo?” Calma! Continue me acompanhando e não me abandone (risos!). Explicarei!

Devemos entender o conceito de leitura como algo mais amplo do que leitura de livros, revistas e jornais. Para a pesquisadora Valéria, “não é possível desvincular nenhuma atividade da linguagem, nas suas diversas modalidades, pois ela se inscreve nas seqüências de ações com que se concretizam todas as tarefas. Também é inquestionável o importante papel que a linguagem desempenha para o desenvolvimento das competências, […]” (2015). Paraa professora, pesquisadora e coordenadora da Cátedra Unesco de Leitura do Brasil, também idealizadora do Programa Nacional de Leitura (Proler) Eliana Yunes (PUC-Rio) cita:

 “Quem não lê não é capaz de escrever, em que língua seja. E não somente nas línguas chamadas naturais, mas também subsistemas e códigos como os do corpo, na dança; do traço e do volume no espaço, pintura, escultura, arquitetura; do enquadramento do olho na fotografia, no cinema e ainda sob linguagens mais insuspeitas como as do vestiário, da publicidade, do traço das cidades, do comportamento social” (2003).

Seu mundo é proporcional ao tamanho da sua linguagem. Sua linguagem é proporcional à sua habilidade de leitura. As oportunidades se apresentam para os hábeis em leitura, tanto a leitura verbal quanto a não verbal (ex: fisionomia, gestos, comportamentos, etc). Conforme seu mundo interno se expande, o mundo externo parece ter mais cor, mais brilho, mais textura, mais dimensões, mais movimentos, som, ou seja,, o mundo externo se apresenta mais rico, vivo e cheio de possibilidades. 

Em meio a todo esse contexto de reflexão, surgi um paradoxo: “como mudar algo (pensamento, ações, objetos, conceitos, práticas, etc) se não vislumbramos as alternativas? A criatividade responde bem a essa questão, que por sua vez se soma à proposta de Pensamento Complexo do sociólogo Edgar Morin e da proposta da Doutora Valéria Pereira.

Em especial no campo da criatividade, os psicólogos Mihaly Csikszentmihalyi (“alguém me ensina a soletrar! rs!”) e Edward de Bono são expressivos nas suas contribuições, descobrindo inclusive que é possível aprendermos a sermos mais criativos. Para Edward (1997):

“A mente coletiva e individual do homem, age como um sistema de PADRÕES que cria ideias a partir da EXPERIÊNCIA. Uma vez criadas, essas ideias ficam mais firmemente estabelecidas e CONTROLAM nossa forma de VER as situações atuais e as novas experiências. As IDEIAS são a LENTE através da qual vemos os fatos a fim de vermos as informações. […]. Sem capacidade de desenvolvimento de padrões, a LINGUAGEM seria impossível. Entretanto, todos os sistemas de padrões exigem um MÉTODO para ROMPER um padrão estabelecido a fim de ver as coisas sob uma ÓTICA DIFERENTE. Sem tal método, haverá apenas a continuação das antigas ideias, que se tornam cada vez mais obsoletas. Por isso, O PROGRESSO SE DEVE À CRIATIVIDADE, que nos permite ver as coisas de forma diferente”. Muito do progresso se dá aos empreendedores no campo empresarial, social, educacional, científico, entre outros campos.

De modo a desenvolvermos à criatividade, De Bono propõe a metodologia do Pensamento Lateral: “a palavra lateral implica ABANDONAR  as formas estabelecidas de ver as coisas e procurar novas perspectivas. Essa atitude é uma busca não da melhor forma, mas de formas ALTERNATIVAS”. Para desenvolver atitudes criativas (De Bono apud Butler-Bowdon, 2012):

  • Gere alternativas; mais escolhas;
  • Desafie pressupostos;
  • Crie um número predeterminado de ideias sobre um assunto;
  • Faça analogias entre situações aparentemente diferentes;
  • Inverta a maneira como está enxergando algo;
  • Suspensão de julgamentos; nutrir uma ideia o tempo suficiente para verificar se ela pode funcionar, mesmo que não seja interessante aparentemente.

Já Csikszentmihalyi menciona algumas características das pessoas criativas dos quais salientamos, resumidamente (Butler-Bowdon, 2012, p. 126):

  • Pessoas criativas bem-sucedidas tendem a ter duas coisas em abundância: curiosidade e empenho. Elas são completamente fascinadas por seu assunto e possuem o desejo claro por realizações como fator decisivo;
  • Pessoas criativas levam sua intuição a sério, procurando por padrões onde outras enxergam confusão, e são capazes de fazer conexões entre áreas distintas do conhecimento;
  • Ambientes inspiradores ou belos são melhores em ajudar pessoas a pensar de maneira mais criativa do que participar de qualquer palestra sobre “criatividade”;
  • Embora pessoas criativas possam sê-lo em qualquer lugar, elas gravitam em centros onde seus interesses possam ser atendidos mais facilmente, onde possam encontrar pessoas com ideias parecidas e seu trabalho possa ser apreciado.

Pensamento criativo sobre o próprio pensar, sobre as nossas percepções e sobre os nossos conceitos são fundamentais para o vislumbre de possibilidades e alternativas, para tanto, é necessário também desenvolver habilidades de leitura sobre si e sobre o mundo que nos rodeia.

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Referências

BUTLER-BOWDON, Tom. 50 grandes mestres da psicologia. Trad: Ok Linguística. São Paulo: Universo dos Livros, 2012.

O`CONNOR, Joseph; SEYMOUR, John. Introdução à programação neurolinguística: comoentender e influenciar pessoas. Trad: Heloísa Martins-Costa. Ed. 5. São Paulo: Summus, 1995.

MATTA, Villela da; VICTORIA, Flora. Personal & Professional Coaching: livro de metodologia. São Paulo: SBCoaching Editora, 2014.

YUS, Rafael. Educação integral: uma educação holística para o século XXI. Trad: Daisy Vaz de Moraes. Porto Alegre: Artmed, 2002.

YUNES, Eliana; OSWALD, Maria Luiza (Org.). A experiência da leitura. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

Projeto da professora, escritora e Mestre Valéria Cristina Pereira: Círculo de Leitura.

Revista Nova Escola. Grandes pensadores. Edição Especial, nº 25, julho 2009. Editora Abril. 


Fonte: Artigos Administradores / Pensar, criar, agir e empreender

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