Problematizar ou Solucionar – eis a questão…

Problematizar ou Solucionar – eis a questão…

Qual é a melhor forma de falar sobre direito

A diversidade de culturas e gêneros sempre foi algo que desperta minha atenção. Desde pequeno gostava de passear pelas ruas do centro de São Paulo, que cosmopolita como ela é, demonstrava uma infinidade de interações com outras pessoas, locais, sabores, tornando o ambiente cada vez mais instigante.

Na carreira do Direito encontramos diversidade sui generis de temas. Em toda análise, cada vez mais profunda, são criados subprodutos dos temas com boa qualidade e quase sempre com alguma relevância prática para a sociedade. A máxima já dizia que a vida inventa o direito todo o dia.

Como já falado em artigos anteriores e amplamente debatido pelos pedagogos do Direito, a necessidade de rever a formação e disciplinas na academia jurídica é imprescindível para construção ampla do pensamento jurídico.

Dizer Direito é mais do que mera repetição de leis. Para isso, usemos os papagaios.

O ajuste fino na filosofia interior do advogado faz-se necessário para compreender seu ponto de início, meio e fim nesta gloriosa missão profissional.

Este breve texto, muito distante de qualquer cunho científico tem como fonte a percepção de um advogado que busca aperfeiçoar soluções e rechaçar a problematização inócua.

Imagine você sentado dentro de um Departamento Jurídico com a tela em branco do seu editor de texto.

Seu chefe encomenda um primeiro rascunho de uma possível minuta contratual padrão que mais tarde aplicar-se-á no produto em desenvolvimento pela área de negócios desta empresa para regrar determinado negócio jurídico.

Como advogado da empresa você conhece o produto, de certo modo auxiliou na concepção e acredita que seguir a matriz de risco jurídico definida previamente é o caminho para sucesso e entrega da encomenda.

Não raramente, este profissional (há exceções, é claro!) programou seu mindsetpara a assunção dos menores riscos possíveis, até porque presumimos que a prévia análise jurídica foi capaz de agasalhar boa parte da operação pretendida.

Infelizmente e ainda com o seu editor de textos, ao redigir os primeiros regramentos, você percebe uma lacuna na análise feita e aprovada a qual poderá trazer prejuízo a sua companhia.

O que fazer?

Imediatamente você dispara feito um foguete até o seu chefe e diz: – Houston we have a problem!

Os advogados (líder e liderado) em desespero começam uma conflitante miscelânea de pensamentos elucubrando alternativas frente ao desgaste que será redirecionar o assunto ao Diretor de Negócios.

Já na mesa do Diretor de Negócios, movido pela ansiedade e temor da má notícia, o Departamento Jurídico balbucia a notícia que, aos poucos, é tomada de frustração incontrolável pelo membro da diretoria.

Neste ponto temos uma inflexão: Irei problematizar os pontos abordados ou solucionar com estratégia o impasse?

Atualmente os conselhos das companhias tem visualizado a figura do advogado como um conselheiro, voto minerva, reflexivo, decisório, facilitador, nas decisões sobre riscos e produtos.

Extinta é a época do advogado isolado em sua bolha jurídica de informações e teses, despreocupado com o que haveria de falar aos outros departamentos ou ao seu cliente sobre algo que possivelmente trará risco.

Deixe-me ampliar a questão em nossa vida cotidiana.

Aqueles que já são pais e mães sabem que orientar um filho para que ela faça o dever de casa pode ser penoso e barulhento.

A frustração do educando manifesta-se em formas nada agradáveis.

Gosto do pensamento de que estratégia é construir um castelo de lego com poucas peças.

De certa forma o exemplo listado pode proporcionar a intensa alegria de prover educação aos filhos ou cansaço sempiterno na administração desta tarefa paterna.

O “lego” (ponto) é como resolver o quebra-cabeça, problematizando a situação ou olhando como forma alternativa de solução.

Já dizia a psicologia, da qual nem de longe conheço tecnicamente que a maneira como tocamos os pontos gatilhos fazem todo o diferencial na condução do restante da ação que se pretende tomar.

Sem querer apontar os culpados pela nossa vã atitude, nos esquecemos do valioso ensinamento sobre sensibilidade na prestação de informação indesejada àqueles que tanto esperam resposta positiva no canto da sala de aula?

Ou nos corredores da preparação jurídica voltada apenas como mais uma peça de giro da economia nacional?

Em todos os exemplos listados acima, percebemos que apesar do advogado figurar na lista de ciências humanas, cujo esmero é a solução de controvérsias, o que encontramos atualmente é um profissional amedrontado na participação efetiva do negócio jurídico de seu cliente, preferindo a problematização do fato à solução sobre a responsabilização avocada.

Parafraseando John Locke, o fim do direito não é abolir nem restringir, mas preservar e ampliar a liberdade.

Em que ponto, nosso conselho sensível, estrategicamente estudado e revisto tem contribuído para uma solução contínua na organização defendida?

E aqui não há sinônimo em problematizar ou solucionar. A primeira encontra tarefa árdua demais ao passo que a última encara a tarefa como forma de crescimento na avaliação da situação.

Sem muita extensão, digo que nossa responsabilidade como advogados é prover o melhor conselho. Sem dores? Nem sempre. Arrojados? Nem tanto!

Mas exageradamente compreendidos da responsabilidade para com a sensibilidade sobre o negócio jurídico que se pretende fazer ou desfazer.

Em franca contribuição não apenas com o arcabouço de coleções de pensamentos jurídicos emanados do bom profissional, mas principalmente com o cabedal de informações colhidas ao longo da vida pelo sujeito atrás dos livros (você e eu) capazes de reconhecer que não se trata de mero negócio e tabulação contratual e sim vida para aos que se socorrem dos conselhos jurídicos do advogado.

Para minha, sua e nossa reflexão: – Como diremos direito daqui para frente?

Estou à disposição para a troca de ideias.

Felipe Rodriguez Alvarez


Fonte: Artigos Administradores / Problematizar ou Solucionar – eis a questão…

Os comentários estão fechados.