Quando se quer trabalhar

Quando se quer trabalhar

Ou quando não se liga para os “não” recebidos

Quem frequenta algumas linhas de ônibus entre o Centro de Niterói e Icaraí/Região Oceânica, muito provavelmente já se deparou com uma figura inusitada: um vendedor de guloseimas. Ok. Isso não é muito inusitado, porém, ele não possui a perna direita, sendo, integralmente dependente de sua perna esquerda. Mesmo para uma pessoa com as duas pernas saudáveis, é muito difícil se equilibrar em um ônibus em movimento. Mas, ele, mesmo com sua limitação motora, não se deixou levar.

Seja pela crise, pela dificuldade de ter-se emprego para deficientes físicos, ou mesmo pelas escolhas que ele fez no passado, atualmente aquela parece ser sua única renda. Para muitos seria o fim. Não se faria mais nada, no máximo pedir esmolas ou ficar dependente da boa vontade do governo em ajudar a quem, efetivamente, precisa de auxílio.

Numa escala menor quase todos já passamos por um momento da vida em que a única opção a seguir é a mais desconfortável. Seja um emprego que tenha um salário baixo, uma mudança de área que não fora bem sucedida, a tão batalhada oportunidade de emprego que, ao final das contas, não era o sonho que se esperava. Fatores desmotivacionais sempre vão aparecer no meio do caminho. A grama do vizinho sempre vai parecer mais verde que a sua – não que, as vezes, o vizinho use uns agrotóxicos ilegais, use grama sintética etc, isso também pode acontecer.

O que não pode acontecer é “não deixar a peteca cair”. O velho bordão faz muito sentido –ainda mais em época olímpica – quando temos que passar por cima de algumas dificuldades ou situações que são avessas ao que queríamos. Os valores individuais sempre serão diferentes do próximo, por menor que seja a diferença, sempre haverá um ponto de dicotomia. O mesmo acontece entre o funcionário e a empresa, nunca haverá uma concordância absoluta. Sempre haverá um momento de frustração, infelizmente isso é natural.

Pela magnitude que os valores e a cultura de uma empresa tem, estes serão muito mais genéricos que os individuais. Assim sendo possível uma tropicalização desses para a realidade encontrada. Contudo, quando o que é pregado pela empresa não é posto em prática, a frustração é bem maior e toda a figura que, anteriormente, fora proposta, é deixada de lado e cria-se um vácuo entre o funcionário e a empresa. As pernas dos sonhos e os braços da vontade de trabalhar perdem as forças e a vontade de continuar.

O emprego dos sonhos pode-se tornar distante, a falta e o ruído na comunicação deixam tudo muito mais difícil. Porém – sempre haverá uma conjunção adversativa na história –, o indivíduo pode começar a se considerar como uma parte interdependente do macroprocesso, não como uma simples ferramenta. Isso é diferente daquele bom e velho “blábláblá” das grandes empresas que juram de pé junto que todos (to-dos: desde a tia da limpeza ou o funcionário que aperta os parafusos, até o diretor geral) são peças integrantes e estratégicas para o resultado final. É claro, todos são muito importantes. Muitas vezes a tia da limpeza traz muito mais resultado, otimização e redução de custos que muito analista, coordenador e assim por diante.

A ideia é deixar de considerar parte integrante da máquina inteira. Mas, sim, como parte indispensável para a realização do projeto em que está trabalhando. Por mais que suas atividades possam ser operacionais, cada processo pode ser considerado como um momento único.

“Agora eu estou fazendo isto, sabendo que vou beneficiar aquelas pessoas e conseguir alcançar tal resultado.”

Se a empresa não vê o seu resultado individual e não dá o devido mérito, tenha certeza, o mercado está vendo. Infelizmente,  no momento atual as coisas não estão fáceis para ninguém, porém “isso também vai passar”. Como Diego Maia sempre fala, ótimo trabalhador não dura em empresa medíocre: ou ele revoluciona a empresa como um todo, ou ele sai pela frustração, ou o mercado tira ele de lá.

Seja qual for as três opções que o destino possa reservar, o importante é não se deixar levar pelos muros ou faltas de apoio que a vida possa trazer. “Para frente é que se anda”. Veja com calma, reflita, converse com alguém de sua confiança e tome a melhor decisão, o que não pode acontecer é um talento ser abafado pelas limitações do ambiente.

E quanto ao senhor vendedor de maravilhas, digo, guloseimas, em menos de 5mins vendeu mais dez de pacotes de seus produtos. Quanto à mim é torcer para que aparece uma oportunidade de trabalho em que ele não precise de tanto esforço, mas, por hora, aproveito uma das paçocas que comprei com ele.


Fonte: Artigos Administradores / Quando se quer trabalhar

Os comentários estão fechados.