Quantas janelas quebradas existem na sua escola?

Quantas janelas quebradas existem na sua escola?

Por muito tempo procurei a resposta sobre o que diferencia uma escola de outra, em um momento muito importante de minha carreira descobri que é a Cultura Organizacional, ou seja, os valores e crenças compartilhados pela equipe de funcionários quanto ao futuro de seus alunos

Nos seis anos que atuei como Diretor Escolar, muitas coisas me intrigavam, a grande dúvida era saber por que ao compararmos duas escolas, ambas inseridas em um ambiente muito parecido, de periferia, com baixo IDH, ainda sim podíamos encontrar resultados completamente diferentes, enquanto uma tinha resultados ruins, pouco expressivos, a outra era reconhecida por sua qualidade, pelo bom resultado global de seus alunos. Intrigante, não é mesmo?

Passei a observar, visitava escolas e notava a dinâmica da escola, desde os corredores, o que estava pregado, como era o quadro de aviso, até mesmo os professores dentro de sala de aula, será que haviam alunos usando celulares em sala de aula, ou fazendo outra coisa que não fosse entender a matéria? Qual nível de atenção o professor merecia? A manutenção predial estava em dia?

Agora se realmente você quer conhecer uma escola, visite o banheiro, não aquele restrito a funcionários, estou falando sobre o banheiro dos alunos, o que fica ao final do corredor, vendo o nível de organização, manutenção e utilização deste ambiente, poderá saber se está em uma escola como todas as outras ou se encontrou uma perola, vou explicar melhor!

Após alguns anos com esta dúvida, cheguei à conclusão que a resposta para minha pergunta está em duas palavras, simples de serem ditas, sentidas e observadas, mas de difícil assimilação e implantação, é a Cultura Organizacional, obvio que esta conclusão não veio apenas da minha observação, mas com o auxílio de muitas pesquisas e leituras, destaco o livro “O que o Brasil quer ser quando crescer”, do jornalista Gustavo Ioschpe, embora muitos militantes da Educação possam virar a cara ou torcer o nariz, é uma leitura que estimula, propõe discussões interessantes que vão contribuir muito para uma melhor formação de sua visão sobre a educação.

Para compor a construção da nossa conclusão, faz-se necessário o entendimento da Teoria das Janelas Quebradas, cunhada por George L Kelling e Catherine Coles publicado inicialmente em artigo em 1982:

“Considere-se um edifício com algumas janelas quebradas. Se as janelas não são reparadas, a tendência é para que vândalos partam mais janelas. Eventualmente, poderão entrar no edifício, e se este estiver desocupado, tornam-se “ocupas” ou incendeiam o edifício. Ou considere-se um passeio. Algum lixo acumula-se. Depois, mais lixo acumula. Eventualmente, as pessoas começam a deixar sacos de lixo.”

O ambiente tem forte influência sobre o comportamento e por assim dizer no resultado de cada indivíduo, ou seja, quando o aluno encontra um ambiente degradado, escrito nas paredes, moveis quebrados e palavrões nas portas do banheiro, ele tende a repetir o comportamento, criando um padrão para as próximas gerações de aluno, resumidamente o caos está instalado.

Em uma escola onde os Professores e Diretores não acreditam no potencial dos alunos, temos o ambiente de janelas quebradas instaurado, podemos dizer que trata-se de uma profecia autorrealizável, eu não acredito neles porque são ruins, imaturos e sem compromisso com o próprio futuro, possuem baixo ou nenhum potencial. E dia após dia a profecia é concretizada, destruindo vidas e sonhos. Podemos chamar de efeito Tostines, pois ‘vende mais porque é torradinho ou é torradinho porque vende mais?”, não importa, é um ciclo sem fim, até que alguém tome uma atitude e comece a mudar a realidade.

Após esta conclusão, tomei um comportamento diferente frente aos meus alunos e professores, inicialmente instituímos que nada poderia ficar quebrado, depredado ou necessitando de alguma manutenção, chegamos ao estado da arte neste quesito. Qualquer escrito na porta do banheiro era comunicado pela equipe de limpeza, a manutenção pintava novamente a parte escrita e nós procurávamos os responsáveis para instruir, observo que a grande maioria dos alunos picha o próprio nome e a turma, faltava apenas o número da matrícula.

Passamos a tratar os alunos como adultos e responsáveis, as cobranças eram feitas como se cobra um funcionário no ambiente de trabalho, aconteceu algo mágico e surpreendente, nossos alunos, nossos adolescentes, começaram a ter atitudes e comportamentos de adultos, reforçando nosso princípio que na grande maioria o aluno reage aos estímulos da escola. Alguns aderiram logo de início, outros vieram com o tempo, uma pequena parcela, quase nula, desistiu.

Outro mal de nosso século é o celular e como possui um efeito maléfico no processo de aprendizagem, reforçamos a proibição do uso nos ambientes de aula, como salas e laboratórios, instalamos um relógio analógico em cada sala, acima do quadro e instruímos os alunos a repassar aos pais e familiares o telefone fixo da escola, em caso de emergência poderiam ligar para este. Nas duas primeiras gerações de aluno, nada foi fácil, alguns fingiam ir ao banheiro ou até mesmo sacavam o celular da mochila dentro de sala, utilizamos a máxima da Tolerância Zero, estes eram advertidos e suspensos.

A partir da terceira geração de alunos, eles já vinham para nossa escola sabendo que não poderiam usar celular em sala de aula, que lá o ensino é levado à sério. Pronto havíamos instituído a Cultura da Educação, começamos a colher frutos, tivemos bons resultados nos exames.

Finalizo retomando a pergunta que ocupa o título deste artigo: Quantas janelas quebradas existem na sua escola? Qual escola você e sua equipe querem para o futuro? Quais ações você e sua equipe estão tomando para instaurar um cultura de aprendizagem, de valorização a educação? Como você quer ser lembrado por seus alunos?

Mãos à obra!


Fonte: Artigos Administradores / Quantas janelas quebradas existem na sua escola?

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