Somos tolerantes à corrupção?

Somos tolerantes à corrupção?

A mudança de postura quanto à tolerância do brasileiro com pequenas corrupções mudaria a sociedade em que vivemos?

Por que nós brasileiros temos tanta dificuldade em seguir regras e leis? Para responder essa questão inicial, talvez seja preciso entender o contexto histórico brasileiro, desde a chegada dos portugueses. Àquela altura iniciou-se nestas terras a primeira exploração econômica de que se tem notícia. Exploração! Talvez não exista melhor palavra para definir tudo aquilo.

Na conjuntura econômica, o escambo entre os europeus e os nativos sul-americanos foi a primeira relação comercial internacional em terras tupiniquins. A primeira exploração econômica, no sentido puro e simplesmente econômico. Mas também a primeira exploração no sentido mais perverso da palavra.

Em troca do pau-brasil, madeira nobre contida em abundância nas terras recém-descobertas pelos portugueses, o escambo era a única opção comercial com os índios no período pré-colonial, já que não havia conhecimento de qualquer tipo de moeda pelos nativos. Espelhos, bugigangas e quinquilharias em troca da nobre madeira que deu nome ao nosso país.

Historicamente, me parece este ser o primeiro relato de um ato deliberado com o propósito de ganhar vantagem. Seguindo na linha temporal, o que dizer da corte corrupta portuguesa? Sim, tudo começou muito cedo.

O brasileiro acostumou-se, desde os primórdios, a conviver com a corrupção. De forma que hoje certos acontecimentos parecem não se elencar, para muitos, no rol das corrupções. Quem não conhece alguém que já se beneficiou da vaga de estacionamento para idoso ou deficiente? Ou alguém que tenha falsificado carteira de estudante para pagar a meia-entrada do cinema? Ou que tenha comprado/vendido produtos sem nota fiscal? Que tenha comprado CDs/DVDs falsificados? Ou que tenha mentido na declaração do imposto de renda? Que furou fila? Ou que tenha feito “acordo” para receber FGTS e seguro-desemprego? Ou que trabalhou em empresa recebendo salários “por fora”? São inúmeros os casos.

As pessoas se tornaram tolerantes com certos tipos de atitudes. Algumas justificam o seu erro com “se todo mundo faz, porque eu não?”. Outras realmente não consideram que essas atitudes sejam realmente relevantes. Mas imagine por um momento se todos disséssemos NÃO para esse tipo de comportamento. Imagine que todos os CDs e DVDs comprados fossem originais, que tudo que se comprasse nas lojas fosse acompanhado da nota fiscal, que todos os contratos de trabalho fossem devidamente registrados, que não houvesse uma fraude sequer no seguro desemprego ou no saque do FGTS, que se respeitassem as filas e as vagas de estacionamento. Que resultado teríamos?

Numa sociedade assim, justa e ordeira com respeito aos direitos dos demais, inevitavelmente a arrecadação de impostos aumentaria. Com dinheiro, ou teríamos mais investimentos aumentando a qualidade dos serviços públicos ou teríamos menos impostos. Afinal se todos pagam exatamente o que é devido, o montante a mais na arrecadação tende a “compensar” a carga tributária e a puxar para baixo as alíquotas.

Recentemente divulgado pela Receita Federal, o Plano anual de fiscalização de 2016 que estabelece os critérios e o foco da fiscalização pelo ente federal para este ano, trouxe também os resultados financeiros de 2015. O crédito apurado com a ação da fiscalização da Receita Federal foi de R$ 125,6 bilhões. Apesar da redução em 16,6% em comparação ao ano anterior, o ano de 2015 é ainda o terceiro maior resultado da história, atrás também do ano de 2013.

Apesar disso, o crédito efetivamente recuperado apenas no primeiro semestre de 2015, foi de R$ 75,1 bilhões, resultado 39,7% superior a 2014.

No entanto, percebe-se que ainda existe muita margem para melhora. Não é possível fiscalizar tudo e todos. Cabe mesmo a nós a consciência de fazer bem nosso papel e tentar mudar esse estigma que nos transcende desde a era colonial. Melhorar o país definitivamente depende de cada um de nós.


Fonte: Artigos Administradores / Somos tolerantes à corrupção?

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