Stranger Things: coisas estranhas acontecerão em nossos corações

Stranger Things: coisas estranhas acontecerão em nossos corações

Não contém spoilers

Depois de ver dois episódios de Stranger Things, fiquei com a sensação de que tinham mesclado os roteiros de Conta Comigo (1986), Alien (1979) e Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977) em mais uma série adolescente qualquer cheia de clichês. Quando terminei de ver o último, confirmei essa primeira impressão. E foi justamente por isso que nós, velhinhos da nova geração, que não entendemos o Snapchat e sabemos tudo sobre o Atari, mergulhamos num mundo invertido onde as pessoas ouvem The Clash em fitas e agora não sabemos mais como voltar. E se você está pensando que a conversa aqui é sobre séries, fique mais um pouco e entenderá que o assunto é outro e interessa a você, administrador.

Mas, antes, veja o trailer: 

Os mercados, de tempos em tempos, resolvem revisitar estratégias, modelos, conceitos, estéticas do passado. Às vezes pegam algo que não deu certo e fazem funcionar. Mas também já pegaram coisas maravilhosas e transformaram em fracassos retumbantes. É quase sempre uma questão de timing. É verdade que outros fatores também pesam – como a estratégia e a competência na execução. Mas de nada adianta uma tática perfeita, um time fantástico, se o produto sair no lugar errado e na hora errada.

Zygmunt Bauman disse, com muita sabedoria, que “vivemos tempos líquidos” e que “nada é para durar”. As novas tecnologias reconfiguraram nossos hábitos e não é exagero dizer que nossa própria existência tem se transformado em consequência disso, absorvendo um caráter muito mais efêmero. Tudo passa. Viveremos mais, mas viveremos muitas vidas.

As gerações que nasceram e construíram-se socialmente nesse ritmo são assim e, no futuro, quando tudo for diferente – quem sabe num ritmo ainda mais frenético, quem sabe devagar pelo cansaço da correria de hoje – sentirão saudades. É o que nós, que fomos crianças ou adolescentes nos anos 1980, sentimos hoje. A Netflix entendeu e ganhará muito dinheiro provocando coisas estranhas em nossos corações.

Eu vejo Coca-Cola por toda parte

Vendo essas ações de co-marketing entre empresas de roupas e franquias cinematográficas ou festivais de música que levam nomes de cervejas, você, jovem que não viu o Brasil ser Tetra em 94, deve achar que vivemos o auge da relação entre marcas e cultura pop. Mas deixe-me dizer que nos anos 1980 o lance era muito mais hard. Era chique fumar porque nos filmes era assim e os filmes tinham que ser desse jeito porque era o que as pessoas faziam na vida real. E as pessoas fumavam em todos os lugares. Grávidas fumava. Adolescentes fumava.

Em Stranger Things, você pode ver “merchans” da Coca-Coca como há muito tempo não se faz em filme ou série alguma. Há Coca-Cola por toda parte, em todas as situações, com inserções forçadas que caíram em desuso e só fazem sentido em novela da Globo, quando, do nada, alguém resolve ir ao banheiro e passar um creme da Natura no rosto, ou em Stranger Things. É um product placement dos mais safados e nós ficamos emocionados justamente por isso. A série toca nossos corações, nos transporta para um lugar afetivo do nosso passando dizendo “beba Coca-Cola”.

Tocar no coração é o segredo

No mundo existem dois grandes grupos de marcas: as que vendem produtos e as que entregam valor. As desse último time não prospectam clientes, elas estabelecem vínculos afetivos profundos com seu público e integram-se às suas vidas. São parte da família. São tipo a Netflix. As pessoas não se referem ao serviço de streaming como falam da TV a cabo. A cada dez palavras sobre a empresa no Facebook você encontra um coração (exagero meramente ilustrativo, hein?).

Com Stranger Things, a Netflix direciona para o público saudosista dos anos 80 toda sua força emotiva. Criou uma playlist no Spotify com a trilha da série, gerou memes, compartilha curiosidades, estabelece referências com outras coisas da década. A próxima temporada só sai em 2017, mas até lá tudo ficará muito vivo, porque algumas das nossas melhores memórias foram ativadas e a empresa trabalhará incansavelmente para que elas durem até o ano que vem.

O hype

E se você pensa que saudade só sente quem já viveu, reconsidere seus conceitos e pare de menosprezar o poder do hype. Nós, os velhinhos dos anos 1980, vamos falar muito sobre Stranger Things. Vamos dizer o quanto lembra nossa infância e adolescência, como era legal ouvir música no walkman, jogar Dungeons & Dragons, andar de bicicleta pela rua, acreditar que os marcianos estavam prestes a invadir a Terra, que o baleiro da esquina era um agente infiltrado da CIA ou que nossas avós prestavam serviços à KGB. Vamos falar tanto que você vai se sentir um peixe fora d’água se não souber do que estamos falando. E aí vai assistir para sair falando também.

Netflix, nós te amamos. Mesmo sabendo que não é nada pessoal, são só negócios.


Fonte: Artigos Administradores / Stranger Things: coisas estranhas acontecerão em nossos corações

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