Tirando lições de gestão nos erros da presidente Dilma

Tirando lições de gestão nos erros da presidente Dilma

Como Dilma Rousseff se transformou de supergerente à gestora ineficiente, com a menor popularidade de um presidente na história, ao ponto de se deixar aprovar seu impeachment?

Essa é a pergunta que milhões de brasileiros se farão no decorrer desses dias. Seus erros na condução do governo nos remetem lições valorosas no campo da gestão e serão objeto de estudo dos próximos anos, tanto no campo da ciência política, como econômica.

Comecemos pelo maior dos erros: a falta de transparência. E aqui fica minha ressalva. Não acredito que o gestor deve informar todo o tipo de situação aos seus liderados, pelo contrário, acredito que a informação é poderosa e deve ser utilizada com sabedoria a fim de atingir os objetivos e garantir a estabilidade. No entanto, a partir do momento em que se maqueia a realidade, vendendo uma situação inexistente, corremos o risco de ser pegos “de calças curtas”. E a partir daí podemos ser questionados por faltar com a verdade, enganar, trair. Este sentimento é um dos mais terríveis da sociedade. Quando nos sentimos traídos, enganados, tendemos a nos tornar rancorosos e a perder a confiança, com a credibilidade indo por água a baixo. E, convenhamos, a credibilidade no mundo dos negócios é um dos elementos fundamentais para que o sucesso seja alcançado, porque depende exclusivamente de como o outro nos enxerga.

Ficou evidente que a presidente faltou com a verdade diversas vezes, vide as várias falas durante as eleições de 2014, em que afirmou que o país não passava por uma crise tão grave, que a inflação estava sob controle, que não realizaria mudanças nas conquistas trabalhistas “nem que a vaca tussa”, e que não criaria novos impostos. No nosso dia-a-dia, seria como reunir a equipe de trabalho e dizer: “olha, não precisam se preocupar: não estamos passando por problemas, não haverá reduções de quadro e nenhum declínio orçamentário, isto é intriga da concorrência!”; e após alguns dias, tudo aquilo que negamos, sermos obrigados a executar. Ninguém gosta de ser pego de surpresa, por isso, a transparência é tão importante numa relação, principalmente hierárquica.

E quando cometermos erros? Admitamos! Sejamos humildes o suficiente e peçamos desculpas, independente das posições que ocupamos na sociedade. A arrogância afasta as pessoas. Veja o caso da nossa presidente: mesmo após os erros cometidos na economia, na gestão e controle da Petrobrás, que foi saqueada sem qualquer pudor, não houve nenhum movimento de reconhecer os erros. E nisso a importância dos feedbacks, pois é através deles que enxergamos as oportunidades de melhoria e desenvolvimento. As pessoas que trabalham conosco precisam se sentir a vontade para expor suas opiniões e divergir das nossas, cabendo a nós assimilar as avaliações negativas, reconhecer, retratar e corrigir.

E para que saiamos do outro lado, é preciso atitude. O planejamento é essencial, e a atitude traz o resultado. Planos de gaveta, adiamento na tomada de decisão, ou decisões tardias, podem custar caro. Veja, se nossa governante tivesse agido antes na política econômica, direcionando um nome forte para conduzir a pasta da Fazenda ainda em meados de 2013, trocado o comando da Petrobrás no primeiro sinal de corrupção, “despedalado” quitando os repasses contraídos aos bancos públicos, estaríamos colhendo melhores resultados nos próximos anos. Ao invés disso, temos pela frente pelo menos mais dois anos de recessão, segundo os economistas mais otimistas. E o impeachment não teria a base legal e social que possui agora. Tiramos como lição que é preciso se antecipar ao mercado, se preparar para as eventualidades, planejar baseando-se em variados cenários, ambientes, análises, fatores e… Agir. A omissão, em vários casos, pode ser vista mais negativamente que uma ação tomada erroneamente, principalmente quando se ocupa um cargo de gestão.

O líder precisa ter a visão de que quem o faz são os liderados. Se o gestor precisa afirmar diversas vezes que é ele que comanda, algo está errado. A liderança imposta pode funcionar por um tempo, porém não é sustentável. É preciso conquistar as pessoas, inspirar o melhor de cada individuo. Conquistamos as pessoas quando, ao invés de dizermos “faça isso”, digamos “façamos juntos”. A liderança pelo exemplo não saiu de moda, e nossa presidente não observou isso. O tamanho da máquina pública, com a sua infinidade de ministérios e cargos comissionados, os gastos com cartão corporativo, que aumentaram 51% no ano eleitoral, a compra de utensílios de prata para a cozinha do Palácio no valor de R$ 215 mil em meio a um arrocho fiscal são algumas das incoerências da presidente. Na fala, pedia aos brasileiros para fazerem “sacrifícios temporários” com o pagamento de mais impostos, como a recriação da CPMF o imposto do cheque, e, na prática, havia pouco envolvimento de causa da própria presidente.

Já ouviu aquela frase “ninguém constrói nada sozinho”? Em qualquer organização, por mais brilhante que o líder seja, consegue alcançar os objetivos sozinho. E a relação interdepartamental tem papel fundamental nisto, pois com a infinidade de atribuições de uma organização, é impossível tocar um projeto sem envolver outros departamentos. Envolver as pessoas nos objetivos, reconhecer a importância dos outros poderes, valorizar os indivíduos dos setores são atitudes que o líder deve exercer para ter um bom relacionamento, algo que faltou a nossa presidente em sua gestão. Nos últimos dias, com a eminência do pedido de impeachment ser votado na Câmara dos Deputados, vários parlamentares relataram nunca terem sido chamados para conversas no Palácio do Planalto, algo que ocorreu durante essa semana, numa tentativa frenética de comprar apoio com ementas parlamentares e cargos no governo. Vários relatos demonstram que a Presidente nunca teve bom relacionamento com a maioria dos parlamentares e sempre encarregou a articulação política a ministros. Com temperamento forte, mostrando diversas vezes frieza no contato com os deputados, foi afastando de si um importante poder que poderia ter revertido a ação que foi aceita no último dia 17 de abril.

Com tudo isso exposto, concluímos que a senhora Presidente nos trouxe valiosas lições com seus erros de gestão dos últimos anos, descontruindo a imagem vendida por Lula na eleição de 2010, da supergerente, que daria continuidade na gestão progressista. Super-heróis na política e nas empresas costumam serem fiascos, visto que como exposto diversas vezes nesse texto ninguém constrói nada sozinho. Os erros cometidos pela presidente não são diferentes dos que cometemos no dia a dia, e por isso a importância de estarmos vigilantes, ouvindo a opinião dos pares e investindo no nosso desenvolvimento pessoal, reconhecendo os erros e buscando exaustivamente os acertos. No mundo corporativo não temos o processo de impeachment, que nos dá o direito de recorrer, de se justificar, de tentar comprar o apoio dos demais, mas assim como na política enquanto exercemos a função designada, temos a obrigação moral de darmos o melhor de nós para os nossos liderados, afim de que no final das contas possamos dormir com as consciências tranquilas.


Fonte: Artigos Administradores / Tirando lições de gestão nos erros da presidente Dilma

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