Trabalho voluntário sim, amador não

Trabalho voluntário sim, amador não

O Brasil é um celeiro de boa vontade e diversas pessoas participam de todo tipo de projetos de voluntariado, doando seu tempo e esforço em prol do próximo. Pessoas que precisam ser assistidas, infelizmente não faltam. Qual o grande motivo para que organizações voluntárias enfrentem tantas dificuldades no seu dia-dia? Vamos entender com base em critérios de excelência!

Em meio à busca por uma pós-graduação, ouvi a seguinte pergunta de um amigo: “Porque não tenta algo relacionado ao desenvolvimento comunitário?”. A pergunta tinha muita lógica. Talvez porque desde os meus 10 anos, já me envolvia em projetos educacionais ou de desenvolvimento comunitário, mas a minha resposta é o que fez nascer esse artigo.

Justamente por contribuir há anos em espaços voluntários que eu tenho a segurança em dizer que um dos maiores problemas que impedem que um trabalho mais sólido seja feito não é a falta de colaboradores, afinal o Brasil é um celeiro de boa vontade. Assumo por motivos óbvios, caro leitor, que também não faltam pessoas que necessitem de ajuda.

O grande problema é a falta da gestão com qualidade.

Não estamos falando aqui de uma ação pontual como alimentar moradores de rua vez ou outra, estamos falando de instituições mais bem estruturadas, regularizadas sob alguma forma de organização e que desenvolvam um trabalho permanente.

A causa disso é um tanto quando óbvia e dependendo da instituição, pode ser um debate utópico. Estamos falando de entidades, em sua maioria, gerindo pouco dinheiro e dependentes de voluntários, ou seja, pessoas que levam sua boa vontade, tempo e formação multicultural para agregar. Se um dentista quiser ajudar no financeiro ou se um psicólogo quiser assumir a administração, vai acontecer. Não é tão frequente o encontro entre formação técnica e função exercida.

Ainda assim, para elas, uma qualificação mínima para gerir é item mais do que necessário e deve ser pensado. Mas o que acontece com as instituições maiores, que têm maior disponibilidade financeira e potencial?

Vou trazer ao debate cinco dos treze fundamentos do Modelo de Excelência da Gestão (MEG), “o carro-chefe” da Fundação Nacional da Qualidade para estimular as organizações brasileiras na evolução da gestão e na geração de valor.

– Atuação em rede: As organizações de trabalho voluntário existem para alcançar as pessoas que o governo não conseguiu. Isso faz do trabalho delas algo muito especial, mas não único, portanto, não há motivo pra se isolar. É mais do que necessário que as instituições conversem, debatam melhores práticas, percebam o que uma faz de melhor, grandes falhas já ocorridas, projetos que podem se unir e se complementar, alavancando assim cada uma delas.

– Conhecimento sobre clientes e mercados: Não é muito raro ver projetos darem errado no dia a dia por uma aderência muito menor do que se espera. O motivo disso é que nem sempre o que se julga como prioridade para uma pessoa assistida é de fato a prioridade para ela. Conhecer o que precisam, a fundo, é muito diferente de supor o que é necessário pra elas.

– Decisões fundamentadas: Esse é outro problema campeão. Muitos voluntários ficam anos na organização e ascendem na “hierarquia”. O que era pra ser uma liderança experiente acaba se tornando um tomador de decisões somente com base na experiência pessoal. Isso é extremamente prejudicial, as decisões devem ser tomadas com base em regras, normas, itens por escrito, manuais feitos coletivamente – e o feeling da experiência. Afinal, como você questionaria uma decisão tomada com base na opinião?

– Valorização das pessoas e da cultura: Fazer o bem ao outro é o seu prêmio. Não é uma inverdade, mas estaremos ignorando horas dedicadas, pequenos stress, algum dinheiro investido e muitas vezes nem um muito obrigado da instituição. Ter formas de valorizar a pessoa que está ali com você é primordial, além de criar uma relação de parceria.

– Inovação & Liderança transformadora: O resultado quase sempre vai ser bom, já que o grande retorno é o sorriso e a satisfação das pessoas, mas será que é o seu melhor possível? Buscar novas formas de fazer e orientar a estratégia da organização para a inovação pode ser bastante fácil, apenas dando espaço para que novas ideias sejam colocadas em prática, experimentadas, que exista o incentivo para o surgimento de novos líderes e que eles sejam preparados minimamente para assumir espaços com qualidade.

A resposta ao meu amigo foi a de que prefiro me aprimorar e fazer minha pós em Gestão Estratégica ou uma especialização em projetos, para que eu possa aprimorar a gestão das instituições voluntárias nas quais atuo.

Pensar na qualidade da gestão, mesmo no meio do voluntariado, não é atingir índices financeiros, mas sim, atender a um número maior de pessoas com cada vez mais e mais qualidade!


Fonte: Artigos Administradores / Trabalho voluntário sim, amador não

Os comentários estão fechados.