Uma fábula sobre a função controle

Uma fábula sobre a função controle

A função controle na gestão vive extremos do controle por resultados e o controle diretivo, expressões que contribuem pouco com a melhoria dos sistemas administrativos

Alexandre casara com Fabiana. E nos desafios e riscos do dia a dia, Alexandre deixava cotidianamente de cumprir com seus deveres, diria assim, contratualizados. Não ajudava em casa, saía com os amigos todos os dias, gastava dinheiro com farras. A esposa, percebendo que aquela associação consorcial estava desequilibrada, chamou-o a uma conversa. Ele, do alto de sua empáfia, disse a mulher que ela não arrumaria coisa melhor que ele e se quisesse, que o dispensasse.

Fabiana chorou, esperneou, conversou com as amigas, e por fim aceitou o ultimato. Dispensou Alexandre e voltou a vida normal. Conheceu em três meses Márcio, que parecia ser diferente de Alexandre, e de forma precipitada, por medo da solidão, quem sabe, já foi morar junto com o novo companheiro.

Passados os dias, começa a mesma romaria…Futebol, mulheres, bebida, e nada de dar atenção em casa. Fabiana agora fez diferente e passou a partir para a ignorância. Esperava o “namorido” em casa e quando ele chegava, eram brigas homéricas, que por vezes bordejavam situações violentas. Punições, sanções indiretas e uma brigalhada que tornou a vida dos dois um inferno e que terminou, por fim, com mais uma separação.

Essa breve e corriqueira historieta (que se repete em diversos lares) nos serve para ilustrar a visão que temos da função controle na Administração Pública, contexto no qual está imersa a atividade de Auditoria Interna. De um lado, aqueles com uma orientação mais liberal, da auto regulação dos mercados, que defendem que tudo se controla pelo interesse próprio e que a corrupção vem puramente da existência de normas. Essa linha de pensamento valoriza o chamado controle por resultados, em um desenho de credenciamento/descredenciamento, no qual se uma coisa não serve, ela é descartada, buscando-se em substituição outra equivalente no mercado.

A fábula mostra que as relações de qualquer natureza, administrativas ou pessoais, não se fazem e desfazem de forma tão simples. Existem estruturas, hábitos e saberes que regem essas relações. Assim como a moça Fabiana, que desafiada por Alexandre, busca algo melhor no “mercado”, deixando para lá sonhos e investimentos; quando determinado serviço público é repassado ao privado, nas ideias de privatização ou publicização, não é tão fácil assim avaliar que ele é bom ou ruim, romper a relação com vínculos de dependência e ainda, achar tão facilmente no mercado equivalente.

A fábula traz outro extremo na discussão do controle, na qual tem-se uma visão mais diretiva, de punição de agentes como o prato principal, com um viés de lutas e brigas na busca de ocupação de espaços, o que deteriora as relações, na busca idealizada.

Como na relação com Márcio, na qual a postura belicosa torna a relação insustentável, uma relação de controle focada apenas na conduta de agentes, de forma ostensiva, vira uma praça de guerra, na qual questões preventivas ou sistêmicas são trocadas pela busca de alvos, dando margens a jogos de poder e a perseguição política, afetando a legitimidade de que conduz as ações de controle.

O cotidiano das relações no setor público mostra que o papel do controle necessita valorizar a melhoria dos sistemas administrativos, no robustecimento dos controles internos, permeados em uma discussão de gestão de riscos, de processos mapeados e objetivos estratégicos delineados. Uma postura de fortalecimento das relações políticas e administrativas, tornando-as mais sustentáveis. Fabiana, a protagonista de nossa história, não se modificou na relação, ou trocou ou agrediu.

Da mesma forma, no dia a dia da gestão pública, o controle necessita valorizar o acerto para replica-lo e entender o erro como oportunidade de aprendizado. Maximizar a visão no erro e demonizá-lo, ofuscando os ganhos, pouco contribui com a gestão, não constrói pontes e sim muros, enaltecendo o medo, a culpabilização, o denuncismo, fomentando um ambiente que torna o mais importante, o atingimento dos objetivos, acessório.  Pensemos nisso!

 


Fonte: Artigos Administradores / Uma fábula sobre a função controle

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