Vendam as vacas leiteiras

Vendam as vacas leiteiras

No momento em que o novo governo começa a “colocar a cara para fora da porta” e anunciar as primeiras medidas de enxugamento da máquina pública, um detalhe causou-me preocupação, embora não me surpreendesse: nenhuma intenção de privatizar, conceder ou qualquer outra forma de alavancar a atuação privada nas grande obras de infraestrutura.

No momento em que o novo governo começa a “colocar a cara para fora da porta” e anunciar as primeiras medidas de enxugamento da máquina pública, um detalhe causou-me preocupação, embora não me surpreendesse: nenhuma intenção de privatizar, conceder ou qualquer outra forma de alavancar a atuação privada nas grande obras de infraestrutura.

Por que não me surpreende?

Primeiro, porque é muito cômodo para o empresariado brasileiro, acostumado às benesses de uma relação promíscua com os governos, não investir na implantação de infraestrutura. Obras dessa magnitude são extremamente caras e demoradas, a taxa de retorno desses investimentos costuma ser muito baixa e o “payback”, tempo esperado para esse retorno, muito elevado. Então, já que o próprio governo se dispõe a fazê-lo, que o faça, sempre foi assim e sempre será assim.

O segundo motivo é porque os políticos veem na construção de infraestrutura uma espécie de “vaca leiteira”, ou seja, uma provedora permanente de contratos de valores astronômicos e um fluxo quase infinito de propinas e de doações legais e ilegais para campanhas eleitorais, por isso o interesse de mantê-la longe do controle do mercado.

O ideal é que os órgãos públicos responsáveis pelo gerenciamento dessas obras passem a desempenhar o papel de elaboradores de projetos e de estudos de viabilidade, que seriam “vendidos” ao mercado e que recursos do orçamento público sejam oferecidos a investidores privados, com juros menores e prazo de carência alto para o pagamento do principal, nos modelos conhecidos como “fast track”, ou de tramitação rápida, através de agentes financeiros. Recursos esses que seriam liberados gradativamente, com base em Acordos de Níveis de Serviços (SLA), ou seja, se executar uma etapa dentro das condições de prazo, custo e escopo acordadas, recebe a parcela destinada à próxima etapa.

O modelo abriria um novo leque de atividades no mercado construtivo, que englobaria a análise de risco do empreendimento, seguros de crédito e da própria execução, auditoria, “compliance”, entre outros, todos exercidos pela iniciativa privada. O importante é tirar das mãos dos políticos e do Estado a possibilidade de atuarem de forma cartorial, impedindo e liberando ações de acordo com as suas conveniências e de seus agentes ou mediante o pagamento de encargos “extras” e “não contabilizados”.

Mas, pelo que parece, não há nenhuma sinalização nesse sentido e, a não ser que haja uma forte pressão da sociedade e do mercado para tal, as vaquinhas vão continuar sendo ordenhadas pelos mesmos atores de sempre e da mesma maneira “ad æternum”.


Fonte: Artigos Administradores / Vendam as vacas leiteiras

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